Pages

sexta-feira, 31 de julho de 2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Por que você escreve?

Woman writing at a table, 1905 (Thomas Pollock Anschutz)

Motivada por este vídeo do Sidney Guerra, do site Escreva seu livo - gosto muito dele e da Laura Bacellar!; parecem ser pessoas generosíssimas -, hoje vou (tentar) escrever por que gosto de escrever.

Antes de começar a escrever sobre isso, gostaria de comentar que o que o Sidney Guerra comentou sobre "motivação para escrever" bate com o que considero "literatura". Ou seja, é um texto (ou texto e imagens, no caso de HQs) que nos toca, nos faz refletir, nos mostra partes de nós mesmos e nos faz pensar mais profundamente sobre os outros e o mundo que nos rodeia e, enfim, nos transforma em maior ou menor grau.

Nunca tinha parado para pensar por que gosto de escrever. Imagino que esse deve ser um dos vários gostos inatos, assim como tem gente que gosta de jogar futebol, tocar piano, tirar fotos ou fazer cálculos.

Quando eu era criança, eu já lia bastante (ah, eu amava a Coleção Vaga-Lume!) e, depois de um tempo, comecei a escrever histórias também. Talvez eu tenha pensado "também consigo fazer isso" ou "quero provar para mim mesma que consigo", então bolei uma história e manuscrevi, depois datilografei; eu tinha 11 anos na época. Aliás, quando tinha 10 anos pedi para minha mãe me colocar nas aulas de datilografia para depois poder datilografar meus textos e deixá-los mais "limpos", sem ser manuscritos (lembrando que no início dos anos 90 o computador ainda não era popular no Brasil). Depois escrevi outra história. A primeira história era sobre uma menina mais ou menos da minha idade na época, que estava na quinta série e tinha acabado de se mudar de cidade e de escola; depois de um tempo, os pais morrem em um acidente de carro e ela descobre que havia sido adotada, aí a professora preferida dela a adota. A outra história era com duas irmãs gêmeas, mas não lembro o enredo (eu tenho um certo fascínio por irmãos gêmeos, ainda mais se forem idênticos). O que me surpreende até hoje é, pelo que lembro, as histórias tinham entre 70 e 80 páginas datilografadas cada. Tudo bem que as histórias eram meio clichês e havia uns erros de português, mas acho surpreendente ter conseguido me alongar por tantas páginas - depois disso, só consegui escrever contos de, no máximo, quatro páginas digitadas.

 Diploma que tirei um pouco antes de completar 11 anos

Foi mais ou menos nessa época também, quando tinha 10/11 anos, que comecei a trocar cartas com as minhas primas e depois com pessoas que eu conhecia por carta (eu procurava pessoas que talvez fossem legais ou moravam em lugares legais na sessão de cartas nos gibis da Mônica e mandava cartas para elas; uma vez meu nome foi publicado num gibi, eu tinha escrito para a revista dizendo que queria trocar cartas com outros escoteiros - recebi várias cartas de escoteiros do Brasil todo!, isso foi MUITO legal; depois cheguei a procurar correspondentes em outros tipos de revistas e, quando meu pai comprou um computador com acesso à internet, em 97 ou 98, eu conhecia pessoas em chats ou sites de assuntos de que eu gostava (literatura, cinema, basicamente) e depois trocávamos e-mails e cartas - e isso acontece até hoje).

Continuei escrevendo durante a adolescência e às vezes inscrevia os textos em concursos. O máximo que consegui foi ficar em 3º lugar na categoria "crônicas" em um concurso da prefeitura de Barueri quando tinha 16 ou 17 anos (o texto é este). Escrevi irregularmente durante a faculdade - porque a louca tinha aula de manhã e à tarde e ainda fazia aula de alemão e japonês por fora... - e depois de me formar também (quando tinha 20 e poucos anos eu e um amigo virtual escrevíamos contos eróticos num blog específico que ele criou e eu assinava com um pseudônimo), mas já não participava de concursos.

Em 2007, quando passei em odonto e comecei o curso, comecei também este blog, que incialmente seria sobre minha vida de estudante de odonto e posts sobre a área, mas depois virou uma miscelânea.

Até o fim do colegial, eu também escrevia diário (em agendas). Depois que entrei na faculdade, parei. Quando vim para São Paulo, no começo de 2009, voltei a escrever em diário, mas só escrevo quando tenho vontade. Escrever diário é libertador e ao mesmo tempo dá um alívio, porque ninguém lê e, quando eu não lembrar mais de coisas que fiz, senti, pensei, vivi, posso consultar o que tem nesses cadernos.

