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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Restaurante japonês Mugui - Liberdade - São Paulo

Foto aleatória que tirei na Liberdade, acho que uma cena do filme "Estação Liberdade" foi filmada nesse beco

Sexta-feira retrasada, depois do trabalho, fui jantar na Liberdade com a Cris Maruyama, que é uma das minhas amigas mais gourmands. Dessa vez fomos conhecer um restaurante chamado Mugui, na rua da Glória, 111, por sugestão dela. Já tínhamos ido ao Sushi Isao, que fica no mesmo prédio e ficamos de voltar lá para conhecer os outros restaurantes (é um prédio cheio de restaurantes japoneses).

Para começar, pedimos uns bolinhos chamados "shumai" (um tipo de gyoza - pasteizinhos de carne de porco, com uma massa bem fina, cozidos no vapor):


O legal é que trazem uma comanda com os preços e também um "cardápio explicativo", onde podemos ver quais ingredientes compõem cada prato.



Eu pedi um udon nabeyaki (udon com frango, camarão, tempurá, massa de peixe e alguns vegetais) porque tinha visto uma foto linda neste blogue (cujo link a Cris já tinha me enviado previamente por e-mail) e fiquei com muita vontade de provar.


A Cris pediu um katsu domburi (carne de porco empanada, arroz, molho de shoyu, cebola, e um ovo por cima), porque ela disse que comia isso direto no Japão mas aqui nunca tinha visto servirem em restaurante:

Katsu domburi (Foto by Cris)

Pedimos também banchá gelado. Detalhe: pelo que entendi, o banchá quente é cortesia, mas o gelado é cobrado (R$ 3).

Yuri compenetrada lendo anotações do trabalho...

Sexta-feira passada voltei lá no Mugui com a Yuri e aí pedi o prato que a Cris tinha pedido na semana anterior: katsu domburi! :) Esqueci de dizer que o prato acompanha misoshiru (sopa com pasta de soja, cebolinha e tofu cortado em cubos) e sunomomo (salada de pepino agridoce).


 A Yuri pediu a versão desse prato com carne bovina (niku domburi):



Balcão e alguns clientes na mesa (no lado oposto também há mesas)

Depois a Yuri pediu outro prato (!) porque achava que ainda estava com fome. A garçonete até perguntou, meio espantada: "É para comer agora?" (é que também dá para levar os pratos para comer em casa). Aí a Yuri riu e disse que sim. Haha. #pedreirofeelings

O prato escolhido foi o hiyashi soomen (macarrão gelado com verduras, uns pedaços de laranja e molho de soja - a porção é gigante e acho que dá para duas pessoas em estado de fome normal):

 Hiyashi soomen

Zoom (detalhe para o ovo em forma de coração partido ao meio):


Pela foto não dá para ter muita ideia do tamanho, mas vem muito macarrão de arroz embaixo dessa cobertura. Lógico que sobrou dois terços do prato e a Yuri pediu para embrulhar para levar para casa.

Gostei muito desse restaurante por ser simples e a comida muito boa (no fim das contas, é o que interessa). Além disso, não cobra 10% de serviço, a porção é generosa e os preços são (como dizem) bastante honestos. O gasto médio fica em torno de R$ 35 se pratos mais caros não forem pedidos (vejam a comanda com preços nas fotos acima). Certamente voltarei e recomendo!

Mugui
Rua da Glória, 111 - 1º andar - Liberdade - São Paulo-SP
Telefone: (11) 3106-8260

Horário
segunda: 11h30 às 14h30 e 18h30 às 21h.
terça a sábado: 11h30 às 14h30 e 18h30 às 22h

Importante: não aceita cartão de crédito, apenas cartão de débito, dinheiro e tíquetes-refeição (confirmar os tipos de tíquetes aceitos)

domingo, 30 de agosto de 2015

Neil Gaiman - duas leituras


Esse fim de semana terminei de ler O Livro do Cemitério e há algum tempo li A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras, ambos do Neil Gaiman e emprestados pelo Sergio, que também é fã do desse autor.

Neil Gaiman é mais conhecido como roteirista da série Sandman (que eu ainda não li, mas o Sergio disse que eu preciso ler, além de ter dito que eu me pareço com a Morte, uma das personagens de Sandman - o que me deixou curiosa para saber mais sobre ela).

Gostei demais de A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras, cuja ideia surgiu em 2010, quando Gaiman foi convidado a fazer uma performance no Sydney Opera House enquanto o quarteto de cordas FourPlay tocava. Durante a performance (leitura do conto feita por Gaiman), pinturas feitas por Eddie Campbell eram projetadas numa tela - as ilustrações feitas por ele também compõem o livro.

A Verdade é uma Caverna nas Montanhas Negras é a história de um anão que, com a ajuda de um homem, vai até as Montanhas Negras, onde há uma caverna da qual poderá tirar todo ouro que conseguir carregar. Apesar de todos dizerem que esse ouro é amaldiçoado, o anão insiste em ir até lá.



O legal do livro é que ele contém ilustrações que são continuações (e não repetições) do texto. Há uma mistura equilibrada entre texto e ilustrações/quadrinhos com falas.

A leitura é bastante instigante, pois como o clima é sempre sombrio, temos a impressão de que os dois personagens têm muitos segredos, além de ficarmos curiosos para saber se eles vão conseguir chegar à Montanha Negra (o caminho é bastante complicado, há névoa, lama, é preciso pegar um barco, a escalada pelas montanhas é difícil), se o anão vai conseguir pegar o ouro e o que vai acontecer com ele, qual a real motivação para ele querer o ouro amaldiçoado, qual a intenção do guia que o leva até lá, além de ganhar algum trocado. Esse conto merecidamente ganhou alguns prêmios; é muito bom.



O Livro do Cemitério é bem mediano. Sou fã do Gaiman, mas não sou fanática a ponto de dizer que tudo que ele faz é bom. É um texto bem escrito, estruturado, mas falta "algo". A história não me dá vontade de querer ler loucamente para chegar no fim, como aconteceu com o A Verdade é uma caverna...

