Pages

domingo, 13 de julho de 2014

Sessão de terapia, o livro + eu no divã sem saber


Título: Sessão de terapia
Autora: Jaqueline Vargas
Nº de páginas: 264
Editora: Arqueiro
Ano de publicação: 2013

***

Sempre tive curiosidade de saber o que se passa dentro de um consultório de psicologia, terapia ou de psiquiatria. O que leva cada um dos pacientes até ali? Será que o psicólogo, terapeuta ou psiquiatra se entedia com algumas pessoas e suas histórias banais? Se bem que o profissional sempre tem a opção de recusar o paciente...

Esse livro foi uma das minhas melhores leituras até o momento (já li mais de 50 títulos, incluindo as HQs, esse ano). Vi o primeiro episódio da série homônima no YouTube - uma versão com qualidade bem baixa, por sinal - e gostei, mas não encontrei o restante dos episódios lá. Antes de prosseguir e alugar a primeira temporada, resolvi comprar o livro e ver se valeria a pena gastar tanto tempo com a série, porque, em geral, não gosto de séries. E cheguei à conclusão de que vale muito a pena, sim.

Sessão de terapia, a série, é uma versão brasileira da série israelense BeTipul ("tratamento"), dirigida pelo Selton Mello e roteirizado pela Jaqueline Vargas (que também é autora do livro). A série original foi concebida por Hagai Levi, a quem Jaqueline dedica o livro. Li essa entrevista com Hagai Levi no site da revista Cult e, pelos comentários, vi que profissionais da área de psicologia não gostaram nada da série e apontaram uma série de "erros". Apesar disso, como ficção, a obra é válida. O que me questionei mais durante a leitura foi que, em poucas sessões, os pacientes já levantavam questões sobre si mesmos, e imagino que, na vida real, isso levaria, quem sabe,  anos.

O site da série, exibida pela GNT, é este. Li que liberaram os vídeos das primeiras duas temporadas (a terceira deve sair em breve) gratuitamente por lá, mas não consegui ver nada, porque, ao clicar em "play", uma janelinha se abre, pedindo para selecionar uma operadora de TV, login e senha. Para quem quiser tentar, o link direto é este.

No livro, durante nove semanas, acompanhamos as sessões de alguns pacientes atendidos por Theo Cecatto, psicólogo e terapeuta de 56 anos, e também sua vida pessoal em relação à carreira, ao casamento com Clarice e ao relacionamento com os três filhos.

A paciente de segunda-feira é Júlia, uma médica residente em anestesiologia que namora um ex-paciente de Theo e que se diz apaixonada pelo terapeuta, o que o desestabiliza, pois ele parece sentir atração por ela.

O paciente de terça-feira é Breno, um atirador de elite que havia cometido um erro em uma missão e, por conta disso, um garoto morrera. Na segunda ou terceira sessão, ele começa a levantar a possibilidade de ser gay.

A paciente de quarta-feira é Nina, uma ginasta adolescente que parece ser negligenciada pelo pai fotógrafo e que é abusada por seu treinador. Aparentemente, com os dois braços enfaixados, tentou se matar em um "acidente" de carro, o que ela nega.

Os pacientes de quinta-feira são João e Ana, um casal que está em crise, principalmente porque, depois de anos tentando tratamento para engravidar, Ana não tem certeza de que quer ter o filho que está esperando, sendo que o marido é totalmente contra o aborto.

"Casamento é um assunto recorrente no consultório. Nesses anos eu vi muitos casais passarem pela minha sala. Uns realmente querem salvar a relação e me procuram para que eu os ajude a ver o que não estão vendo ou que se habituaram a não ver. Outros até usam a desculpa da reconciliação para embarcar na terapia, mas na verdade querem que eu os ajude a terminar o que precisam de um intermediário para dizer o óbvio: acabou."

Sexta, Theo volta a frequentar a terapia com sua ex-mentora, Dora. Por conta de um desentendimento no passado, ele não a via há anos, no entanto, voltou a recorrer a ela, pois estava passando por um momento caótico. Posteriormente as sessões contam com a participação de Clarice e se tornam terapia de casal.

Clique na imagem para ampliar

Li o livro em três ou quatro dias corridos, indo e voltando do trabalho. Lembro que, quando terminei, alguns dias antes do início da Copa do Mundo, o trânsito estava caótico e acabei chegando no trabalho lá pelas 9h (entro às 8h), o que me permitiu ler o livro até o fim. Ainda bem, porque ia passar o dia ansiosa para poder voltar à leitura. É, esse livro me instigou nesse nível. E, quando terminei a leitura, me senti diferente, mais ampla, ou melhor, com a capacidade de ver as coisas de forma mais ampla (assim como me senti quando terminei de ler A paixão segundo G.H., com uns 15 anos). Talvez o que eu e todo mundo que gosta de ler e de ver filmes procura seja essa sensação meio de êxtase diante de uma obra. Em geral, as minhas sensações ao ler livros são: "esse livro é bom" (mas não arrebatador), "é bem escrito, mas não empolga muito", "estou odiando, mas vou avançar para ver se melhora".

No tempo em que durou a leitura, pude me identificar com alguns comportamentos dos pacientes e do terapeuta e notar que pessoas que eu conheço apresentam alguns desses comportamentos também. Por isso, penso que, se fosse possível, todo mundo deveria fazer terapia. Para nos conhecermos melhor, sabermos quem realmente somos ou queremos ser e quais são nossas reais motivações, com o objetivo de vivermos uma vida menos caótica e mais feliz. 

