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sábado, 26 de julho de 2014

Dias Perfeitos - Raphael Montes


Título: Dias perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 274
Ano de publicação: 2014

***

Já ouviu falar de Raphael Montes? Se não, provavelmente vai ouvir falar e muito. 


Raphael é um jovem advogado e escritor carioca de 23 anos que, após chegar a ser finalista em importantes prêmios literários do país (São Paulo e Machado de Assis), teve o primeiro romance, Suicidas, publicado pela Benvirá (selo da editora Saraiva) e, depois, outras editoras disputaram os direitos de publicação de Dias perfeitos.

Tive interesse em ler esse segundo livro depois de quase morrer de tédio com a leitura dos livros AvóDezanove e o segredo do soviético (do angolano ondjaki) e Garota encontra garoto (da escocesa Ali Smith). Costumo ler vários livros ao mesmo tempo, mas estava me concentrando nesses dois nas viagens de ida e volta do trabalho e, bom, me entediando muito. Tem uns livros que talvez tenham tanta "genialidade" e "inovação" que não consigo alcançar.

Enfim, depois de ler várias resenhas elogiosas sobre Dias perfeitos em jornais, blogs e revistinhas de livrarias (aquelas que promovem livros) - exceto uma resenha negativa na Folha, mas senti um certo recalque no resenhista... -, resolvi comprar e ler, pois estava bastante curiosa para saber o que um autor de vinte e poucos anos, finalista de prêmios literários, que conseguiu ser publicado pela Companhia das Letras, vendeu os direitos de adaptação para o cinema e que está aparecendo direto na mídia havia produzido de tão bom.

Terminei de ler o livro hoje de manhã e, apesar de eu não considerar o livro uma "grande obra da literatura brasileira", é uma ótima "literatura de entretenimento". Leitores que gostam do gênero provavelmente ficarão instigados a querer ler mais e mais para saber o que acontece nos próximos capítulos e no final (adoro um bom filme de suspense - não tive muita sorte com livros do gênero, por isso não leio/lia). Então, o livro cumpre o objetivo: entreter.

O enredo gira em torno de Téo (Teodoro), um estudante de medicina da UFRJ, e Clarice, que estuda história da arte na UERJ e está escrevendo um roteiro para cinema. São jovens aparentemente comuns da classe média carioca que se conhecem em um churrasco familiar. Depois desse encontro, Téo fica apaixonado por Clarice e, como ela não parece interessada em manter nenhum contato com ele, ele decide que o mais certo é sequestrá-la para provar o quanto a ama e como o relacionamento dos dois pode ser maravilhoso. Apesar de o clima quase sempre ser tenso, também tem toques cômicos, como, por exemplo, logo na primeira página:

Gertrudes era a única pessoa de quem Téo gostava. Desde o primeiro momento, ele soube que os encontros com ela seriam inesquecíveis. Os outros alunos não ficavam à vontade. Mal entravam na sala, as meninas tapavam o nariz; os rapazes buscavam manter alguma postura, mas o olhar revelava incômodo [...] 
Serenamente à sua espera, estava ela. Gertrudes.
Sob a luz pálida, o cadáver ganhava um tom  amarronzado muito peculiar, feito couro. [...]

Outra coisa engraçada foi o autor citar o Sobotta em duas passagens. Johannes SOBOTTA é o autor de um Atlas de Anatomia bastante indicado por professores da área de saúde por ser um dos melhores. Eu o usava quando estava em odonto.

Acabou cochilando na poltrona e sonhou que conversava com Sobotta sobre o que havia feito com Clarice. Estavam num lugar montanhoso, o olhar de Sobotta era ríspido e Téo ficou nervoso, mas quando acordou achou tudo muito engraçado.

 
 [A PARTIR DAQUI CONTÉM SPOILERS -  EU AVISEI! :)]

A história também contém algumas inverossimilhanças, assim como quase todos os filmes de suspense. Aquelas cenas em que perguntamos/exclamamos para quem está assistindo conosco: "Você acha que a Fulana ia mesmo abrir a porta para o Sicrano depois de ele quase estrangulado ela?", "Até parece que a Sicrana ia sair correndo no meio do escuro sem enxergar nada com o assassino atrás dela com uma lanterna!". Segue uma lista de passagens, a meu ver, pouco convincentes:

1. A facilidade com que Téo dopa Clarice e a coloca (e tira) de uma mala - tudo bem que ela é pequena e muito magra, mas algumas passagens sugerem que é superfácil colocar e tirar alguém VIVO de uma mala;

2. A facilidade de Téo conseguir pegar Thiolax (o nome do anestésico parece ser fictício) na geladeira do biotério da faculdade - como se esse tipo de coisa não fosse supercontrolada por funcionários, exatamente por conta do perigo de psicopatas o quererem para fins mais macabros que anestesiar ratinhos de pesquisa - e também o fato de o anestésico funcionar mesmo sem refrigeração em Ilha Grande e na estrada;

3. O fato de Téo levar livros de medicina para ler/estudar durante a viagem;

4. O fato de Téo levar vários medicamentos e alguns materiais cirúrgicos para a viagem (para sutura, por exemplo), sendo que ele, aparentemente, acabou de terminar o primeiro ano (demonstrado pela aula de anatomia - essa é uma das matérias de base nos cursos de saúde e geralmente são ministradas no primeiro ano); em um dado momento ele medica e sutura ferimentos de Clarice, além de fazer um procedimento cirúrgico com uma faca.

São detalhes que não chegam a atrapalhar a trama, mas, quando li, me causou estranheza.

Estou curiosa para ver como vai ficar a adaptação para cinema.

Observação aleatória: a capa ficaria bem mais bonita sem o "splash" rosa com elogios do Scott Turow (quem?). Mas é isso. Entre a arte e o marketing, o marketing prevalece.

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