Gostei da sinopse e o começo do livro também é bom: uma família é assassinada - pai, mãe e a filha desse casal -, mas um bebê, membro mais novo da família assassinada, consegue fugir. O assassino vai atrás do bebê, mas não consegue encontrá-lo para matá-lo conforme o plano original. O bebê acaba se refugiando em um cemitério e sendo cuidado por "fantasmas" de pessoas que foram enterradas lá. Ele ganha pais adotivos e é batizado de "Ninguém Owens" (Owens é o sobrenome do casal que o adota), ou simplesmente "Nin", além de um guardião - que ensina muitas coisas a ele e o tira de alguns problemas.


É uma ideia original, mas depois começa a cansar. Nin vai crescendo entre as sepulturas e entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos, enquanto o assassino de sua família continua procurando-o, pois precisa eliminá-lo para que a ordem de uma sociedade secreta da qual faz parte continue existindo. Há alguns elementos à la Harry Potter (Nin é ensinado a "sumir", a "provocar medo", entre outros tipos de magia) que são meio entediantes.

O fim é bastante previsível e eu não gostei muito.

Mas, também, preciso levar em consideração que esse livro é um livro infantil ou infantojuvenil, escrito para um público-alvo (imagino) de 8 a 14 anos etc. e tal. Mesmo assim, é um livro chatinho. Tem livros infantis bem melhores, mais inteligentes e instigantes (A árvore generosa, A bolsa amarela, O escaravelho do diabo...).

Mas aí, como comecei a leitura, queria só confirmar se ia acabar tudo em happy end mesmo...  imagino que livros para crianças precisem ser meio assim; do contrário, é ou pode ser muito chocante: o personagem principal morre, todo mundo de bem morre e o mal domina o mundo. Na vida real isso é bastante possível, mas para as crianças deve ser importante acreditar que, apesar de todas as dificuldades, o bem sempre vence. Então tá.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Manual de bons modos no transporte público

Eu já vinha pensando neste post há um bom tempo, mas depois do que me aconteceu na semana passada, agora é o momento de tirá-lo da cabeça e colocá-lo aqui. 

Na semana passada, já não lembro em que dia da semana, na volta do trabalho, depois de uma garota ter sentado ao meu lado, na poltrona do corredor, e descido em um dos primeiros pontos chegando em São Paulo, um cara se sentou ali e começou a se masturbar. Simplesmente se sentou, colocou um casaco no colo, depois a mochila por cima e, com a mão esquerda, começou a se tocar por baixo do casaco. Percebi só um tempo depois, com o rabo de olho, porque estava lendo. Daí, guardei o livro na mochila, pedi licença e fui sentar lá na frente, perto do motorista. Sorte que andar armado é ilegal, porque talvez eu comprasse uma arma e, se estivesse armada naquele momento, talvez falaria: "Você vai morrer agora, seu filho da puta!", sacaria a arma e explodiria os miolos do camarada. Voaria miolos para todos os lados, no estofado aveludado da poltrona, nas cortinas azul-marinho, nos vidros das janelas, no chão do corredor. E eu seria injustamente presa. [Aliás, foi essa a cena à la "Suicide Club" que imaginei logo depois desse episódio, de tanta raiva e repulsa.] 

Como pego o ônibus executivo quase vazio no começo da linha, tanto na ida (São Paulo-Alphaville) quanto na volta (Alphaville-São Paulo), sempre vou na poltrona da janela, na fileira do lado do motorista, na antepenúltima fileira - depois de um tempo escolhi essa poltrona e sempre que possível, sento nela. Às vezes vou ou volto com a poltrona ao lado vazia (gosto assim, porque coloco minha mochila nessa outra poltrona), mas, na maioria das vezes, vem alguém sentado ali, porque os ônibus costumam encher. Mas esse episódio do cara se masturbando para mim era inédita. Uma amiga que também trabalhou anos em uma editora em Alphaville e pegava essa linha disse que já tinha ouvido falar dessas coisas, embora ela mesma nunca tenha visto nem passado por isso (pior, esse ano ela foi vítima de algo bem pior, um senhor se esfregando nela no micro-ônibus e, detalhe: com o pinto para fora). Eu nunca tinha ouvido falar que esse tipo de coisa acontecia na linha que eu pegava e fiquei chocada com a falta de noção do cara. E mais ainda com a situação surreal que minha amiga vivenciou. Não, gente, isso não é normal. Essas pessoas são doentes.

Então, abaixo segue uma lista de bons modos em transporte público, para podermos conviver de modo mais civilizado, certo? Vale principalmente para metrô, ônibus e trem, mas também pode ser aplicado para outras áreas públicas em que o convívio social é inevitável.

1. Não se sente nos assentos reservados para idosos, pessoas com deficiência, grávidas e pessoas com crianças de colo. Muito menos sente nesses assentos e finja que está dormindo quando um idoso entrar, só para não ceder um lugar que é direito dele.

2. Não fique conversando horas no telefone celular, em voz alta, sobre assuntos que não interessam a ninguém a não ser a você mesmo(a). Ninguém é obrigado a ouvir com quem você está saindo, com quem trepou na noite passada, se o seu marido está te traindo ou como foi seu exame de fezes.

3. Se o metrô, ônibus ou trem estiver cheio, por favor, segure mochilas, sacolas e bolsas grandes na mão, pois elas atrapalham demais quem está passando, entrando ou saindo. Fora que levar a mochila nas costas em transporte público lotado é pedir para ser furtado.

4. Sempre que tiver espaço nos corredores, não fique perto das portas (e muito menos no meio delas!) impedindo o fluxo de pessoas. Sei que é óbvio, mas sempre tem uns cretinos que sobem no começo da linha, vão descer quase no final e ficam atrapalhando o fluxo, mesmo quando o ônibus, metrô ou trem está vazio. 

5. Ouça música com fones de ouvido, sempre. As pessoas não querem ouvir uma amostra do seu gosto musical "maravilhoso". E teste os fones de ouvido antes de usá-los (os mais vagabundos sempre deixam escapar som, o que pode incomodar as pessoas ao redor do mesmo jeito).

6. Tudo bem que você está megafeliz, mas não precisa ficar cantando alto e desafinado músicas da Britney Spears, sertanejo, pagode, gospel ou o que quer que seja dentro do ônibus lotado.

7. Ao se sentar, se já houver alguém no assento, não precisa se jogar, como se fosse um saco de batatas. Assim como não precisa ficar se encostando (pernas, braços ou o que for) na pessoa e nem batendo os pés ou mexendo freneticamente dentro da bolsa/mochila e esbarrando o cotovelo na pessoa ao lado. 