Em 2012 me inscrevi para um concurso de contos do Bunkyo e esse ano (2015!) entraram em contato falando que meu conto havia sido selecionado para compor a antologia - não ganhei prêmio, nem nada, o conto só vai compor o livro, junto com os três ganhadores. Fiquei feliz, apesar de achar, sinceramente, que o conto que inscrevi não estava lá essas coisas - lembro de ter me obrigado a escrever porque queria participar de qualquer jeito. E o fato de ter sido selecionada me motivou a retomar a escrita e a inscrever contos em concursos para ver o que acontece. Além disso, também comecei a me planejar financeiramente para (tentar) fazer a oficina literária do Assis Brasil em Porto Alegre em 2017. Se eu realmente tiver competência e talento para escrever, essa pode ser uma atividade paralela à carreira de editora e tradutora literária que eu gostaria de desenvolver. Como milhares de outras pessoas, gosto de escrever, isso me dá prazer, gosto de pensar que meus textos podem tocar outras pessoas e talvez torná-las mais amplas, como muitos livros me tornam, mas só gostar não basta, eu sei, tem que ralar/escrever muito até eu poder chegar ao ponto de analisar criticamente e concluir "isso está bom e pode ser lido por outras pessoas".

Por falar nisso, me inscrevi ontem no concurso literário da Amazon e do jornal O Globo. Penei para encontrar uma foto que tivesse a ver com o meu conto em sites de fotografias grátis e também para usar as ferramentas de edição do Kindle Direct Publishing (KDP). Tentei deixar a capa o menos horrível possível (tenho vergonha do que meus amigos designers vão pensar dela) e o resultado foi esse:


O link para comprar o livro é este. O preço mínimo (para quem participa do concurso) é R$ 1,99 e o máximo R$ 5,99 . Fiz uma alteração lá e o arquivo poderá ser baixado grátis entre 31/07 e 04/08. De 90 em 90 dias o KDP permite esse tipo de promoção, para que as obras possam ser divulgadas (imagino que para os livros autopublicados também e não só os contos que estão participando desse concurso).

As inscrições para o concurso se encerram amanhã (31/07/2015) e o regulamento e demais informações podem ser vistos aqui.

Imagino que o objetivo da Amazon era promover a plataforma e as ferramentas de autopublicação deles e deve ter dado certo (já tem mais de 5 mil contos publicados lá). Se não fosse pelo concurso, eu (e muita gente) provavelmente nunca me animaria a ter todo esse trabalho para me autopublicar.

Até o fim do ano, devo escrever mais, no mínimo, dez contos para inscrever em concursos literários promovidos em todo o Brasil (para quem se interessar, indico este blog). Estou focada, quero ver até onde consigo chegar com a escrita (e também como tradutora e futura editora), é até meio bizarro falar isso, mas estou curiosa com meu próprio destino, o que vai acontecer comigo no futuro com base em escolhas que estou fazendo agora. Gosto muito disso tudo (escrever, traduzir, editar, trabalhar com texto) e quero que meu trabalho tenha qualidade.

Esses dias li algo do tipo: "Quando é importante, você arranja um meio de chegar lá; quando não é, você arranja uma desculpa". Acho que é isso. Quando a gente realmente quer algo, uma hora ou outra, consegue. Quando a gente não deseja algo com toda a vontade ou acha que não vale a pena, arranja uma desculpa ou assume que é muito difícil e desiste, abre mão.

Sinto que agora estou pronta para me dedicar mais à escrita. Tenho mais maturidade e mais experiências de vida, fora as histórias (sur)reais que vários amigos me contam, que talvez possam ser transformadas em ficção e lapidadas até se tornarem "literatura", se eu me dedicar e me esforçar. Eu realmente queria muito passar por uma oficina literária séria, tirar um ano sabático para me dedicar a isso, para me aprimorar e concluir se levo jeito para escrever profissionalmente ou não. Se eu concluir que não levo jeito depois de tentar, eu automaticamente investiria apenas na carreira de editora e tradutora mesmo.

E por que passei e passo tanto tempo escrevendo cartas, diário, blog? Por que estou escrevendo agora? Porque gosto e pronto. Não tem muita explicação. [Aliás, nesse momento acabei de lembrar que preciso/quero escrever carta para, no mínimo, duas pessoas muito queridas, além de responder e-mails de amigos. É difícil o dia ter só 24 horas e as minhas vontades serem tantas...]