Apesar disso, não sei o que eu levaria para a terapia se fosse fazer. Talvez questões profissionais (uma certa insatisfação que sinto de vez em quando, apesar de, em geral, me sentir motivada com o que faço, e da vontade de jogar tudo para o alto e "ir viver", viajar e trabalhar em diferentes países, acumular experiências que realmente valham a pena) e algumas emocionais (me submeter a determinadas situações que eu não quero ou para as quais não consigo dizer "não", ou seja lá o que penso, para não magoar os outros).

Essa leitura também me fez lembrar de um amigo muito querido, o A., com quem já não tenho contato há anos. Nos conhecemos virtualmente, em um chat do Terra, se não me engano, e a relação nunca passou disso (quero dizer, nunca nos vimos pessoalmente), mas o contato com ele foi muito importante para mim. Ele tinha uns 35-37 anos e estava em crise no casamento (não sabia se terminava o relacionamento que já durava quase dez anos, de certa forma, ele achava que a esposa dava mais importância à carreira do que ao relacionamento deles - talvez houvesse uma competição entre eles, pois eram da mesma área, não sei -, e ele talvez já estivesse apaixonado por outra mulher, só não queria assumir a responsabilidade de dizer "não quero mais estar casado com você" para a esposa), e eu, meio perdida porque tinha me formado havia alguns anos, tinha voltado para a casa dos meus pais e não sabia bem que rumo dar à minha vida - dava algumas aulas de inglês e era tradutora técnica free-lance e, depois, embarquei em odontologia, sendo que, analisando em retrospecto, nada disso me satisfazia completamente. Lembro que A. queria ser psicanalista ou seguir pela área de psiquiatria, mas, meio que por conta das expectativas da família e dele próprio, foi por um outro caminho, talvez mais "prestigioso", diferente de "cuidar de um monte de doidos". Não sei se fiz alguma diferença na vida dele, afinal, eu tinha vinte e poucos anos, e não tinha muitas experiências de vida (não que agora eu tenha tantas assim...), mas a marca que ele deixou em mim foi indelével. Foi como um vislumbre da vida adulta que eu estava prestes a encarar. Devo ter passado completamente para a vida adulta naqueles anos em que convivi virtualmente com ele (sendo que o processo começou quando fiz 18 anos e fui fazer faculdade em uma cidade diferente de onde meus pais moravam, o que me ajudou a ganhar mais autonomia), com todas aquelas conversas e, no final, pouco antes de nos afastarmos, creio que nós dois conseguimos nos dar conta de que precisávamos mudar de vida, que só nós poderíamos fazer isso, e ninguém mais. 

No fim de 2008, decidi deixar a faculdade de odontologia, pedir demissão do convênio odontológico e terminar um relacionamento tumultuado; no ano seguinte, eu iria arranjar um emprego em São Paulo, viria para cá e pronto - ia seguir minha vontade e minha intuição e tentar me tornar tradutora literária, apesar de a minha mãe ter tentado me assustar com uns papos do tipo: "Mas você vai para São Paulo sozinha? É perigoso, você pode ser sequestrada...". Ela tem medos e tenta me deixar em pânico também, o que me passa a ideia de que a visão de vida dela deve ser algo do tipo: é melhor viver se protegendo do que se arriscar e viver o que e como se quer; na minha visão de vida, viver se protegendo e evitando desafios pode nos manter vivos de alguma forma, mas acabamos morrendo de outra. Mais ou menos nessa época, ou talvez um pouco antes disso, A. me contou que havia pedido o divórcio (fico imaginando como deve ter sido doloroso para ambos, porque a esposa havia cogitado a possibilidade de os dois terem filhos meses antes), ia se mudar para um flat, comprou um barco (ou veleiro?), ia prosseguir com o relacionamento com uma outra mulher, que parecia ter mais afinidades com ele (ele comentou que, depois de dez anos de relacionamento, ele já era outra pessoa e a esposa dele também e que boa parte do encantamento de antes já havia se esvaído e que não sabia se valia a pena ficar alguém só por ser "mais cômodo" - o que achei triste demais) e que ia começar um curso de psicanálise - e dentro de quatro ou cinco anos (acho que era isso, o período era extenso), poderia atender pacientes. Talvez eu tenha sido a primeira paciente dele, mesmo que ele não tivesse formação. Todas aquelas conversas me ajudaram a fortalecer quem eu sou e a tentar ver o mundo, as pessoas, as relações entre pessoas e tudo mais de um jeito mais amplo. Aprendi também que a vida adulta pode não ser fácil, pode ser bastante dolorosa, mas também muito compensadora quando ficamos mais próximos de quem somos e do que realmente queremos. Por tudo isso, obrigada, A.! Às vezes me lembro de você e desejo que esteja feliz com suas escolhas e bem em todos os sentidos.

Uma última observação antes de eu fechar este post: apesar de a capa do livro parecer bastante "não atraente", recomendo a leitura. Não gosto de capas de livros que reproduzem capas de pôsteres de cinema e DVDs de filmes/séries; isso me passa a sensação de preguiça, de que o livro não é bom e precisa ser vinculado à versão de cinema/TV para ser vendido.

Um comentário:

Luciana Borba disse...

Como sempre escrevendo com o coração, lindo texto.
Tenha certeza que as dúvidas que você teve todo mundo já passou por isso um dia, a única diferença é se você irá tomar uma decisão e seguir um novo caminho ou continuar na comodidade mas infeliz.
Você tomou às rédeas de sua vida e por isso de admiro muito.
Obs: o link já está liberado para assistir a série.
Não li o livro, mas gostei muito da versão brasileira. A equipe (direção, elenco e produtores) é muito boa e só poderia dar um ótimo trabalho.