8. Não fique andando nas plataformas de ônibus, metrô e trem olhando para o celular e/ou usando o WhatsApp. Isso atrapalha quem quer passar, principalmente nas horas de pico. Vá para um lugar que não atrapalhe, faça o que tiver que fazer no celular e depois volte para o fluxo.

9. Não custa nada ficar parado ao lado direito da escada rolante nas estações de metrô e deixar o lado esquerdo livre para quem está com pressa para chegar ao trabalho, à faculdade ou aonde quer que seja. Imagine que você trabalha na Zona Sul e, ao sair do trabalho, precisa estar na faculdade na Zona Norte em tempo recorde, porque a professora faz a chamada nos primeiros 10 minutos de aula e você não pode mais faltar naquela matéria - você vai entender melhor do que estou falando.

10. Não jogue lixo dentro dos transportes públicos e não deixe que seus filhos ou as crianças/ pessoas com que está viajando façam isso. É óbvio, mas nem tanto (pela quantidade de lixo no chão dos vagões de metrô que vejo às vezes...).

11. Procure não comer coisas perecíveis de origem duvidosa vendidas em barracas ou de ambulantes, principalmente em dias quentes, para evitar vomitar nos outros ou dentro do transporte público. Os outros usuários agradecem.

12. Se for se matar, procure não se jogar nos trilhos do metrô/trem e nem na frente de um ônibus de segunda a sexta entre 6h e 9h e entre 16h30 e 19h30. As pessoas estão cansadas e apenas tentando chegar ao trabalho ou em casa. Aliás, se estiver pensando em se matar, procure ajuda com amigos, familiares, psicólogo, psiquiatra ou ligue para o CVV. Para tudo há um jeito se você continuar vivo e buscando o equilíbrio.

13. Por último, mas não menos importante: não se masturbe dentro do transporte público. E muito menos fique assediando/bulinando as pessoas (vale para homens e mulheres - embora nunca tenha ouvido falar de mulheres que assediam caras, já não duvido de mais nada nesse mundo). Pode ser que a pessoa tenha amigos "da pesada" que vão te dar uma surra merecida para você deixar de ser cretino.

Provavelmente há várias outras dicas de bons modos a ser seguidas, mas no momento só consegui pensar nessas.

***

Itens incluídos posteriormente:

14. Não fique fumando na fila do ônibus. Por uma questão de educação e respeito às pessoas que estão ali porque precisam estar e não porque querem. Fumaça de cigarro incomoda não fumantes, apesar de os fumantes, aparentemente, não estarem nem aí para isso.

15. Não tente entrar no último segundo nos vagões do metrô. Nunca contei, mas, em horários de maior movimento, o intervalo entre um trem e outro deve ser de 2 ou 3 minutos - sério. Então pra que correr o risco de se machucar? Outro dia duas garotas com umas bolsas grandes entraram correndo depois do apito (quando faltam uns 3 segundos para as portas se fecharem, há um apito avisando) e o braço de uma delas ficou para fora, talvez com a bolsa (eu não vi direito). Se não fossem uns caras terem aberto a porta, a cretina talvez tivesse perdido a bolsa e o braço - vale a pena? Fora que esse tipo de coisa atrasa a partida do trem e do sistema metroviário como um todo. O metrô poderia fazer umas campanhas mais incisivas do tipo: "Por favor, parem de ser cretinos".

Obs.: Às vezes é muito difícil amar a humanidade.

16. As barras verticais nos trens do metrô e nos ônibus não são barras de pole dance, são para as pessoas se segurarem nelas. Então não fique todo encostado e/ou esfregando seu corpo nelas.

17. Não tome banho de perfume. Pode ser sufocante estar com você no metrô ou no ônibus lotado com pouco ou nenhum ar circulando durante a viagem.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Amores Inversos



Gosto de filmes baseados em livros, apesar de os filmes, na maioria das vezes, serem mais fracos ou deixarem um pouco a desejar em relação ao livro. Gosto mesmo assim, ainda mais por entender que literatura e cinema são linguagens artísticas diferentes e que não tem como transformar o livro em uma "versão em imagens" totalmente fiel e satisfatória para os leitores.

"Amores Inversos", dirigido pela americana Liza Johnson e protagonizado por Kristen Wiig (que eu não conhecia; ela é ótima!), é um filme baseado no conto "Ódio, amizade, namoro, amor, casamento", da canadense Alice Munro, que ganhou o Nobel de Literatura em 2013, entre vários outros prêmios literários importantes.

No filme, Kristen Wiig é Johanna Parry, uma mulher interiorana que cuida de uma senhora idosa desde os 15 anos. Logo no começo do filme, depois que essa senhora morre, por indicação do pastor da cidade, ela vai trabalhar em outra cidade, na casa do sr. McCauley, que mora com sua neta, Sabitha. Johanna é tímida e veste umas roupas fora de moda (isso é evidenciado explicitamente pelas duas personagens mais mesquinhas da história, que caçoam dela); ela é boa em limpar, organizar e cuidar da casa e também das pessoas. Aparentemente, ela se vê no papel de cuidadora, essa é sua função no mundo e na qual se sente confortável. 

A mãe de Sabitha havia morrido em um acidente alguns anos antes e seu pai, Ken, aparentemente não tem trabalho fixo, bebe, se droga e já havia sido preso (por estar dirigindo embriagado no acidente em que sua esposa/mãe de Sabitha morreu), por isso Sabitha morava com o avô.

Sabitha parece uma boa garota, só um pouco irritante como toda adolescente que não larga o celular (uma hora, à mesa, o avô pergunta: "Por acaso isso [celular] está cirurgicamente implantado na sua mão?", porque ela não parava de mexer no celular, mesmo com a comida servida), mas sucumbe à ideia cruel da melhor amiga, Edith: juntas elas escrevem e-mails para Johanna como se fossem Ken, e Johanna acaba criando expectativas em relação a ele.

Enquanto tudo está no plano virtual, não há efeitos destrutivos, pelo contrário, Johanna passa a se ver de um jeito mais bonito, parece que, quando se olha no espelho, pela primeira vez, começa a se admirar. Até que Edith, se passando por Ken, reforça o nível de crueldade e propõe que Johanna vá visitá-lo em Chicago. Johanna acredita na proposta e vai para Chicago, então essa mudança geográfica desencadeia uma série de outras mudanças improváveis.