No fim das contas, escrevi um post enorme e nem consegui explicar por que gosto de escrever. Acho que gosto "porque sim". Às vezes parece que há milhares de ideias e pensamentos passando pela minha cabeça e preciso "extravasar" isso em palavras para poder me organizar; às vezes escrevo para depois poder lembrar (esqueço muitas coisas involuntariamente); às vezes escrevo para compartilhar algo bom, engraçado ou mesmo ruim - parece que ao partilhar algo bom a alegria se multiplica e, ao partilhar algo ruim, a tristeza/ a frustração/ o peso se dilui. E escrever ficção ainda dá um prazer extra por me permitir "brincar de deus(a)" - posso fazer o que eu quiser com os personagens: posso matá-los, criar pequenas felicidades ou grandes desgraças em suas vidas; posso ser cruel, posso tornar encontros casuais em encontros mágicos, posso ser sádica ou me colocar na pele de pessoas que nunca serei e imaginar como seria viver situações que estão completamente fora da minha realidade.

Já que não consigo controlar nem a minha vida, é um poder (e um prazer) e tanto poder controlar a vida de vários personagens, não?

terça-feira, 28 de julho de 2015

"Não conte pra ninguém. Isso fica entre nós."


Ontem fui ao cinema Caixa Belas Artes ver "Uma nova amiga", dirigido por François Ozon.

Em geral, gosto dos filmes desse diretor por causa do estranhamento e, ao mesmo tempo, da familiaridade que eles me provocam; sempre há personagens desajustados ou que se comportam de uma forma diferente do padrão e, não sei explicar por quê, isso me traz um certo conforto. Da filmografia dele, também já vi "Gotas de água em pedras escaldantes", "8 mulheres" - não gostei muito desse -, "Swimming Pool", "Dentro de casa" (esse é excelente!) e "Jovem e bela".



Laura e Claire são amigas desde que tinham 7 anos. Elas sempre foram melhores amigas e passaram por várias situações juntas (até se casaram na mesma cerimônia) e, desde a infância, Laura parecia exercer um fascínio em Claire.

Quando Laura morre, pouco tempo depois de ter uma filha, Claire fica muito deprimida. O marido de Claire insiste para que Claire retome a rotina, volte a trabalhar e também para que visite David, marido de Laura, e a bebê, para ver se eles precisam de ajuda. Ela comenta que naquele momento não conseguiria ver a bebê, porque ela lembrava muito Laura.


Dias depois, quando estava fazendo cooper, Claire decide visitar David. Bate à porta, mas ninguém atende. Quando estava indo embora, ouve o choro da bebê e volta. Entra pela porta da frente, oportunamente destrancada, e se depara com uma mulher de costas, sentada no sofá com a bebê no colo, ensaia um pedido de desculpas, mas fica muito espantada quando percebe que, na verdade, trata-se de David com peruca e maquiagem, vestido de mulher. Ela fica perplexa. David tenta explicar, diz que Laura sabia que ele gostava de se vestir de mulher mas havia pedido para que ele não saísse na rua dessa forma. Nesse primeiro momento, Claire não aceita a situação. Ele pede para que ela não conte para ninguém, pois pode perder a guarda da bebê, mas ela não garante que conseguirá manter o segredo.

"Não conte pra ninguém. Isso fica entre nós."

Aos poucos, Claire vai se acostumando com a ideia de David se travestir, vai às compras com ele, que ela passa a chamar de "Virginia" quando está vestido de mulher, ouve suas confidências e parece encantada ao ver o nascimento ou a descoberta da mulher que David tinha dentro de si. Apesar disso, a relação entre eles é sempre meio tumultuada, pois ao mesmo tempo em que Claire se sente atraída por Virginia e parece gostar que aquele segredo seja só deles, ela ainda não consegue aceitar 100% quem David/Virginia é. 


Para mim, o encontro de Claire com David/Virginia é mágico. Como são mágicos todos os encontros com pessoas que nos ajudam a estar mais próximos de nós mesmos, que transformam a nossa vida de alguma forma, nos ensinam algo valioso e/ou deixam marcas indeléveis que não poderiam ser deixadas por nenhuma outra pessoa. E é estranho pensar que se Laura não tivesse morrido, os dois nunca teriam a chance de se aproximar tanto.




No começo, Claire estava muito abalada com a falta que Laura fazia e talvez tenha encontrado em Virginia o colo que faltava, mas depois foi se apaixonando pela pessoa que David/Virginia era ou que estava se revelando a ela e talvez porque Virginia a deixava livre para ser quem ela era também. E o amor talvez nasça a partir desse reconhecimento da beleza no outro, ainda que essa beleza às vezes seja imperceptível para a maioria das outras pessoas, e da liberdade de deixar as pessoas serem quem elas são.



