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domingo, 6 de julho de 2014

Next station: Copa do Mundo 2014

Conjunto Nacional em tempos de Copa do Mundo

Os primeiros indícios de que a Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil, estava para começar foram as bandeiras e bandeirinhas do Brasil colocadas nas janelas de vários apartamentos e em várias lojas. Depois que a Copa começou, ao pegar o metrô, notei que os metroviários anunciavam, como de praxe: "Próxima estação: Armênia [ou qualquer outra]. Saída pelo lado direito", e depois acrescentavam: "Next station: Armênia [ou qualquer outra]".

Diferentemente da maioria das pessoas normais, não me importo com jogos de futebol; estava mais preocupada com prováveis tumultos, congestionamentos, protestos, maior probabilidade de roubo (?) etc., e não sem razão. Em São Paulo, realmente estão acontecendo protestos contra a Copa, entre vários outros, mais congestionamentos em dias em que o Brasil joga, mais lixo, mais atrasos. E os congestionamentos são tantos que o prefeito pensou em decretar feriado em dias de jogos do Brasil (oi?). Pura falta de planejamento. Como não foi possível decretar feriados, o horário do rodízio de carros foi estendido em dias de jogos para evitar novos mega congestionamentos.

Essa é a segunda Copa do Mundo que passo em São Paulo e dessa vez também não estou acompanhando os jogos e não aguento mais ver que 70% dos noticiários na TV só falam disso. Além de não gostar de futebol, ainda tem a minha parte racional que sempre me lembra que, em termos práticos, mesmo se ganhar a Copa, o Brasil não vai ganhar absolutamente nada com isso - não haverá um ganho de dinheiro que possa ser investido em mais escolas, hospitais e moradias populares. Ou seja, o país continuará com suas riquezas, pobrezas e contradições sociais. Futebol me parece uma alegria fugaz e ilusória. [E eu ainda não consegui processar que o Neymar ganha R$ 9 milhões por mês...]

Também lembrei que na Copa passada, a editora onde eu trabalhava um dia promoveu um churrasco em dia de jogo do Brasil, distribuiu camisetas verde e amarelo, que fomos obrigados a vestir durante o jogo na empresa (o que me fez sentir meio palhaça), e que eu dormi, sentada, durante o jogo - tiraram até uma foto desse episódio, que deve estar em algum lugar. Dormi de tédio. Em outros dias de jogos do Brasil, fomos dispensados mais cedo, mas depois fomos obrigados a cumprir essas horas em montinhos de 10 ou 15 minutos por dia ao longo de um mês. Não sei se injustamente, mas achei tudo muito mesquinho. Até porque ninguém tinha a opção de trabalhar durante o jogo (e trabalho acumulado era o que não faltava) para não precisar ficar devendo horas. Ainda bem que tudo na vida é passageiro.

Esse ano, até certo ponto, a decisão sobre os meus horários de trabalho em dias de jogos do Brasil, está nas minhas mãos. O editor me deixou livre para decidir o que é melhor. Às vezes trabalho até um pouco antes da hora do jogo (e depois é mais fácil voltar para casa, porque o trânsito já está livre), às vezes fico até o meio do jogo, às vezes saio horas antes. No último jogo, na sexta-feira, saí mais cedo e, durante o primeiro tempo, fiquei vendo a segunda metade do filme "3096 dias", sobre o sequestro da austríaca Natascha Kampusch, e, no segundo tempo, revisando um livro.

Teve um dia em que eu e a Yuri fomos tomar sopa na CEAGESP no meio de um jogo do Brasil e era surreal como vias que normalmente estariam supercongestionadas naquele horário (umas 18h) estavam completamente vazias! A cidade parecia ter sido evacuada devido a alguma tragédia pré-anunciada. Mas não, é que as pessoas normais deviam estar todas em frente a uma TV, assistindo bovinamente ao jogo.

Em época de jogo, também imaginei um enredo para uma história distópica à la 1984, em que haveria jogos de futebol quase todos os dias e as pessoas ficariam literalmente viciadas nesses jogos, deixando trabalho e outras obrigações em segundo plano. E, enquanto as pessoas estivessem vendo os jogos e torcendo para tais e tais seleções, o governo iria tomando decisões em benefício próprio, como aumento de poderes e benefícios e, pouco a pouco, a extinção de direitos de cidadãos comuns. Depois de um tempo, quando as pessoas "acordassem", já estariam novamente imersas em um novo tipo de ditadura.

Até certo ponto, deve ser saudável torcer e ficar contente porque a seleção nacional está ganhando jogos, mas acho meio doentio o país parar por causa disso. Fico imaginando o quanto o país não está perdendo financeiramente, já que o país literalmente para em dias de jogos do Brasil. Também me questiono se algumas pessoas, incluindo os governantes, não quiseram tanto que o evento acontecesse no Brasil para equilibrar a balança comercial (com a vinda de estrangeiros, a entrada de dinheiro supostamente aumentaria, uma vez que brasileiros estão gastando cada vez mais no exterior, provocando um déficit enorme), além, é claro, de determinadas pessoas poderem superfaturar obras relacionadas à Copa.

Se eu quero que o Brasil ganhe? Ganhando ou perdendo, para mim tanto faz. Só quero que a Copa termine logo para que as pessoas consigam pensar em outras coisas que provavelmente importam mais.


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