É um bom filme, eu gostei muito.

***

Li o conto "Ódio, amizade, namoro, amor, casamento", da Alice Munro, depois de ver o filme e, como sempre, há diferenças na trama.  

O título do conto vem de uma brincadeira inventada por Sabitha:

"A maioria de suas boas ideias vinha de Edith. A única boa ideia que Sabitha teve era escrever num papel o nome de um garoto e o seu próprio, descartar as letras que se repetiam e somar então as restantes. Depois elas contavam o número na ponta dos dedos, dizendo Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, até receber o veredicto sobre o que poderia acontecer entre elas e o garoto."

Inicialmente, o foco do conto é o sr. McCuley, avô de Sabitha, e não exatamente Johanna, mas, depois, por meio de cartas que ela escreve a Ken, ficamos sabendo mais sobre ela e passamos a acompanhar sua trajetória. Ela nasceu em Glasgow, Escócia, mas foi abandonada pela mãe e depois encaminhada, aos cinco anos, para uma instituição. Johanna esperou que a mãe voltasse, mas nunca ela voltou. Com 11 anos, ela foi parar no Canadá, por conta de um projeto (a história do conto se passa no Canadá e a do filme, nos Estados Unidos) para trabalhar em uma horta, idealizado pelo então presidente Richard Nixon, que governou os Estados Unidos entre 1969 e 1974. Teve algumas experiências de trabalho antes de trabalhar para a senhora que viria a falecer doze anos depois, com 96 anos - Johanna morou com ela esse tempo todo e considerava que as duas eram amigas. Também ficamos sabendo um pouco mais sobre Ken - ele não era alcoólatra, nem drogado, nem tão irresponsável quanto no filme.

No conto, as garotas não usam e-mail, mas cartas datilografadas, fingindo ser Ken. O perfil de Edith é melhor delineado, ela é ainda mais esperta, maldosa e invejosa que no conto, pois a situação econômica das duas é mais evidente: o avô de Johanna é rico, podia lhe dar o que ela quisesse, enquanto os pais de Edith tinham uma sapataria, o que parece ter despertado a vontade de Edith em "crescer na vida", se mudar daquela cidadezinha e prosperar em algum outro lugar.

O desfecho se dá dois anos depois, quando o velho sr. McCuley morre e Sabitha retorna à cidade onde morou por um tempo com o avô. Pelo contexto, entendi que, pouco tempo depois de Johanna ter fugido da casa do sr. McCuley para encontrar Ken, Sabitha foi morar e ser educada por uma parente em outra cidade. Ela está mudada, mais sofisticada, assim como Edith também está diferente, mas as duas não chegam a se falar no enterro.

Vou procurar ler mais contos da Alice Munro, porque gostei muito desse.




segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Os 13 Porquês - Jay Asher


Não lembro como cheguei a este livro juvenil, mas como me interessei pela sinopse (o tema central é "suicídio") e ando lendo sobre isso para tentar compor um personagem, decidi ler.

E preciso confessar: baixei uma versão pirata e foi o primeiro livro pirata que li na vida - me senti uma fora da lei. Minto, já tinha lido livros ou trechos de livros xerocados na época da faculdade também. Mas isso é diferente; foi a primeira vez que baixei um livro inteiro na internet (aqui), porque achei que o custo x benefício não valeria a pena. Mas o livro vale o que custa, sim (em média, R$ 35). De qualquer forma, o arquivo estava cheio de erros de digitação e ortografia, um horror - é isso que pessoas que baixam coisas pirata merecem mesmo: material esculhambado de baixa qualidade para deixarem de ser muquiranas e "espertinhas".

Sobre o livro, a narrativa flui bem e é instigante até o fim. Desde o começo já sabemos que Hannah Baker, uma estudante americana do Ensino Médio, de 16 ou 17 anos, se suicidou. E vamos descobrindo o contexto da atitude dela pelas fitas cassete que ela gravou e que Clay Jensen, um colega do colégio, que era meio apaixonado por ela, recebeu dentro de uma caixa na porta de casa alguns dias depois do suicídio.

Clay descobre que as sete fitas cassete (seis gravadas dos dois lados e a última, apenas do lado A, somando 13 narrativas, os 13 porquês do título) já haviam passado por algumas pessoas e que ele precisará enviar para alguém depois de ouvir todas. Hannah avisa que só quem está nas fitas vai recebê-las (ao todo, 13 pessoas) e poderá saber o que aconteceu de verdade, como cada um contribuiu para que ela tirasse a própria vida.

Clay fica desnorteado, pois não lembra de ter feito nada de prejudicial à Hannah, diferente de outras pessoas do colégio, que espalhavam boatos de que Hannah era isso ou aquilo, que havia feito aquilo outro. Na verdade, ele gostava muito dela e se preocupava com ela, mas talvez tenha perdido a chance de dizer isso a ela.

O livro dá uma ideia do que significa ser adolescente hoje em dia e da dimensão que o bullying pode tomar. Não que eu não soubesse disso (lembram das adolescentes que se mataram quando vídeos íntimos delas foram divulgados na internet um ou dois anos atrás?). Para mim tudo isso é muito fora da realidade, porque nunca me interessei muito em ficar com os garotos do colégio, só ouvia as fofocas de outras pessoas e achava tudo meio sem sentido. Meus amores na época eram platônicos e para mim estava ok; e só agora me dou conta de que esse comportamento pode ter me salvado de situações cruéis, constrangedoras ou dolorosas. Deve ser ainda mais difícil ser adolescente hoje em dia; "tudo pode ser fotografado e filmado e usado contra você", literalmente. Além das redes sociais serem palco para um desfile de vaidade, exibicionismo e crueldade. Não que o mundo adulto não seja assim também, mas depois de um tempo vamos ficando mais fortes, ou pelo menos deveríamos, e certas coisas não nos atingem de forma tão avassaladora. Não consigo imaginar a dor e o desnorteamento de uma garota de 15 ou 16 anos que transa com um colega de sala e, no dia seguinte, ele espalha para todo mundo o que aconteceu - e pior se ele tiver imagens disso e espalhar por WhatsApp e Facebook. Aí todo mundo começa a tratá-la como "vadia" (lembrei do filme "Depois de Lúcia" em alguns momentos) e os caras começam a se aproximar apenas porque, supostamente, vão conseguir sexo fácil. Se já me senti mal só de ouvir comentários sobre uma garota da faculdade que, supostamente, "dormia com qualquer um, acabava se apaixonando pelos caras, mas eles só queriam sexo mesmo", imagina vivenciar isso. Senti pena da garota; ela não devia ter muita autoestima e devia estar buscando algum tipo de afeto desesperadamente, enquanto os caras, entre eles, a rotulavam como "vadia" e creio que nunca namorariam alguém como ela, porque ela já estava muito "rodada". É de um machismo nauseante. 