Uma das cenas mais lindas é quando Claire e Virginia vão se divertir em uma casa noturna GLS e veem uma apresentação de uma drag queen lindíssima dublando uma música em francês que fala sobre se tornar uma mulher. Virginia se emociona, talvez por se reconhecer na drag queen e na música. Nesse momento, Claire observa Virginia e, imagino, ao vê-la tão feliz e tão bonita, se apaixona de vez por ela.

Recomendo muito!



domingo, 26 de julho de 2015

Os ônibus, o pêndulo, uma frase... - Rodrigo Bardo



Título: Os ônibus, o pêndulo, uma frase, algumas histórias e, quiçá, o diploma
Autor: Rodrigo Bardo [pseudônimo de Rodrigo José do Nascimento Moura]
Editora: ---- [Publicação independente]
Nº de páginas: 104
Ano de publicação: 2013
Onde comprar: http://rodrigobardo.wix.com/onibus

 ***

Encontrei esse livro por acaso no site Skoob (rede social de leitores/ sobre livros, que permite organizar as leituras: os livros que já foram lidos, os que queremos ler, traçar uma meta de leitura anual, incluir comentários ou resenhas públicas que podem ser visualizados por outros usuários - recomendo para quem lê muito), enquanto buscava o livro Quiçá, da Luisa Geisler.

Apesar de o título longo demais não ter me animado a princípio, li críticas positivas (todas escritas por pessoas da região onde o autor mora) no próprio Skoob e fiquei interessada por se tratar de uma publicação independente de um autor de Lagarto, interior do Sergipe - pesquisei no Google porque queria ter uma ideia de como era a cidade, ver fotos, e também descobri que essa cidade está entre as mais violentas do país.

Rodrigo Bardo escreveu esse livro-reportagem em 2009, quando era estudante de jornalismo ou talvez logo depois de se formar no curso, lançou-o gratuitamente na internet em 2011, depois o livro foi impresso em 2013 e agora ele o vende em um site próprio. Ele também fez a diagramação e tirou as fotos de capa e contracapa.

Gostei do empreendedorismo do Rodrigo em fazer o livro sozinho (escrever, diagramar, lançar virtualmente e depois a versão impressa), mas também sugeri que ele enviasse o original a alguma editora do Rio ou de São Paulo, para que fosse mais divulgado e lido, porque, infelizmente, a maioria dos livros lançados fora do eixo Rio-SP não fica conhecido. Por um motivo ou outro, ele nunca respondeu esse e-mail.

O caso do Rodrigo ilustra bem como está ficando cada vez mais fácil os autores se autopublicarem (o site da Amazon está aí para provar isso também), ao mesmo tempo, me fez pensar no papel do editor. Em geral, o livro em questão é bom, mas poderia ficar melhor. Como costuma dizer o sr. B., o editor com quem trabalho, "o editor precisa achar as falhas, analisar criticamente sempre, para melhorar a publicação". Por exemplo, o título é longo demais (em geral o título precisa ser algo curto e marcante, algo fácil de lembrar), talvez poderia ter um subtítulo; o texto é irregular no sentido de uma hora o tom estar entre formal e informal (texto jornalístico que dá vontade de ler) e em alguns momentos empregar palavras de uso formal demais para o que foi proposto - o autor usa termos como "grosso modo", "destarte" (que eu nem sabia o que era, quer dizer "dessa maneira"), "quiçá" e, ao mesmo tempo, "turma do fundão"; apesar de a versão impressa ter saído em 2013, o texto não considerou o Novo Acordo Ortográfico, então tem palavras grafadas com trema.

Depois de ter analisado "criticamente" a obra, vou falar do conteúdo, que é bem interessante. Rodrigo escreve sobre estudantes que saem de cidades do interior do Sergipe para estudar na capital, Aracaju, e retornam a essas cidades depois das aulas, o que é denominado "movimento pendular", porque lembra o movimento de um pêndulo que vai e volta. Fala das dificuldades dos estudantes que trabalham e precisam estar pontualmente no ponto de ônibus, das condições nem sempre boas dos ônibus, da falta de assento para todos que precisam do transporte, mas também das amizades ou namoros que vão se fazendo ao longo das viagens de ida e volta e até das festas promovidas dentro dos veículos, como uma festa junina.

