Pages

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Por que você escreve?

Woman writing at a table, 1905 (Thomas Pollock Anschutz)

Motivada por este vídeo do Sidney Guerra, do site Escreva seu livo - gosto muito dele e da Laura Bacellar!; parecem ser pessoas generosíssimas -, hoje vou (tentar) escrever por que gosto de escrever.

Antes de começar a escrever sobre isso, gostaria de comentar que o que o Sidney Guerra comentou sobre "motivação para escrever" bate com o que considero "literatura". Ou seja, é um texto (ou texto e imagens, no caso de HQs) que nos toca, nos faz refletir, nos mostra partes de nós mesmos e nos faz pensar mais profundamente sobre os outros e o mundo que nos rodeia e, enfim, nos transforma em maior ou menor grau.

Nunca tinha parado para pensar por que gosto de escrever. Imagino que esse deve ser um dos vários gostos inatos, assim como tem gente que gosta de jogar futebol, tocar piano, tirar fotos ou fazer cálculos.

Quando eu era criança, eu já lia bastante (ah, eu amava a Coleção Vaga-Lume!) e, depois de um tempo, comecei a escrever histórias também. Talvez eu tenha pensado "também consigo fazer isso" ou "quero provar para mim mesma que consigo", então bolei uma história e manuscrevi, depois datilografei; eu tinha 11 anos na época. Aliás, quando tinha 10 anos pedi para minha mãe me colocar nas aulas de datilografia para depois poder datilografar meus textos e deixá-los mais "limpos", sem ser manuscritos (lembrando que no início dos anos 90 o computador ainda não era popular no Brasil). Depois escrevi outra história. A primeira história era sobre uma menina mais ou menos da minha idade na época, que estava na quinta série e tinha acabado de se mudar de cidade e de escola; depois de um tempo, os pais morrem em um acidente de carro e ela descobre que havia sido adotada, aí a professora preferida dela a adota. A outra história era com duas irmãs gêmeas, mas não lembro o enredo (eu tenho um certo fascínio por irmãos gêmeos, ainda mais se forem idênticos). O que me surpreende até hoje é, pelo que lembro, as histórias tinham entre 70 e 80 páginas datilografadas cada. Tudo bem que as histórias eram meio clichês e havia uns erros de português, mas acho surpreendente ter conseguido me alongar por tantas páginas - depois disso, só consegui escrever contos de, no máximo, quatro páginas digitadas.

 Diploma que tirei um pouco antes de completar 11 anos

Foi mais ou menos nessa época também, quando tinha 10/11 anos, que comecei a trocar cartas com as minhas primas e depois com pessoas que eu conhecia por carta (eu procurava pessoas que talvez fossem legais ou moravam em lugares legais na sessão de cartas nos gibis da Mônica e mandava cartas para elas; uma vez meu nome foi publicado num gibi, eu tinha escrito para a revista dizendo que queria trocar cartas com outros escoteiros - recebi várias cartas de escoteiros do Brasil todo!, isso foi MUITO legal; depois cheguei a procurar correspondentes em outros tipos de revistas e, quando meu pai comprou um computador com acesso à internet, em 97 ou 98, eu conhecia pessoas em chats ou sites de assuntos de que eu gostava (literatura, cinema, basicamente) e depois trocávamos e-mails e cartas - e isso acontece até hoje).

Continuei escrevendo durante a adolescência e às vezes inscrevia os textos em concursos. O máximo que consegui foi ficar em 3º lugar na categoria "crônicas" em um concurso da prefeitura de Barueri quando tinha 16 ou 17 anos (o texto é este). Escrevi irregularmente durante a faculdade - porque a louca tinha aula de manhã e à tarde e ainda fazia aula de alemão e japonês por fora... - e depois de me formar também (quando tinha 20 e poucos anos eu e um amigo virtual escrevíamos contos eróticos num blog específico que ele criou e eu assinava com um pseudônimo), mas já não participava de concursos.