Jay Asher, o autor, conseguiu captar bem a instabilidade, a insegurança, a crueldade e a falta de noção dos adolescentes, embora a ideia de Hannah usar fitas cassete seja meio inverossímil (a história é contemporânea, o livro foi lançado em 2009 no Brasil e em 2007 nos Estados Unidos, quando quase ninguém devia usar esse tipo de suporte de áudio), mas depois entendi o propósito do autor. No fim do livro há uma entrevista com ele, em que ele explica de onde vieram algumas ideias e motivações para o livro e que usou o recurso das fitas cassete (a ideia inicial veio depois de uma visita guiada com uma fita cassete a um museu) para que a história pudesse ser narrada de forma "dupla" - Hannah narrando na fita cassete e, ao mesmo tempo, Clay reagindo em pensamentos ao que ela falava ou lembrando dos fatos do jeito dele, além de narrar o que acontecia ao redor dele, o que ia acontecendo externamente enquanto ele ouvia as fitas. E o tema central surgiu depois que uma parente próxima do autor tentou se suicidar. Acho legal ler sobre o processo criativo dos outros e como a mistura de vivências pode resultar em algo completamente diferente depois.

Li que os direitos desse livro foram comprados para virar filme. Vou querer ver.

Obs.: por algum tempo, durante a leitura, cheguei a pensar que Hannah Baker não havia morrido, que ela queria só dar uma lição nas pessoas e mostrar que elas poderiam deixar de ser tão mesquinhas, falsas, egoístas e cruéis - ou simplesmente idiotas -, porque tudo que elas faziam tinha consequências. Mas isso não aconteceu.


terça-feira, 18 de agosto de 2015

Divertida Mente, controlados por emoções


Podem me achar de criança ou do que for, mas gosto de desenhos e animações. Não de todos os desenhos, mas, em geral, eu gosto. Então hoje vou escrever sobre uma animação da Pixar que vi há algumas semanas no cinema e adorei: "Divertida Mente" (Inside Out).

Eu estava esperando ansiosamente pela estreia dessa animação, pois tinha visto o trailer há muito tempo e o enredo me pareceu genial.

Riley é uma garota de 11 anos que se muda com os pais de Minnesota para São Francisco e suas emoções começam a ficar desequilibradas, pois sente falta dos amigos e das coisas que fazia na cidade onde morava.


As emoções da Riley encarnam os seguintes personagens: Alegria, Raiva, Nojinho, Medo e Tristeza. Eles ficam em um tipo de "cabine de controle" dentro da Riley, sendo que a Alegria sempre tenta controlar o estado emocional dela, mas depois percebe que isso não é possível o tempo todo.


Quando Riley começa a falar sobre sua vida em Minnesota para os colegas em sala de aula, percebe o quanto sente falta de lá e começa a chorar. É um dos indícios de que ela não está bem, e talvez a Tristeza estivesse tentando alertar, alterando o humor da garota, para que os pais a ajudassem.


As emoções também são responsáveis por armazenar as lembranças da Riley (bolinhas coloridas), e as mais importantes vão para um local especial, que acabam criando as "torres" que vão moldando a personalidade dela.


[Encontrei a ilustração do mapa da mente da Riley na internet e achei bem interessante:]


Quando a Tristeza toca nas bolinhas especiais, com as memórias de longo prazo, elas ficam azuis e as lembranças se tornam tristes. A Alegria tenta afastar a Tristeza, mas as duas acabam sendo sugadas para um tubo que as leva a um local de armazenamento de memórias e também a outras áreas dentro da mente de Riley, incluindo a Terra da Imaginação e um estúdio onde são "filmados" os sonhos que ela tem à noite.


O objetivo da Alegria é recuperar as memórias especiais de Riley e voltar à cabine de comando, onde ficaram Raiva, Nojinho e Medo (que tentam equilibrar o estado emocional de Riley, sem muito sucesso).






Nessa viagem às várias áreas da mente de Riley, Alegria e Tristeza encontram um amigo imaginário que Riley tinha quando era criança, o Bing Bong. Ele as ajuda a voltar à cabine de comando, mas acontece algo e ele não consegue ir junto (ele queria ir para a cabine de comando, pois queria que a Riley voltasse a se lembrar dele).


No filme também podemos ver as emoções que controlam outros personagens, como a mãe e o pai da Riley, por exemplo. Tem uma parte engraçada, entre várias outras, em que as emoções da mãe conversam sobre um namorado brasileiro que ela deixou para ficar com o pai da Riley, era um cara bonitão que falava algo do tipo: "Come on, gatinha!" (o "gatinha" era em português), enquanto a mãe tentava alertar o marido que a Riley não estava bem e ele só estava pensando em jogos de futebol.


No fim, as emoções se equilibram e Riley fica bem. Depois de um ano ela já está adaptada à vida na nova cidade e tem novos amigos. Que bom! :)

Encontrei esse quadro que mostra os dubladores em português (nem sabia, porque vi o filme em inglês):



É uma animação inteligente e deve ter aproveitado vários conceitos da psicologia. Gostei muito! :)

O trailer é esse:



sábado, 15 de agosto de 2015

Duendes da morte



Título: Os famosos e os duendes da morte
Autor: Ismael Canappele
Editora: Iluminuras
Nº de páginas: 96
Ano de publicação: 2010

***

Eu já tinha visto o filme "Os famosos e os duendes da morte" há vários anos e só fui ler o livro que deu origem a ele este ano. Depois de terminar de ler o livro, revi o filme de novo e consegui perceber mais detalhes. Para mim o livro e o filme se complementam. O próximo passo é ler o roteiro (foto abaixo).


