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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Mudanças e o caderninho do colegial

Como meu irmão se casou em abril desse ano, meus pais estão pensando em se mudar para uma casa ou um apartamento menor. Porque não tem muita lógica eles continuarem morando em uma casa com três quartos, mais uma edícula. Provavelmente vão alugar a casa onde moram agora.

E eu com isso, né?

Acontece que ainda tenho um quarto nessa casa (fotos tiradas em 2008 abaixo), e inevitavelmente precisarei peneirar o que quero trazer para São Paulo e o que preciso jogar ou doar.

Quarto anormalmente arrumado 

Bagunça organizada

Acho que quase todo mundo passa por isso. Ao sair de casa, precisa levar/ salvar o que é importante e dar um fim no resto.

Ainda não sei o que quero trazer de São José dos Campos para São Paulo, exceto o sofá-cama, livros e talvez alguns CDs. Ainda não deu tempo de ir lá e fazer a Grande Limpeza. E confesso que me bate muita preguiça sempre que penso que preciso fazer isso, embora meu pai tenha dito que não preciso me desesperar, porque a mudança não vai ser imediata.

Em uma das vezes em que fui para a casa dos meus pais, dando uma olhada nas coisas antigas [e tentando ver o que, de cara, eu já poderia descartar], encontrei um caderninho, encapado com papel de presente e papel-contact, em que eu fazia anotações de tudo quanto era coisa em 1998.


Me diverti folheando esse caderninho, enquanto tentava descobrir como eu era quando tinha 17 anos. Concluí que eu não era tão diferente de agora. Traços do que me tornei já estavam esboçados ali.

Logo no início tem uma lista de coisas a fazer em letra de forma:


Depois, uma coisa superengraçada, uma parte em que eu analisava os perfis de amigos do colégio, sendo que eles provavelmente nem imaginavam que eu fazia isso:



Tenho anotações de uns sete perfis de amigos e de um professor de inglês.

Ri sozinha.

Há várias passagens de livros que eu estava lendo na época (Hamlet e algo de Clarice Lispector, talvez Julio Cortázar) misturadas a anotações de matérias que precisavam ser estudadas para as provas, notas das provas, uma bagunça.




"O Élvio usa incenso.
A San está um pouco deprimida devido à Tany (namorada do Lucas - garoto de que gosta).
O George dissimula uma satisfação ilusória, conversando com as paredes em vez de conversar conosco.
A aula do Léo me pareceu interessante.
Aluguei Hamlet na nova vídeo-locadora do colégio.
A aula de Química é um filme que não quero ver.
A Eiry... está Eiry mesmo.
A Mel soltou o cabelo pela 1ª vez.
O 'Dudu' comprou um novo cigarro ('This').
A Fer está possuída (pelo sono)."



Nessa época eu estudava espanhol e tentava ler textos em espanhol. O professor Luis, um boliviano, me fazia verter textos do português para o espanhol (mas pelo menos eu podia escolher os textos) e depois corrigia em sala de aula. Era um bom exercício. Mas talvez estivesse lendo Cortázar porque, na época, eu também estava frequentando uma oficina literária oferecida pela prefeitura com a minha tia (ela que me levou para lá) - e lembro que foi nessa época que descobri esse autor, ou melhor, fui apresentada à obra dele.



Desde adolescente parece que eu já era debochada (ouvi que era "debochada" da minha própria mãe um dia desses, porque fiz piada com um assunto supostamente sério) e irônica:


Fico tentando lembrar o que me motivava a fazer esse tipo de anotação. Talvez o fato de ter ouvido rumores de que um japonês da minha sala (e talvez outros garotos, de outras turmas) havia sido expulso por estar traficando dentro do colégio. Isso, é claro, nunca foi confirmado oficialmente, mas o garoto nunca mais apareceu para as aulas. E também por notar que no colégio havia muita gente complexada e problemática, embora talvez (quase) ninguém ali tivesse o direito de reclamar de nada - era um colégio particular, frequentado principalmente pela classe média joseense, que nos possibilitaria entrar em uma boa faculdade; todas as nossas necessidades básicas eram satisfeitas, embora tivéssemos angústias normais de adolescentes.

No fim, encontrei uma mensagem do Élvio (que provavelmente nem se lembra mais de mim; ele era meio que meu amor platônico porque era diferente dos outros garotos, tocava violão e gostava de ler) e um bilhete da San. O Élvio, fiquei sabendo faz uns anos, se tornou dentista como o pai dele. A San se casou (duas vezes), é enfermeira e trabalha com florais e tem uma filha. O Élvio talvez esteja em São José (não éramos tão próximos e perdi contato); a San ainda mora lá em São José e nos falamos e nos vemos de tempos em tempos. 



Não importa aonde eu vá parar, essas memórias (ou, às vezes, vagas lembranças) de infância e adolescência em São José estarão sempre comigo. Eu deveria ter feito mais registros; certamente me divertiria e talvez me surpreenderia comigo mesma.

Hoje uso esse caderninho amarelo com um band-aid das Meninas Super Poderosas. Não, não é um Moleskine, é um caderninho que comprei na Daiso por R$ 6,90 (e que deve funcionar melhor que um Moleskine...).


O caderninho do colegial já veio comigo, agora só falta trazer as outras coisas que ainda não sei quais são.

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