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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Estação Paraíso, inferno particular


No início de maio, quando voltei da viagem a Portugal e Itália, logo retornei ao trabalho. Cheguei num domingo e na segunda seguinte já fui trabalhar, embora me sentisse cansada e desacostumada com o horário local (a diferença de fuso horário entre Brasil e Itália é de cinco horas). Às vezes eu me sentia num universo paralelo mais que o normal. E foi nessa semana que aconteceu.

Meia hora antes, eu havia combinado de jantar com a Yuri na Liberdade e estava na estação de metrô Paraíso. Eu estava aguardando o trem em uma das extremidades da plataforma, que costuma ter os vagões mais vazios, eram umas 19h, a estação estava lotada e havia várias pessoas na minha frente. Quando o trem se aproximou - pelo barulho, vinha em alta velocidade -, as pessoas à minha frente gritaram e foram dando passos para trás. Na minha confusão mental, imaginei que o trem pudesse estar descarrilando e vindo na direção da plataforma (isso deve ser meio impossível de acontecer na realidade). Não era isso. Uma mulher havia se jogado no trilho. Ou, como anunciaram alguns minutos depois: "Devido a usuário na via, os trens estão circulando com menor velocidade e maior tempo de parada". Quando um dos trens para por qualquer motivo, isso afeta todo o sistema do metrô, porque os trens circulam como num carrossel.

Sempre ouvi rumores sobre tentativas de suicídio nas estações de metrô, mas nunca tinha presenciado nada do tipo. Apenas via o reflexo e o transtorno disso em horários de pico e ficava resmungando internamente, me perguntando se as pessoas não poderiam se matar de outra forma, sem atrapalhar a vida dos outros. Porque certos lugares meio que embrutecem a gente.

Então o trem parou. Metade dele ficou rente à plataforma e a outra metade, dentro do túnel. Fui me afastando até encostar na parede oposta ao lugar onde o trem para. Estava tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer, vários pensamentos confusos, enquanto testemunhava o pavor das outras pessoas que estavam próximas à mulher pouco antes de ela pular. O pessoal do resgate foi acionado, a plataforma foi ficando cada vez mais cheia, já que o trem parou de circular e as pessoas continuavam chegando. Alguns começaram a fotografar e filmar - não entendo o prazer (?) que sentem em ver e ainda por cima gravarem essas coisas. As pessoas dentro do trem lotado precisariam aguardar até a mulher ser tirada debaixo do trem, uns 25 minutos.

Um cara que estava perto da suicida tentou puxar papo comigo, comentou algo do tipo: "Que horror, não?", mas não consegui responder nada, então ele se juntou a um outro grupo próximo. Ouvi uma garota desse grupo falar, bastante emocionada, que ela "sentia" que a outra ia pular, porque ela estava "estranha", parava e olhava para o nada; estava de jeans, camisa rosa, não tinha nada nas mãos, estava sem bolsa e aparentava ter uns 45 anos; comentou também que tinha visto a mulher se mover para um dos vãos do trilho depois de pular e talvez estivesse viva. Ouvi também comentários como: "Que Deus ajude a família dela".

Naquele momento achei São Paulo meio doentia. Sempre fui fã da cidade, mas aquilo ali não era normal. Fiquei pensando se alguma cidade pode chegar a enlouquecer alguém. Se alguém pode enlouquecer em uma cidade caótica como aqui. Me angustiei ao pensar na possibilidade de eu chegar a esse ponto. Não, claro que não chegaria, afastei essa ideia. 

Esse episódio, naquele momento, foi um "acorda para a vida!", um grito de desespero. Para mim foi como se a mulher simbolizasse a parte mais desesperada de mim (talvez de todos nós) e quisesse me alertar para o fato de eu estar viva. Essa foi a escolha dela, mas temos outras escolhas. Se continuarmos vivendo, sempre teremos outras escolhas.

No fim, depois de uns 25 minutos, o pessoal do resgate, com seus casacos amarelos fluorescentes e sujos conseguiram tirar a mulher em uma maca. Ela estava coberta e não dava para ver seu estado, mas ouvi uma senhora comentar que ela estava viva.

O trem, então, se movimentou, as portas se abriram, alguns saíram, outros entraram. E a vida pôde seguir mais ou menos igual à rotina de sempre.

2 comentários:

Karen disse...

Não acho que a culpa seja de sp, o ambiente ajuda, mas não é só isso. Tenho a impressão de que as pessoas estão cada vez mais perdidas. Todo mundo que conheço e faz terapia usa algum remédio para tratar ansiedade ou depressão. O número de usuários de drogas também aumentou muito. Basta um instante de crise para que algo assim aconteça. Sempre presto atenção em quem está ao meu redor nas plataformas e procuro não ficar muito próxima dos trilhos antes do trem chegar, é triste, mas a vida anda complicada...

aline naomi disse...

Ah, então a impressão não é só sua, Karen. Tenho a impressão de que as pessoas estão perdidas e eu também. Quero dizer, não estou totalmente perdida, mas às vezes me questiono sobre escolhas que fiz e estou fazendo e me dou conta de que umas coisas não fazem sentido - mas, até onde me conheço ainda não preciso de remédios, imagino que são questões que ocorrem a quase todo mundo uma hora ou outra. É meio difícil saber o que fazer às vezes.
Depois desse ocorrido, estou mais atenta. Aliás, desde que um cara empurrou uma mulher no trilho do metrô e ela perdeu um braço faz um tempo estou procurando prestar mais atenção às pessoas ao meu redor nas plataformas. Coisas totalmente sem sentido e que fogem ao nosso controle sempre podem acontecer e isso dá um pouco de medo.