Em 2007, quando passei em odonto e comecei o curso, comecei também este blog, que incialmente seria sobre minha vida de estudante de odonto e posts sobre a área, mas depois virou uma miscelânea.

Até o fim do colegial, eu também escrevia diário (em agendas). Depois que entrei na faculdade, parei. Quando vim para São Paulo, no começo de 2009, voltei a escrever em diário, mas só escrevo quando tenho vontade. Escrever diário é libertador e ao mesmo tempo dá um alívio, porque ninguém lê e, quando eu não lembrar mais de coisas que fiz, senti, pensei, vivi, posso consultar o que tem nesses cadernos.

Em 2012 me inscrevi para um concurso de contos do Bunkyo e esse ano (2015!) entraram em contato falando que meu conto havia sido selecionado para compor a antologia - não ganhei prêmio, nem nada, o conto só vai compor o livro, junto com os três ganhadores. Fiquei feliz, apesar de achar, sinceramente, que o conto que inscrevi não estava lá essas coisas - lembro de ter me obrigado a escrever porque queria participar de qualquer jeito. E o fato de ter sido selecionada me motivou a retomar a escrita e a inscrever contos em concursos para ver o que acontece. Além disso, também comecei a me planejar financeiramente para (tentar) fazer a oficina literária do Assis Brasil em Porto Alegre em 2017. Se eu realmente tiver competência e talento para escrever, essa pode ser uma atividade paralela à carreira de editora e tradutora literária que eu gostaria de desenvolver. Como milhares de outras pessoas, gosto de escrever, isso me dá prazer, gosto de pensar que meus textos podem tocar outras pessoas e talvez torná-las mais amplas, como muitos livros me tornam, mas só gostar não basta, eu sei, tem que ralar/escrever muito até eu poder chegar ao ponto de analisar criticamente e concluir "isso está bom e pode ser lido por outras pessoas".

Por falar nisso, me inscrevi ontem no concurso literário da Amazon e do jornal O Globo. Penei para encontrar uma foto que tivesse a ver com o meu conto em sites de fotografias grátis e também para usar as ferramentas de edição do Kindle Direct Publishing (KDP). Tentei deixar a capa o menos horrível possível (tenho vergonha do que meus amigos designers vão pensar dela) e o resultado foi esse:


O link para comprar o livro é este. O preço mínimo (para quem participa do concurso) é R$ 1,99 e o máximo R$ 5,99 . Fiz uma alteração lá e o arquivo poderá ser baixado grátis entre 31/07 e 04/08. De 90 em 90 dias o KDP permite esse tipo de promoção, para que as obras possam ser divulgadas (imagino que para os livros autopublicados também e não só os contos que estão participando desse concurso).

As inscrições para o concurso se encerram amanhã (31/07/2015) e o regulamento e demais informações podem ser vistos aqui.

Imagino que o objetivo da Amazon era promover a plataforma e as ferramentas de autopublicação deles e deve ter dado certo (já tem mais de 5 mil contos publicados lá). Se não fosse pelo concurso, eu (e muita gente) provavelmente nunca me animaria a ter todo esse trabalho para me autopublicar.

Até o fim do ano, devo escrever mais, no mínimo, dez contos para inscrever em concursos literários promovidos em todo o Brasil (para quem se interessar, indico este blog). Estou focada, quero ver até onde consigo chegar com a escrita (e também como tradutora e futura editora), é até meio bizarro falar isso, mas estou curiosa com meu próprio destino, o que vai acontecer comigo no futuro com base em escolhas que estou fazendo agora. Gosto muito disso tudo (escrever, traduzir, editar, trabalhar com texto) e quero que meu trabalho tenha qualidade.