A história gira em torno de um adolescente conhecido por "Mr. Tambourine Man" no mundo virtual. Ele mora em uma cidadezinha de colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul e parece sempre deslocado. Me identifiquei com algumas passagens, pois também cresci em uma cidade do interior (onde muitas vezes NADA acontecia e às vezes havia uma certa vontade de fugir de lá assim que possível).

"Do alto dava para ouvir o rio correndo sozinho na parte mais escura. Os cachorros dormiram outra vez. Olhando para as ruas sabia que meus passos estavam condenados a percorrer sempre as mesmas distâncias. Meus olhos estariam presos nos mesmos destinos enquanto continuassem naquela cidade. Nada aconteceria. Nada acontecerá. As plantações em volta definiam os meus limites. Ninguém gritava. Em algum quarto fechado um menino chorava baixinho sem saber por quê." (p. 20)


Na cidadezinha há uma ponte da qual as pessoas se jogam de tempos em tempos - e morrem. No filme, todo o cenário e as cores são melancólicos. O protagonista perdeu o pai, que provavelmente pulou da ponte, e mora com a mãe, que está tentando lidar com a ausência do marido. Em meio à melancolia da mãe e à estranheza em relação à sua própria vida, a vida no colégio, posta em um blog, ouve músicas do Bob Dylan (que inspirou seu nick), conversa com amigos on-line, tenta lidar com a própria solidão, sai de madrugada para fumar baseado com Diego, seu melhor amigo.

 Foto daqui

A leitura não foi exatamente agradável; não gostei tanto do estilo de escrita do Ismael Canappele (que também é ator e faz um papel no filme), pois muitas vezes ele não termina as frases, o texto é quebrado, o que dá uma impressão de preguiça - na verdade, imagino que a intenção não era essa, era mais de deixar tudo em aberto/ em suspenso/ em segredo, como era a vida do protagonista: "Toda a sorte do. Ou a falta dela. Toda. Talvez ele não desejasse com tanta. Como tudo."; "Antes que Julian voltasse à superfície sem entender por que não. Sem nunca mais conseguir lembrar o caminho de volta. Sem saber por onde. Sem ter para. A calçada desviava os meus pés, todos os dias depois da escola, daquele trajeto perigoso que me levaria até." Apesar de não ter gostado tanto do livro como um todo, há vários trechos com alta carga poética que são bem bonitos.

Foto daqui

Uma curiosidade do livro é que ele dialoga bastante com a internet. Há trechos de conversas on-line e links do YouTube (que não abri por preguiça de digitar, então não sei se ainda estão ativos). No filme isso também é constante: o protagonista postando em seu blog, vendo vídeos postados pela irmã de Diego, conversando com amigos pelo antigo MSN. Mr. Tambourine Man parece encarar a internet como uma válvula de escape. As "pessoas de longe" (amigos virtuais) quase sempre estão lá para compartilhar ideias e vontades com ele, pois "estar perto não é físico".

No livro, o Geheimnis (segredo), palavra em alemão citada com uma certa frequência, é mais evidente que no filme. O protagonista parece ter se envolvido com o irmão de Diego, seu melhor amigo, ou ter sentido algum tipo de atração por ele, mas ele tinha ido embora da cidade. No filme, Diego tem uma irmã de quem o protagonista era muito amigo e que morreu depois de pular da ponte e ela aparece de forma misteriosa ao longo da história.


"Eu sentia uma vontade e o meu corpo coçava inteiro por dentro e eu sabia que faltava muito pouco para alguma coisa há muito tempo esperada acontecer comigo. É sempre no inesperado que a felicidade aparece." (p. 42)

Trailer do filme:



Filme completo:

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Ibasyo, de Kosuke Okahara, e minhas automutilações


Ontem eu, a Mila e a namorada dela íamos de novo ao teatro ver outros dois monólogos do espetáculo Ficções no TUSP (Teatro da USP), só que não tinha mais ingresso. São bem concorridos esses ingressos, é preciso comprar logo que a bilheteria abre (duas horas antes da peça, ou seja, às 18h30).

Fiquei chateada por não poder ver a peça, mas depois acabou dando certo, mesmo dando errado. Eu tinha combinado de encontrar uma amiga fotógrafa, a Ana Paula, para ver o fotolivro Ibasyo (conheça mais sobre o projeto aqui [em inglês]), antes de ver a peça. Como ela trabalha perto da rua Maria Antônia e frequenta um bar/boteco chique chamado Villa Imperial, que fica a alguns metros do TUSP, combinamos de nos encontrarmos rapidamente nesse bar, eu veria as fotos e depois iria ao teatro. Como não teve peça, acabei vendo o livro com tranquilidade e conversando com a Ana até tarde, enquanto comíamos uma porção de batatas fritas cobertas com catupiry e bacon.

O projeto Ibasyo, que em japonês quer dizer "espaço físico e emocional onde se pode existir", foi idealizado pelo fotógrafo Kosuke Okahara, que nasceu em Tóquio e atualmente mora em Paris, e consiste em fotos de garotas/mulheres que se automutilam.

Kosuke fotografou seis garotas (Aina, Hiromi, Kaori, Miri, Sayuri e Yuka - conheça um pouco sobre elas aqui) que, por conta de problemas emocionais relacionados a ou resultantes de violências físicas ou psicológicas, se automutila(va)m para se autopunirem ou se sentirem melhor ou aliviadas. Esse problema, como vários outros, parece ser um tabu no Japão, por isso o fotógrafo queria contar a história dessas garotas, para trazer isso à tona, e, ao mesmo tempo, melhorar a autoestima delas, mostrar a elas que elas têm valor.


Ele fez seis cópias do fotolivro (vendo as fotos do livro, tive a impressão de que o próprio Kosuke fez as cópias, encadernou e tudo) e elas estão percorrendo o mundo. Neste link, na coluna à direita ("Where are the books now?"), dá para ver onde estão as cópias agora. Cada livro foi dedicado a uma das garotas e provavelmente será presenteado a cada uma delas depois (no livro que está com a Ana consta "For Hiromi") e o fotógrafo pede para que as pessoas que viram o livro deixem alguma mensagem sobre o livro ou um recado para a garota cujo nome está na dedicatória nas páginas em branco no final. 