Me identifiquei um pouco, pois atualmente também faço parte do "movimento pendular" e da população flutuante de Alphaville, na Grande São Paulo (fiz uma pesquisa rápida e parece que a população flutuante diária gira em torno de 200 mil pessoas em Alpha). Em média, levo duas horas para ir para o trabalho e duas para voltar (só de ônibus, gasto cerca de 1h20 na ida e o mesmo tempo na volta); às sextas, demoro em média três horas para voltar por causa do número de veículos ainda maior, que complica ainda mais o trânsito dentro de Alphaville e na rodovia Castelo Branco. Nessas viagens de ônibus, em geral, não acontece nada de anormal; que me lembre, desde que trabalho em Alpha (2011), o ônibus quebrou uma vez (aí esperamos até vir outro) e algumas vezes, quando chovia muito e o trânsito estava muito mais complicado que o normal, demorei cerca de cinco horas para chegar em casa. Em geral as pessoas vão dormindo, lendo, ouvindo música, mexendo no celular ou conversando com um conhecido ao lado, ou, quando o ônibus está lotado, algumas pessoas precisam fazer o trajeto de pé.

Se alguém escrevesse um livro-reportagem com a população flutuante de Alphaville, eu ia me interessar em ler.

sábado, 25 de julho de 2015

HQ Aokigahara


Título: Aokigahara
Roteiro: André Turtelli Doles
Arte: Renato Quirino
Editora: ---- [Publicação independente]
Nº de páginas: 36
Ano de publicação: 2015
Onde comprar: Ugra Press

***
Fruto de um projeto bem-sucedido do site Catarse [para ver a página do projeto, incluindo um vídeo bacaninha dos autores, clique aqui], a HQ Aokigahara me despertou o interesse por eu já ter visto um documentário e também lido sobre o assunto há algum tempo.

Para ler uma entrevista com os autores no site Quadrim, clique aqui.


A HQ mostra dois jovens, um rapaz e uma garota, que decidem se suicidar na floresta Aokigahara, conhecida como "floresta do suicídio", ao pé do Monte Fuji, e um pouco de suas angústias e motivações para isso.




Imagino que os próprios japoneses não gostam de falar sobre o assunto, e imagino também que o fato de o Japão ter estar entre os países com a maior taxa de mortes por suicídio (estava em 5º lugar nessa matéria do G1 de 2014; o Brasil está em 8º) deve ser vergonhoso.

Como a HQ só tem 36 páginas, não é possível descobrir muito sobre os personagens - pelo menos, eu gostaria de saber mais sobre eles -, mesmo assim, vale a pena a leitura.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Mudanças e o caderninho do colegial

Como meu irmão se casou em abril desse ano, meus pais estão pensando em se mudar para uma casa ou um apartamento menor. Porque não tem muita lógica eles continuarem morando em uma casa com três quartos, mais uma edícula. Provavelmente vão alugar a casa onde moram agora.

E eu com isso, né?

Acontece que ainda tenho um quarto nessa casa (fotos tiradas em 2008 abaixo), e inevitavelmente precisarei peneirar o que quero trazer para São Paulo e o que preciso jogar ou doar.

Quarto anormalmente arrumado 

Bagunça organizada

Acho que quase todo mundo passa por isso. Ao sair de casa, precisa levar/ salvar o que é importante e dar um fim no resto.

Ainda não sei o que quero trazer de São José dos Campos para São Paulo, exceto o sofá-cama, livros e talvez alguns CDs. Ainda não deu tempo de ir lá e fazer a Grande Limpeza. E confesso que me bate muita preguiça sempre que penso que preciso fazer isso, embora meu pai tenha dito que não preciso me desesperar, porque a mudança não vai ser imediata.

Em uma das vezes em que fui para a casa dos meus pais, dando uma olhada nas coisas antigas [e tentando ver o que, de cara, eu já poderia descartar], encontrei um caderninho, encapado com papel de presente e papel-contact, em que eu fazia anotações de tudo quanto era coisa em 1998.


Me diverti folheando esse caderninho, enquanto tentava descobrir como eu era quando tinha 17 anos. Concluí que eu não era tão diferente de agora. Traços do que me tornei já estavam esboçados ali.

Logo no início tem uma lista de coisas a fazer em letra de forma:


Depois, uma coisa superengraçada, uma parte em que eu analisava os perfis de amigos do colégio, sendo que eles provavelmente nem imaginavam que eu fazia isso:



Tenho anotações de uns sete perfis de amigos e de um professor de inglês.

Ri sozinha.

Há várias passagens de livros que eu estava lendo na época (Hamlet e algo de Clarice Lispector, talvez Julio Cortázar) misturadas a anotações de matérias que precisavam ser estudadas para as provas, notas das provas, uma bagunça.




"O Élvio usa incenso.
A San está um pouco deprimida devido à Tany (namorada do Lucas - garoto de que gosta).
O George dissimula uma satisfação ilusória, conversando com as paredes em vez de conversar conosco.
A aula do Léo me pareceu interessante.
Aluguei Hamlet na nova vídeo-locadora do colégio.
A aula de Química é um filme que não quero ver.
A Eiry... está Eiry mesmo.
A Mel soltou o cabelo pela 1ª vez.
O 'Dudu' comprou um novo cigarro ('This').
A Fer está possuída (pelo sono)."