Esses dias li algo do tipo: "Quando é importante, você arranja um meio de chegar lá; quando não é, você arranja uma desculpa". Acho que é isso. Quando a gente realmente quer algo, uma hora ou outra, consegue. Quando a gente não deseja algo com toda a vontade ou acha que não vale a pena, arranja uma desculpa ou assume que é muito difícil e desiste, abre mão.

Sinto que agora estou pronta para me dedicar mais à escrita. Tenho mais maturidade e mais experiências de vida, fora as histórias (sur)reais que vários amigos me contam, que talvez possam ser transformadas em ficção e lapidadas até se tornarem "literatura", se eu me dedicar e me esforçar. Eu realmente queria muito passar por uma oficina literária séria, tirar um ano sabático para me dedicar a isso, para me aprimorar e concluir se levo jeito para escrever profissionalmente ou não. Se eu concluir que não levo jeito depois de tentar, eu automaticamente investiria apenas na carreira de editora e tradutora mesmo.

E por que passei e passo tanto tempo escrevendo cartas, diário, blog? Por que estou escrevendo agora? Porque gosto e pronto. Não tem muita explicação. [Aliás, nesse momento acabei de lembrar que preciso/quero escrever carta para, no mínimo, duas pessoas muito queridas, além de responder e-mails de amigos. É difícil o dia ter só 24 horas e as minhas vontades serem tantas...]

No fim das contas, escrevi um post enorme e nem consegui explicar por que gosto de escrever. Acho que gosto "porque sim". Às vezes parece que há milhares de ideias e pensamentos passando pela minha cabeça e preciso "extravasar" isso em palavras para poder me organizar; às vezes escrevo para depois poder lembrar (esqueço muitas coisas involuntariamente); às vezes escrevo para compartilhar algo bom, engraçado ou mesmo ruim - parece que ao partilhar algo bom a alegria se multiplica e, ao partilhar algo ruim, a tristeza/ a frustração/ o peso se dilui. E escrever ficção ainda dá um prazer extra por me permitir "brincar de deus(a)" - posso fazer o que eu quiser com os personagens: posso matá-los, criar pequenas felicidades ou grandes desgraças em suas vidas; posso ser cruel, posso tornar encontros casuais em encontros mágicos, posso ser sádica ou me colocar na pele de pessoas que nunca serei e imaginar como seria viver situações que estão completamente fora da minha realidade.

Já que não consigo controlar nem a minha vida, é um poder (e um prazer) e tanto poder controlar a vida de vários personagens, não?

5 comentários:

Karen disse...

Minha relação com a escrita é parecida com a sua. Escrevia muitas cartas, lia, tinha pen-friends, participava de concursos literários (ganhei uma bicicleta, alguns certificados e medalhas, conheci o Pantanal e deve haver alguma coletânea com um conto meu por aí), mas aconteceu algo depois do colegial. Emburreci, desanimei, sei lá. Este ano recebi uma menção honrosa pela tradução de um conto do japonês para o português. Foi legal, ela foi publicada e rendeu alguns reais... rs
Coincidentemente, também decidi voltar a participar de concursos. Vou ver se baixo o seu conto para o Kindle. Boa sorte!

Sentir prazer em escrever é algo recente, acho que, durante muito tempo, queria provar algo para mim mesma.)

aline naomi disse...

Karen,

que máximo você ter recebido uma menção honrosa por uma tradução do japonês!! *_* Mais pra frente, bem mais pra frente, quando eu começar a me arriscar a traduzir do japonês (quero muito!), já sei a quem pedir ajuda! =D

Se tiver algo de ficção publicado em algum lugar, me avisa (talvez você se anime a publicar contos na Amazon também, para começar a divulgar seu trabalho, mais pra frente). Acho que já falei, mas morro de curiosidade de ler algo assim seu, queria ver seu estilo de escrita e tal, deve ser muito interessante.