Fiquei interessada em ver esse fotolivro porque me identifiquei um pouco com as garotas retratadas. Quando eu era adolescente também me cortava com Gillette. Mas, ao contrário delas, eu não fazia isso porque sofria violência, nem nada do tipo. Na época (entre os 15 e 17 anos), eu sentia um vazio, uma solidão, e viver era um peso - desde essa época eu procurava não ver noticiários porque todas as notícias ruins, de pessoas sofrendo, se matando ou morrendo de fome me deixavam deprimida e parecia que viver não fazia sentido (não que agora faça totalmente, mas a gente vai inventando os sentidos, né?) e tinha a impressão de que o que eu estava buscando (seja lá o que fosse) era inalcançável, além do fato de eu ter aquela rotina de aluna do segundo grau, ir para as aulas, estudar (mais ou menos) para as provas e para o Vestibular, uma leve pressão em ter de escolher o que fazer depois, descobrir quem eu era e quem eu queria ser; talvez tivesse a ver também com a superproteção dos meus pais, as expectativas que eles tinham em relação a mim e eu me sentir tolhida de alguma forma... acho que era cansativo e sem sentido, por isso doía tanto. Nessa época eu fazia uns cursos também... inglês, aulas de pintura em tela, queria fazer aulas de francês, espanhol e tudo que eu conseguisse, talvez para aplicar meu tempo em algo que depois fosse útil ou talvez para esquecer de mim mesma. Não lembro de ter falado sobre isso com nenhum amigo mais próximo do colégio nem na época e nem depois. Mas eu não me cortava tanto e com tanta frequência quanto as garotas retratadas no livro, disso eu lembro.


O mais irônico é que não lembro de mim como uma garota triste, deprimida e solitária. Eu era "totalmente dentro da normalidade". Tinha amigos, hobbies, era até bem alegre. Quando fiz 18 anos, passei na faculdade, me mudei de cidade, tive mais independência e liberdade (e também responsabilidades), conheci outras pessoas, outras possibilidades, fiz vários amigos que gostavam das mesmas coisas que eu e tudo foi fazendo mais sentido. E parei de me cortar.


Uns dez anos depois, conheci a A., que também fazia isso. Fiquei chocada quando vi as marcas dos cortes com estilete que ela havia feito nos braços e nas pernas. Pedi para ela parar de fazer aquilo, porque gostava muito dela e não queria vê-la daquele jeito, mas ela sorriu, em meio a lágrimas, e disse que aquilo lhe trazia um alívio [e quem era eu para falar qualquer coisa?]. Daí entendi que, quando eu era adolescente, fazia a mesma coisa mais ou menos pelo mesmo motivo que ela. A dor externa dos cortes diluía temporariamente as dores internas, intangíveis.


Dessa época, me resta uma cicatriz da letra "A" (de Aline, de amor, de automutilação, de alívio?) na mão esquerda. Cortes profundos. Feridas totalmente cicatrizadas, espero.




quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Ficções - cia hiato


Ontem (12/08) a Mila me convidou para ver uma peça e me animei a ir.

Fazia muito tempo que eu não ia ao teatro, nem lembro qual foi a última peça que vi. Mas é certo que essa foi a primeira de 2015.

Cheguei à conclusão de que preciso que alguém me chame para ir ao teatro para eu ter vontade de ir, diferente do que acontece com a vontade de ir ao cinema, por exemplo, que nasce de mim mesma e quando quero ir, vou sozinha ou acompanhada, não importa. Talvez por já ter visto peças chatas e que me deram muito sono, espero alguém me recomendar algo bom, aí vou com mais segurança de que não vou me decepcionar e nem achar que foi tempo jogado fora.

Há bastante tempo a Mila e o Tene (que também foi ver a peça) me falavam da cia hiato (tenho uma vaga lembrança de ter visto alguma peça deles há anos e de não ter gostado) e principalmente da atriz Luciana Paes, que eles amam de paixão e consideram a melhor atriz do mundo. Fiquei bem curiosa para ver o que a Luciana tinha de tão extraordinário. E descobri ontem. Ela é MUITO boa atuando e virei fã. Depois a Mila disse que era a quinta vez que ela tinha visto esse mesmo espetáculo com a Luciana Paes. Gente. :) Mas é compreensível. Luciana Paes é apaixonante e me senti "tragada" para dentro do espetáculo. Não sei como ela consegue. Talvez a paixão dela pelo teatro explique.

Luciana Paes (foto daqui)

Pesquisando no YouTube, descobri que a Luciana fez um vídeo bem engraçado tirando sarro da nova onda de cantores de MPB do tipo A melhor banda da cidade, que alguém me mostrou faz tempo; eu nem lembrava que era ela:



Bom, falando um pouco sobre a peça, ela faz parte do espetáculo Ficção, que é composto por monólogos misturando ficção e fatos biográficos dos atores. Além da Luciana Paes, o espetáculo conta com mais cinco atores: Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli e Thiago Amaral.

No espetáculo de ontem, vimos também a Paula Picarelli (que talvez muitos conheçam por causa de uma novela que ela fez na Globo que eu não lembro o nome, em que fazia par romântico com a Alinne Moraes - aliás, ela ironiza um pouco o fato de ter trabalhado na Globo ao dizer que "fracassou" por não ter feito mais novela quando, provavelmente, deve ter percebido que aquilo tudo, incluindo a exposição em excesso, a obrigação de ir a programas de TV falar sobre a personagem dela, sobre a vida pessoal dela etc., era uma merda e que não ia aguentar, que gostava mesmo era de fazer teatro). Lembro da Paula Picarelli mais por causa de um programa de literatura que ela apresentava na TV Cultura.

Paula Picarelli (foto daqui)

O monólogo da Luciana Paes fazia um link com a vida e obra da Frida Kahlo; a personagem (e/ou a própria atriz?) traça paralelos entre a vida dela e a vida da artista mexicana, mesclando isso com falas sobre o fazer teatral. E a sacada é: não dá para distinguir o que é real e o que é ficção. Só vou contar isso, porque se eu falar mais, estrago as surpresas.