Nessa época eu estudava espanhol e tentava ler textos em espanhol. O professor Luis, um boliviano, me fazia verter textos do português para o espanhol (mas pelo menos eu podia escolher os textos) e depois corrigia em sala de aula. Era um bom exercício. Mas talvez estivesse lendo Cortázar porque, na época, eu também estava frequentando uma oficina literária oferecida pela prefeitura com a minha tia (ela que me levou para lá) - e lembro que foi nessa época que descobri esse autor, ou melhor, fui apresentada à obra dele.



Desde adolescente parece que eu já era debochada (ouvi que era "debochada" da minha própria mãe um dia desses, porque fiz piada com um assunto supostamente sério) e irônica:


Fico tentando lembrar o que me motivava a fazer esse tipo de anotação. Talvez o fato de ter ouvido rumores de que um japonês da minha sala (e talvez outros garotos, de outras turmas) havia sido expulso por estar traficando dentro do colégio. Isso, é claro, nunca foi confirmado oficialmente, mas o garoto nunca mais apareceu para as aulas. E também por notar que no colégio havia muita gente complexada e problemática, embora talvez (quase) ninguém ali tivesse o direito de reclamar de nada - era um colégio particular, frequentado principalmente pela classe média joseense, que nos possibilitaria entrar em uma boa faculdade; todas as nossas necessidades básicas eram satisfeitas, embora tivéssemos angústias normais de adolescentes.

No fim, encontrei uma mensagem do Élvio (que provavelmente nem se lembra mais de mim; ele era meio que meu amor platônico porque era diferente dos outros garotos, tocava violão e gostava de ler) e um bilhete da San. O Élvio, fiquei sabendo faz uns anos, se tornou dentista como o pai dele. A San se casou (duas vezes), é enfermeira e trabalha com florais e tem uma filha. O Élvio talvez esteja em São José (não éramos tão próximos e perdi contato); a San ainda mora lá em São José e nos falamos e nos vemos de tempos em tempos. 



Não importa aonde eu vá parar, essas memórias (ou, às vezes, vagas lembranças) de infância e adolescência em São José estarão sempre comigo. Eu deveria ter feito mais registros; certamente me divertiria e talvez me surpreenderia comigo mesma.

Hoje uso esse caderninho amarelo com um band-aid das Meninas Super Poderosas. Não, não é um Moleskine, é um caderninho que comprei na Daiso por R$ 6,90 (e que deve funcionar melhor que um Moleskine...).


O caderninho do colegial já veio comigo, agora só falta trazer as outras coisas que ainda não sei quais são.

terça-feira, 21 de julho de 2015

O uivo da gaita


Há algum tempo vi esse filme aqui. Queria ter visto no cinema, mas na época em que estava em cartaz - por bem pouco tempo -, não pude ir. [Quando sair em DVD/blu-ray quero ver de novo com qualidade melhor.]

"O uivo da gaita", de Bruno Safadi, faz parte da trilogia Sonia Silk (leiam mais sobre isso aqui); os outros dois filmes que a compõe são "O Rio nos pertence" e "O fim de uma era".

Tanto no site de filmes online grátis onde vi o filme quanto no site Filmow, o público em geral não gostou e quase todos fizeram comentários negativos, mesmo assim, eu quis ver. E, diferentemente da maioria, eu gostei.

O filme gira em torno de um triângulo amoroso formado por Antônia (Mariana Ximenes), Pedro (Jiddu Pinheiro) e Luana (Leandra Leal).

Imagino que a maioria das pessoas não gostou porque o filme não é linear; não é uma história com começo, meio e fim. A narrativa é fragmentada e não dá para entender exatamente o que aconteceu e em que ordem.

Depois de um tempo, dá para notar que a relação entre o casal Antônia e Pedro está estacionada; há uma certa mornidão e tédio no cotidiano deles.

Em uma cena, logo no início, há uma cena linda, em que, depois de Antônia preparar um almoço japonês, eles estão comendo ao ar livre em uma mesa preparada para a ocasião. Copos e vasilhas começam a quebrar e "derreter" e o líquido, a derramar, mas o casal continua comendo normalmente. Para mim foi um indício de que a história não deveria ser considerada "real" e também uma metáfora de que a relação talvez estivesse "transbordando" de alguma forma.