Ah, escrevi tanto nesse post e esqueci de mencionar que uma parte da minha motivação em escrever profissionalmente também tem a ver com grana. É que já faz um tempo ando bem cansada e fiquei refletindo sobre essa insanidade: "Mas se eu quiser ganhar mais, vou ter sempre que ter um trabalho fixo e pegar cada vez mais trabalhos free-lance?". Concluí o óbvio: é inviável porque não tenho tanto tempo, portanto, mesmo que me proponham mil coisas, não conseguirei assumir tudo. E aí lembrei de um negócio que um professor do MBA falou (às vezes me acho tão anormal; não presto atenção nas aulas/ não foco no que supostamente é importante, mas presto atenção nessas conversas meio à toa nas aulas)... ele já era um senhor de uns 70 anos e estava comentando que tinha um pouco de pena da gente (pessoal na faixa dos 30 anos), porque antes tudo era mais fácil, o governo facilitava mais as coisas para comprar uma casa, por exemplo, e também que antes o mercado de trabalho permitia ganhar dinheiro com mais facilidade; ele, por exemplo, tinha um trabalho (provavelmente como executivo de alguma multinacional, como a maioria dos professores da FGV é), mas, paralelamente a isso, tinha uma empresa que alugava maquinário pesado: ele comprava esse maquinário importado e depois alugava para as empresas, aí ele disse que não precisava fazer nada, enquanto estava dormindo, o dinheiro estava rendendo - mas hoje em dia isso parece que isso não dá dinheiro porque é fácil para as empresas comprarem seu próprio maquinário/ o maquinário está mais acessível. Então fiquei pensando nisso e no que eu poderia fazer para ter algo assim também, algo que rendesse sem necessariamente ter que "colocar a mão na massa o tempo todo", porque quero ter mais tempo livre, mais tempo para mim mesma, para eu poder fazer o que quero e estudar o que quero (coisas que não sejam só para "acrescentar no currículo"), porque isso é importante para mim. Então pensei que se eu conseguisse me tornar uma escritora profissional (e vendável), o dinheiro ia ficar rendendo, eu poderia ter um trabalho como agora (continuar evoluindo como editora, talvez), mas teria mais tempo. E isso, ainda, fazendo uma coisa que eu gosto. E, pelo pouco que vi na editora, quando os livros vendem muito/ quando o autor é bom (e/ou o autor sabe se promover), dá até para viver só de escrever livros (pelo menos por um tempo).

Ao mesmo tempo, lembrei do Caio Fernando Abreu (escritor gaúcho, você deve conhecer). Pelo que vi num doc sobre a vida dele (amigos e parentes falando dele), parece que ele trabalhava muito por um tempo - em jornais e revistas, fazendo/ escrevendo coisas de que ele provavelmente nem gostava tanto -, ganhava uma grana e depois ficava um tempo só escrevendo livros, que era o que fazia sentido para ele, mas tinha vezes que ele passava necessidades, faltava grana, ele precisava pedir ajuda/ favores para amigos. Por isso quero que as coisas sejam bem planejadas; não me vejo passando necessidades e tendo que pedir favores para os outros...

Karen disse...

Ganhar dinheiro escrevendo seria tão bom... Esses escritores que conseguem viver da escrita que você conhece escrevem literatura? Inveja... Mas acho que eu não conseguiria chegar lá, tenho consciência de que minha escrita está longe de ser brilhante, na verdade, ela é bem mediana, mas bem, praticar ajuda, né?

Seu projeto é bom, acho que ajuda muito você estar no/ e conhecer o/ meio editorial. Avise quando seu livro sair!

Ainda não baixei seu conto, acho vou ter que pedir para meu marido fazer isso, pois a conta deve estar no nome dele... :/

Karen disse...

Gostei do conto, Aline! Bem enxuto, simples. Eu teria dificuldade em dizer se ele foi escrito por um homem ou por uma mulher. rs

aline naomi disse...

Karen,

vou responder sua mensagem por e-mail.

E obrigada por ler o conto! ;)