Pages

domingo, 20 de abril de 2014

Fase chilena


Estou numa "fase chilena" esse mês.

Há umas duas semanas terminei de ler A contadora de filmes, do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, que foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Trata-se da história de uma menina, Maria Margarita, que, após um concurso com os irmãos, é a escolhida para ir ao cinema uma vez por semana e depois contar o filme para a família. O pai havia sofrido um acidente de trabalho e perdera o movimento da cintura para baixo, por isso, o salário foi reduzido a uma ajuda de custo que mal custeava as despesas da casa; a mãe havia ido embora. Aos poucos, as pessoas do povoado da região de salitrais se interessa pela forma como Maria Margarita (Fada Docine) e passa a ir à casa dela para ouvi-la narrar os filmes.

Este livro foi publicado pela Cosac Naify, uma das minhas editoras preferidas, e o projeto gráfico, de Paulo André Chagas, é primoroso.


Somos feitos do mesmo material dos filmes.
 ~Fada Docine



Também li A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra, recentemente. É a história de Julián, professor de literatura e "escritor de domingo", que aguarda a mulher, Verónica, voltar de uma aula de artes. Junto com ele, está Dani(ela), sua pequena enteada. Enquanto aguarda, lembra de pedaços de seu passado e também constrói futuros possíveis para a menina. E se Verónica não voltar?

Gostei bastante do livro porque a narrativa é incomum. Nesse livro, Zambra cita a cantora e compositora chilena Violeta Parra - coincidentemente, comprei o DVD "Violeta foi para o céu", pois estava com vontade de rever esse filme. Quis assistir ao filme logo depois de ter terminado de ler o livro.

De Zambra, já tinha lido Bonsai, que também é ótimo e tem um dos projetos gráficos mais geniais que já vi (as páginas foram impressas com as "marcas de corte" nas extremidades das folhas - essas marcas são usadas para a gráfica fazer o corte de acabamento depois que a capa e todas as páginas já estão impressas... ou seja, o livro foi impresso "inacabado" para os leitores terminarem de "apará-lo" - é demais! Parabéns pelo projeto, Flávia Castanheira). Esses dois livros do autor foram publicados pela Cosac Naify.

Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.

Por último, gostaria de recomendar o filme "Violeta foi para o céu", de Andrés Wood. Ele está disponível no YouTube (porém, sem legendas). É um filme maravilhoso inspirado na vida de Violeta Parra (1917-1967).


Também comecei a ver este ótimo documentário sobre a vida dela, mas ainda não terminei.

"Volver a los diecisiete" é minha música preferida e fiquei ouvindo várias vezes. As músicas de Violeta Parra foram difundidas pela cantora argentina Mercedes Sosa, que gravou um álbum em homenagem à cantora chilena em 1971.



Há uma versão da Mercedes Sosa e Milton Nascimento aqui; e outra versão da Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa aqui. São todas maravilhosas.

Também gosto muito da música "Gracias a la vida".

Não sou uma pessoa muito "musical" (a música não é algo essencial na minha vida), mas algumas músicas me chamam muita atenção e eu passo a amá-las. Por causa da Violeta Parra, descobri este link para transformar links de vídeo/música no YouTube em arquivos mp3, porque eu queria gravar essa música no meu celular para poder ouvir quando quiser. Aproveitei para converter outras músicas também.

***

Não consigo precisar o momento exato em que passamos a amar um país estrangeiro, mas desconfio que, por esses dias, por conta desses contatos com a cultura chilena que me enriqueceram e encantaram, passei a amar o Chile. Nas próximas férias quero ir para lá.

Por vários motivos, Itália, Portugal, Polônia, República Tcheca (países do Leste Europeu em geral), Turquia, Índia e Japão também me atraem e nutro impressões e expectativas muito positivas em relação a esses lugares e respectivas culturas. Quero visitar todos eles.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Como interpretar um silêncio



Como interpretar o silêncio que vem depois de uma pergunta?

Como interpretar os vários silêncios do dia a dia?

O silêncio que precede um "não" (quando gostaríamos de ouvir um "sim" - ou vice-versa) ou antes de um "adeus" (quando não gostaríamos de partir ou que o outro partisse).

O silêncio daquela empresa que prometeu um retorno sobre a entrevista para um trabalho que tanto queríamos, e nunca liga. 

O silêncio diante de duas pessoas que não se gostam, apenas se toleram, sendo que gostamos das duas.

O silêncio pela falta de assunto com vizinhos ou pessoas desconhecidas dentro do elevador.

