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terça-feira, 28 de julho de 2015

"Não conte pra ninguém. Isso fica entre nós."


Ontem fui ao cinema Caixa Belas Artes ver "Uma nova amiga", dirigido por François Ozon.

Em geral, gosto dos filmes desse diretor por causa do estranhamento e, ao mesmo tempo, da familiaridade que eles me provocam; sempre há personagens desajustados ou que se comportam de uma forma diferente do padrão e, não sei explicar por quê, isso me traz um certo conforto. Da filmografia dele, também já vi "Gotas de água em pedras escaldantes", "8 mulheres" - não gostei muito desse -, "Swimming Pool", "Dentro de casa" (esse é excelente!) e "Jovem e bela".



Laura e Claire são amigas desde que tinham 7 anos. Elas sempre foram melhores amigas e passaram por várias situações juntas (até se casaram na mesma cerimônia) e, desde a infância, Laura parecia exercer um fascínio em Claire.

Quando Laura morre, pouco tempo depois de ter uma filha, Claire fica muito deprimida. O marido de Claire insiste para que Claire retome a rotina, volte a trabalhar e também para que visite David, marido de Laura, e a bebê, para ver se eles precisam de ajuda. Ela comenta que naquele momento não conseguiria ver a bebê, porque ela lembrava muito Laura.


Dias depois, quando estava fazendo cooper, Claire decide visitar David. Bate à porta, mas ninguém atende. Quando estava indo embora, ouve o choro da bebê e volta. Entra pela porta da frente, oportunamente destrancada, e se depara com uma mulher de costas, sentada no sofá com a bebê no colo, ensaia um pedido de desculpas, mas fica muito espantada quando percebe que, na verdade, trata-se de David com peruca e maquiagem, vestido de mulher. Ela fica perplexa. David tenta explicar, diz que Laura sabia que ele gostava de se vestir de mulher mas havia pedido para que ele não saísse na rua dessa forma. Nesse primeiro momento, Claire não aceita a situação. Ele pede para que ela não conte para ninguém, pois pode perder a guarda da bebê, mas ela não garante que conseguirá manter o segredo.

"Não conte pra ninguém. Isso fica entre nós."

Aos poucos, Claire vai se acostumando com a ideia de David se travestir, vai às compras com ele, que ela passa a chamar de "Virginia" quando está vestido de mulher, ouve suas confidências e parece encantada ao ver o nascimento ou a descoberta da mulher que David tinha dentro de si. Apesar disso, a relação entre eles é sempre meio tumultuada, pois ao mesmo tempo em que Claire se sente atraída por Virginia e parece gostar que aquele segredo seja só deles, ela ainda não consegue aceitar 100% quem David/Virginia é. 


Para mim, o encontro de Claire com David/Virginia é mágico. Como são mágicos todos os encontros com pessoas que nos ajudam a estar mais próximos de nós mesmos, que transformam a nossa vida de alguma forma, nos ensinam algo valioso e/ou deixam marcas indeléveis que não poderiam ser deixadas por nenhuma outra pessoa. E é estranho pensar que se Laura não tivesse morrido, os dois nunca teriam a chance de se aproximar tanto.




No começo, Claire estava muito abalada com a falta que Laura fazia e talvez tenha encontrado em Virginia o colo que faltava, mas depois foi se apaixonando pela pessoa que David/Virginia era ou que estava se revelando a ela e talvez porque Virginia a deixava livre para ser quem ela era também. E o amor talvez nasça a partir desse reconhecimento da beleza no outro, ainda que essa beleza às vezes seja imperceptível para a maioria das outras pessoas, e da liberdade de deixar as pessoas serem quem elas são.



Uma das cenas mais lindas é quando Claire e Virginia vão se divertir em uma casa noturna GLS e veem uma apresentação de uma drag queen lindíssima dublando uma música em francês que fala sobre se tornar uma mulher. Virginia se emociona, talvez por se reconhecer na drag queen e na música. Nesse momento, Claire observa Virginia e, imagino, ao vê-la tão feliz e tão bonita, se apaixona de vez por ela.

Recomendo muito!



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