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segunda-feira, 14 de julho de 2014

De Cuba com carinho


Título: De Cuba com carinho
Autora: Yoani Sánchez
Tradutores: Benivaldo Araújo e Carlos Donato Petrolini Jr.
Nº de páginas: 208
Editora: Contexto
Ano de publicação: 2013 (2ª edição)

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Mês passado li uma matéria (na verdade, o formato lembra mais uma entrevista) no jornal O Globo sobre o novo portal de notícias (www.14ymedio.com) lançado pela blogueira cubana Yoani Sánchez e deu vontade de comentar sobre o livro dela, que li há alguns meses.


O livro é um conjunto de posts do antigo blog dela, o "Generación Y". Me incomodou um pouco o fato de não haver datas nos escritos, mas, aparentemente, são posts escritos em 2009. O que mudou em Cuba de lá para cá? Não sei dizer, só sei que, desde janeiro de 2013, segundo a entrevista recente com Yoani, o governo cubano aprovou uma nova política que permite que os cubanos viagem ao exterior; até então, isso era "proibido" - poucos, muito poucos (e com dinheiro) conseguiam passaportes e autorização para sair do país. Parece que quem saía (ou sai) ilegalmente não pode retornar nunca mais.

Os textos de Yoani lembram um pouco as redações dissertativas que eu precisava escrever no colégio, como treino para o Vestibular. A maioria dos posts são compostos por três parágrafos com introdução, desenvolvimento e conclusão. Apesar de parecer muito pouco, esse formato funciona bem para um blog - são textos curtos, informativos ou reflexivos, às vezes com toques de humor, e que nos fazem pensar. Quisera eu conseguir formatar meus textos dessa forma, pois, em geral, acho que escrevo demais.

Ao ler o livro de Yoani, também consegui entender melhor o contexto do filme "Habana Blues", dirigido pelo espanhol Benito Zambrano, em que dois músicos estão em busca do sucesso e, apesar de todas as dificuldades, conseguem uma proposta de contrato internacional - seria a oportunidade que muitos cubanos querem: sair de Cuba. Os dois músicos também tinham uma banda e a maioria dos integrantes quer assinar o contrato e sair da ilha, mas nem todos concordam com isso, o que acaba gerando um conflito. A esposa de um dos músicos se cansa da vida desregrada do marido e pensa em emigrar ilegalmente para os Estados Unidos com os dois filhos pequenos. Quando assisti a esse filme, em algum dia desse ano, não conseguia ter a dimensão do que acontece em Cuba, e a Yoani me fez entender um pouco melhor.

A ilha é controlada por um governo "comunista" que não dá liberdade aos seus cidadãos. O que será que um governante tem na cabeça para fazer quase todos de seu país sofrerem e passarem todo tipo de necessidades, não? Lembrei de uma máxima popular que diz algo do tipo: "Se quiser conhecer uma pessoa de verdade, dê poder a ela". Se algo não dá certo, por que não voltar atrás, assumir os erros e pensar num futuro melhor e mais digno para a maioria? Por que insistir em algo que claramente já não dá certo?

O livro da Yoani me passou a impressão de que quase todos os cubanos estão desesperados para emigrar, pois a situação em Cuba é insustentável. Os salários são "simbólicos" e é preciso trabalhar ilegalmente para conseguir dinheiro para pagar contas e colocar comida na mesa. Em um dos posts, ela até escreve que, às vezes, o fato de o emprego oferecer merenda ou não é fator decisivo para alguém aceitar o trabalho ou não (o lanche distribuído diariamente para o trabalhador pode ser revendido, gerando, assim, uma renda extra). Assim como esse post, existem vários outros que lembram contos fantásticos do Cortázar.

"A vantagem de uma merenda

Quero fazer uma ode em louvor à merenda diária que recebem os guardas e vigilantes de certos centros estatais. O pãozinho com presunto e queijo, junto com o refrigerante que o acompanha, são o motivo pelo qual milhares de cubanos continuam nos seus empregos. Sem os ganhos provenientes da venda desse lanche, muitos teriam abandonado definitivamente seus postos de trabalho. Inclusive, uma das primeiras perguntas quando se está procurando emprego não é sobre o valor do salário - igualmente simbólico e insuficiente em qualquer parte -, e sim sobre a existência ou não de um lanche. Vendê-lo por vinte pesos cubanos permite ao trabalhador duplicar seus proventos, ainda que isso implique abrir mão de tão necessário alimento.
Em todo lugar, exibidos discretamente porém fáceis de encontrar por quem procura, estão a garrafa de Tropi Cola e o sanduichinho embrulhado em celofane. Podem ser vistos na entrada das centrais telefônicas, atrás das portas de vidro dos bancos, nas guaritas que protegem a entrada dos ministérios, nos pontos de venda de bilhetes de ônibus, no interior dos museus e até nos cibercafés que oferecem conexão lenta a preços elevados. Em todos os lugares que precisam ser vigiados, escoltados, protegidos, há alguém que se vê obrigado a vender o lanche para continuar em guarda. Umas fatias de presunto e outras de queijo podem fazer a diferença entre ir todo dia ao trabalho ou ficar em casa."
(De Cuba com carinho, p. 67-68)

Para ler o post original, em espanhol, clique aqui.


Recomendo a leitura do livro!


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