Antônia e Luana em fuga para um "paraíso particular"

No fim das contas, interpretei o filme como um sonho de Antônia. Por isso as cenas iam e vinham sem muita lógica e também fora de ordem cronológica. Talvez um desejo reprimido dela por Luana, na vida real, que estava se realizando em sonho.


No filme não é possível ouvir as conversas entre os personagens - o que fez muita gente odiá-lo e a ironizar "o cinema mudo voltou". Para mim, esse é outro indício de que se tratava de um sonho, pois, quando estamos sonhando, muitas vezes não conseguimos ouvir o que as pessoas estão falando ou o que estão falando e fazendo não faz muito sentido. E o fato de não haver diálogos nítidos, para mim, é um ponto positivo. Às vezes a verborragia dos personagens (tanto no cinema quanto na literatura) me entedia - fico pensando se era mesmo necessário colocar falas ali e/ou se os personagens precisam falar tanto para, no fundo, dizer muito pouco ou quase nada.

Em uma cena em que Antônia está lendo, cheguei a pensar que a história a que eu estava assistindo era fruto do livro que ela estava lendo. Ela estava se colocando no lugar de uma das personagens para fugir do tédio matrimonial. Mas depois concluí que não era isso.


As cenas são muito bonitas, dá prazer assistir. Até porque é um filme sensual/ sensorial; encanta pela beleza visual, além de conter elementos que aguçam o tato, o paladar, o olfato e a audição.


Antônia e Luana em uma praia deserta

Me surpreendi muito com esse filme, ainda mais por ser nacional (apesar de gostar e torcer muito pelo cinema brasileiro, em geral, não há grandes surpresas - há muitas comédias e filmes que exploram a pobreza no enredo; e às vezes essa mesmice cansa), porque ele dá margem para cada um interpretar a história como quiser (ou não interpretar nada e escrever na internet que só assistiu 10 ou 20 minutos porque o filme era insuportável ou, ainda, que só queria ver as protagonistas se pegando).

O que será que elas estão falando?

O trailer do filme é este:



domingo, 19 de julho de 2015

Réquiem - Shizuko Go


Título: Réquiem
Autora: Shizuko Go [pseudônimo de Michiko Yamaguchi]
Tradutora: Sonia Moreira [a partir da publicação em inglês Requiem]
Editora: Record
Nº de páginas: 144
Ano de publicação: 1994

***

No começo, não gostei do que estava lendo. A leitura estava meio confusa, pois, logo de cara, a autora apresentou vários personagens ao mesmo tempo e também porque me decepcionei ao constatar que não se tratava de um livro em forma de diário como a sinopse e a chamada na capa [A visão de uma adolescente japonesa da Guerra, só comparável ao dramático "O Diário de Anne Frank"] davam a entender. No entanto, conforme fui avançando as páginas, Setsuko Oizumi (16 anos) e Naomi Niwa (14 anos) foram instigando a leitura.

Não tenho certeza de que misturar narrativa em terceira pessoa com cartas que as jovens escreviam uma para a outra tenha sido uma escolha acertada (na verdade não eram exatamente cartas, eram mensagens escritas em um caderno cinza - em referência ao primeiro volume, "Le cahier gris", do livro Os Thibault, escrito pelo francês Roger Martin du Gard, que tem como pano de fundo a 1ª Guerra, sendo que este livro é citado várias vezes pelas garotas ao longo de Réquiem, pois era um dos livros preferidos de Naomi e ela o emprestara para a amiga). Apesar disso, é interessante notar o contraste entre a "realidade" vivida no Japão durante a 2ª Guerra Mundial e os sentimentos, ideias e visão pessoal das jovens.

Setsuko é uma garota-modelo, centrada nos estudos, boa filha, uma pessoa equilibrada, e persiste na ideia de que é preciso se sacrificar para que o Japão ganhe a Guerra (e não se deixa abater quando o governo a recruta, assim como vários outros estudantes, para trabalhar em uma fábrica de equipamentos de uso bélico - muito pelo contrário, ela fica contente em poder dar alguma contribuição); por outro lado, Naomi, talvez por ter tido uma educação mais "aristocrática" (seu pai era economista e professor universitário e fora preso por divergências ideológicas com o governo) e também por gostar de ler, tinha uma visão mais contestadora: não entendia a guerra e por que exatamente deveria dar o melhor de si para que o Japão ganhasse em vez de lutar por sua própria sobrevivência.

Apesar da diferença entre as duas garotas, um incidente no colégio faz com que as duas se aproximem e se apoiem. Assim, por meio das cartas delas, ficamos sabendo de seus questionamentos e amadurecimento diante das situações dramáticas que vivem.