O monólogo da Paula Picarelli era sobre a desistência dela do projeto um pouco antes da estreia; aí ela abre um arquivo no notebook e passa a falar sobre o que ela iria fazer no espetáculo, começando por uma carta que os pais dela receberam de uma agência de casting quando ela tinha uns 6 anos, convidando-a para fazer um teste para o xampu Johnson's - sendo que ela não passou no teste porque um dos dentes da frente tinha acabado de cair e a produção achou que não era legal um sorriso banguela no final da propaganda. Depois ela fala sobre a entrevista que ela ia fazer com ela mesma, respondendo perguntas banais e depois outras incômodas. 

Os monólogos são ótimos, há uma boa dose de drama e comédia, tudo na medida exata.

Recomendo muito!

Uma curiosidade: a Vera Holtz estava na plateia. E, no fim do espetáculo nós a vimos cumprimentar as atrizes. Meus pais gostam muito da Vera Holtz como atriz. Aí, por ela ser de Tatuí, no interior de São Paulo, lembrei de uma amiga tradutora, a Tati Teles, e de uma amiga médica com quem não falo há muito tempo, a Lina, que também são de Tatuí. Deu saudade.

Procurei trechos dos monólogos que vi no YouTube, mas não encontrei. Encontrei apenas trechos de outros dois monólogos (eu queria ver esse que aparece no vídeo também, parece ser muito bom):


O quê? Espetáculo teatral Ficção
Onde? TUSP - Rua Maria Antônia, 294 Consolação – São Paulo, SP - Tel. (11) 3123-5233 – Metrô Santa Cecília [dá para descer a Rua Consolação a pé ou de ônibus também, dá uns 20/25 minutos a pé]
Quando? De 29 de julho a 21 de agosto – quarta a sexta, 20h30.
Quartas: Ficção # Luciana Paes e Ficção # Paula Picarelli
QuintasFicção # Maria Amélia Farah e Ficção # Thiago Amaral
Sextas: Ficção # Aline Filócomo e Ficção # Fernanda Stefanski
Obs. 02 monólogos de 60 minutos por dia.

Quanto? R$ 20,00 (meia-entrada: R$ 10,00). 
Ingressos limitados a dois por pessoa.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Inside Llewyn Davis: Balada de um homem comum


Na semana passada, o sr. B., editor com quem trabalho, me emprestou o DVD desse filme - "Inside Llewyn Davis: Balada de um homem comum" (Inside Llewyn Davis, 2013) -, dirigido pelos americanos Joel e Ethan Coen, conhecidos como "irmãos Coen", pois achou que eu ia gostar. Ele disse que tenho um gosto cinematográfico parecido com a esposa dele, que gosta de filmes, em geral europeus, densos e dramáticos. È vero. Mas não gosto só disso, é claro.

Esse filme, primeiro dos irmãos Coen que vejo (apesar de amigos cinéfilos já terem falado deles faz tempo), foi inspirado no livro de memórias do cantor folk Dave Van Ronk (este) e faz um recorte do cenário musical em Greenwich Village, na cidade de Nova York, nos anos 1960. O protagonista também é um cantor de folk chamado Llewyn Davis. Greenwich Village foi o berço da geração beat, - artistas, em geral, poetas e escritores, que levavam uma vida nômade e posteriormente parecem ter dado origem ao movimento hippie.

Abaixo, a inspiração para o título original do filme (esse LP do Llewyn Davis realmente aparece no filme):

Imagem tirada daqui

Llewyn é um cantor em busca de reconhecimento e de uma carreira no meio musical, só que, apesar do aparente talento, ele não decola, os LPs encalham na gravadora, os donos/ administradores das casas de shows não o chamam para cantar. Então ele vive de favores de amigos, que indicam trabalhos esporádicos e emprestam seus sofás para Llewyn passar a noite. 

Diferente de seus pares, Llewyn parece não ter carisma e nem se conectar/ importar com as pessoas, tanto que seus melhores amigos e companheiros, ao longo do filme, são os gatos - a propósito, na capa do LP do Dave Van Ronk podemos ver um gato à porta, o que talvez tenha inspirado os personagens felinos do filme. Ironicamente, quando Jean, namorada de Jim e amigo cantor de Llewyn, lhe conta que está grávida e não sabe se o filho é dele (Llewyn) ou de Jim, Llewyn resolve rapidamente o assunto, falando que vai pagar pelo aborto e um pouco depois comenta que está preocupado com um gato de um amigo que ele deixou fugir. Aí a Jean comenta algo do tipo: "Que bom que você está preocupado só com isso!". A propósito, esse casal de amigos de Llewyn (Jim & Jean) realmente existiu e com esse nome; como no filme, era uma dupla de cantores de música folk.

Llewyn passa os dias buscando trabalho como cantor, andando pelas ruas e passando frio, pois não tem nem um casaco decente, pedindo favores aos amigos, fazendo pequenos "bicos" musicais, sem muitas perspectivas de melhorar de vida. É um filme depressivo e ao mesmo tempo me fez ter ainda mais consciência de que se não temos um plano de vida, objetivos mais ou menos claros do que queremos e de como vamos chegar lá, além de resistirmos a "dançar conforme a música" ou a mudar nossa postura, a probabilidade de nossos sonhos darem certo é mínima.

O protagonista, a meu ver, tem a postura do tipo: "quero viver de música e só quero cantar o que eu quero/ o que eu acho que tem qualidade", quando seus amigos cantores estão buscando alternativas, "popularizando" a música para cativarem mais o público e poderem viver de música. Isso não é se vender. Isso é dançar conforme a música. Depois de ficarem conhecidos, terem reconhecimento e dinheiro, esses cantores poderiam direcionar suas carreiras da forma como quisessem, cantando músicas mais autorais, talvez. É ótimo poder fazer tudo como e quando a gente quer, mas isso, para a maioria das pessoas, nem sempre é possível. Mas Llewyn se acha bom demais para "se vender"; no fundo ele se acha melhor que todos, ainda que não tenha conseguido construir nada de sólido na carreira nem na vida pessoal. 

Até certo ponto, Llewyn passa a ideia de estar conformado com sua própria vida - espero que a vida de Dave Van Ronk, falecido em 2002, não tenha sido tão miserável assim. Mais para o final do filme, a impressão é que ele toma consciência de que precisa mudar (até porque ele não tem dinheiro para nada) e tenta mudar.