O silêncio diante do choque. Ou choques. Diante das crianças no meio de um tiroteio, da mãe inocente que morre com o filho nos braços, do filhinho de papai que, em alta velocidade, destrói com uma velocidade ainda maior a vida de pessoas inocentes - e nunca será punido -, de pessoas sendo espancadas sem motivo, de animais sendo torturados e mortos por esporte. O silêncio antes da lágrima.

Como encarar o silêncio ao falar com alguém que se ama muito e não conseguir colocar o sentimento em palavras, porque, de tão grande, o sentimento não cabe em palavra nenhuma?

O silêncio diante da tragédia. O silêncio diante de uma alegria inominável. O silêncio diante de uma solidão mansa. O silêncio que ecoa.

O silêncio de uma carta extraviada, de um e-mail que não chega, de alguém que liga, mas não diz nada.

O silêncio ao nos darmos conta de alguma verdade. Ou de alguma mentira.

Às vezes o silêncio é tudo que nos resta.

sábado, 12 de abril de 2014

A história de uma gata


Essa é a gata da história. Não sabemos seu nome. Pela cor dos olhos, vamos chamá-la de Blue Jasmine.

Há mais ou menos um mês, meu ditian (avô) começou a ter alguns problemas de saúde e precisou ser internado. Minha batian (avó), meus pais e tios ficaram meio atarefados por conta disso, e a casa dos meus avós ficou meio vazia e abandonada nesse tempo. Um certo dia, quando minha batian entrou no quarto dos fundos, seu antigo quarto de costura, que ela deixa aberto provavelmente para ficar menos abafado, talvez para pegar ou guardar algo, viu que, dentro de sua caixa de retalhos havia bem mais que retalhos...

30/03/2014

Havia a Blue Jasmine e mais seis filhotes. Seis


Um dos filhotes é amarelinho (eu o batizei de Chatran, por causa daquele filme japonês dos anos 80 que muitas crianças devem ter visto na Sessão da Tarde - um filme adorável), outro é preto com o focinho branco, entre outras manchas brancas, outro é cinza tigrado com manchas amarelas (tem uma orelha amarela também), dois são bem parecidos: tigrados claros e o sexto é tigrado escuro.


Meus avós acham que a gata, na verdade, não deu cria lá no quarto de costura, dentro da caixa de retalhos, mas que levou os filhotes, um a um, para lá, por achar que era um lugar seguro. Não havia sujeira nem marcas de sangue. Minha batian comentou: "Imagina o trabalho, coitada da gata!". Pois é.


Minha tia comentou que a gata deve ser muito esperta, porque analisou o terreno antes de escolher ficar por ali. Viu que a casa não tinha cachorro, que o ambiente era seguro, e a caixa de retalhos era bem confortável. Todos os tipos de mães devem ter um certo tipo de instinto materno e talvez um sexto sentido que as permite fazer escolhas melhores.

O caso é que minha batian obviamente não poderia colocar a Blue Jasmine e os filhotes na caixa e deixá-la na calçada ou largar em outro lugar qualquer. Muitas pessoas fazem isso, e até coisas muito piores com seus próprios animais de estimação, mas não vamos nos ater a isso, senão a gente chora e fica cada vez mais desesperançado em relação à humanidade.

Esse gatinho tigrado pode ser o Spidercat

Minha tia comprou ração para a gata e, há algum tempo, também uma ração para os filhotes. Há duas semanas, os gatinhos mamavam, agora já se alimentam de ração. Li na internet que não é bom dar leite para os filhotes, o melhor mesmo é ração. E todos continuam vivendo felizes lá no quarto de costura bagunçado da minha batian.


Hoje, depois de duas semanas, eu os vi novamente. Estão mais crescidinhos, mais arteiros e interativos.

12/04/2014

Minha batian disse que agora eles sobem em uma caixa de papelão sozinhos e dormem ali. Continuam muito bonitinhos.

Se eu pudesse escolher um, ficaria com o Chatran. Se eu não passasse umas 14 horas fora de casa todos os dias, talvez pudesse adotar um gato ou qualquer outro ser vivente que precisasse de cuidados. Mas, por enquanto, abro mão dessa responsabilidade.

O futuro da mãe e seus filhotes ainda é incerto. A única certeza é a de que eles não ficarão na casa dos meus avós. Precisam de novos lares. Minha tia disse que gatas entram no cio de três em três meses e será necessário castrar essa gata. Os pequenos precisarão ser vermifugados.

Se algum gateiro tiver interesse, é só deixar um recado. As fofuras estão todas em São José dos Campos.