O livro é um recorte dos horrores da 2ª Guerra, situação que também já foi retratada na clássica animação japonesa "Hotaru no Haka" (Túmulo dos vaga-lumes) e, após a leitura, assim como Naomi, talvez nos questionemos: "Por que nós fazemos guerras, afinal, se somos todos seres humanos?".


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Eataly, uma experiência italiana em São Paulo


Sexta-feira passada eu e a Yuri fomos conhecer o Eataly, que inaugurou em maio desse ano em São Paulo. Pelo que li no site, a Eataly foi criada em 2004 e, depois de três anos de planejamento, em 2007, a empresa abriu sua primeira loja em Turim, na Itália. Hoje tem 29 lojas, sendo quinze na Itália, nove no Japão, duas nos Estados Unidos, uma em Dubai, uma em Istambul e uma em São Paulo.


Fachada (foto daqui)

A filial de São Paulo fica na Vila Olímpia, um bairro nobre da cidade, e compreende um prédio de dois andares bonito e organizado, onde se pode encontrar frutas e vegetais frescos de qualidade (e caríssimos), aperitivos e sorvete no térreo, vinhos e produtos como massas frescas ou desidratadas, carnes, vinhos, dois restaurantes onde servem macarrão e pizza no primeiro andar e um restaurante, aparentemente mais sofisticado, chamado "Brace" no segundo andar (este estava fechado quando fomos - é que já eram umas 22h30 quando chegamos).

 Térreo

"Compre só o que precisar, mas compre coisas boas" 

Jantamos na bancada deste restaurante do primeiro andar:


Como já era tarde, não estavam mais fazendo reservas para as mesas e só tinha sobrado dois lugares no balcão. Topamos, é claro.

O cardápio é todo em italiano, aliás, as placas são todas em italiano na loja inteira. Aí se precisar, tem que perguntar sobre os ingredientes para os atendentes.

Pedi um espaguete à carbonara, que estava bom, mas não tão bom quanto as massas que comi na Itália, e um suco de uva (é, não gosto de vinho, então fico no suco de uva...).



A Yuri escolheu um penne com berinjela e um suco de maçã:



Se não me engano, meu prato custou R$ 42 e o da Yuri, R$ 38. É meio caro se comparado com as massas que comi na Itália [embora eu não devesse fazer comparações, eu sei], ainda mais considerando que as massas na Itália são frescas, em geral, os próprios restaurantes é que preparam a massa. Mas valeu a experiência. Da próxima vez quero experimentar a pizza! :) Havia um casal ao lado, na bancada, comendo uma pizza margherita e fiquei de olho; estava com uma aparência ótima.



Na bancada ao lado, pizzas 

Fornos a lenha com ladrilhos dourados... 

Corredor com produtos, vários deles italianos 




Depois da comilança, ainda passamos no térreo para tomar sorvete, lógico.





 Escolhi pistache, chococo e outro sabor que não lembro

Olha, o sorvete não era ruim, mas depois de ter tomado tantos sorvetes deliciosos e leves, com maior ou menor qualidade, na Itália, não achei esse Venchi tão maravilhosamente bom; e, apenas para constar, também havia chocolates dessa marca à venda. E, voltando aos sorvetes, imagino que deva ser impossível reproduzir a receita dos sorvetes italianos no Brasil por causa da técnica e dos ingredientes - é só um palpite. Por enquanto, continuo preferindo os sorvetes do Bacio di Latte

No primeiro andar também tem uma parte com cervejas artesanais e tem algumas com nomes sugestivos e engraçados:



 Indicação do banheiro

Esqueci de comentar que no térreo ou no primeiro andar também existe uma escola de culinária. Imagina que delícia aprender a fazer massa e molhos frescos?!

A Eataly me lembrou de um mercado ótimo que eu, a Flávia e a Carol (companheiras de viagem pela Itália) visitamos em Florença - no fim das contas acabei nem visitando museus, mas fui duas vezes a esse mercado e não me arrependo. O Eataly é mais sofisticado, mas a ideia é a mesma: um lugar que reúne comida boa e fresca com qualidade, onde se pode também comprar ingredientes e aprender (nesse mercado também há uma escola de culinária). Em breve pretendo escrever posts sobre a viagem para a Itália e tudo de gostoso que comi por lá! Meu dia bem que poderia ter 30 horas, no mínimo.

***

Eataly 
Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 1489 
São Paulo - SP
Telefone: (11) 3279-3300

Horários de Funcionamento
Mercado: Todos os dias das 8h às 23h 

Restaurantes: É preciso consultar os horários no site [na sexta, mais ou menos às 23h, conseguimos lugar no balcão, mas não faziam mais reserva para mesas; o restaurante fechava à meia-noite]