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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Amores Inversos



Gosto de filmes baseados em livros, apesar de os filmes, na maioria das vezes, serem mais fracos ou deixarem um pouco a desejar em relação ao livro. Gosto mesmo assim, ainda mais por entender que literatura e cinema são linguagens artísticas diferentes e que não tem como transformar o livro em uma "versão em imagens" totalmente fiel e satisfatória para os leitores.

"Amores Inversos", dirigido pela americana Liza Johnson e protagonizado por Kristen Wiig (que eu não conhecia; ela é ótima!), é um filme baseado no conto "Ódio, amizade, namoro, amor, casamento", da canadense Alice Munro, que ganhou o Nobel de Literatura em 2013, entre vários outros prêmios literários importantes.

No filme, Kristen Wiig é Johanna Parry, uma mulher interiorana que cuida de uma senhora idosa desde os 15 anos. Logo no começo do filme, depois que essa senhora morre, por indicação do pastor da cidade, ela vai trabalhar em outra cidade, na casa do sr. McCauley, que mora com sua neta, Sabitha. Johanna é tímida e veste umas roupas fora de moda (isso é evidenciado explicitamente pelas duas personagens mais mesquinhas da história, que caçoam dela); ela é boa em limpar, organizar e cuidar da casa e também das pessoas. Aparentemente, ela se vê no papel de cuidadora, essa é sua função no mundo e na qual se sente confortável. 

A mãe de Sabitha havia morrido em um acidente alguns anos antes e seu pai, Ken, aparentemente não tem trabalho fixo, bebe, se droga e já havia sido preso (por estar dirigindo embriagado no acidente em que sua esposa/mãe de Sabitha morreu), por isso Sabitha morava com o avô.

Sabitha parece uma boa garota, só um pouco irritante como toda adolescente que não larga o celular (uma hora, à mesa, o avô pergunta: "Por acaso isso [celular] está cirurgicamente implantado na sua mão?", porque ela não parava de mexer no celular, mesmo com a comida servida), mas sucumbe à ideia cruel da melhor amiga, Edith: juntas elas escrevem e-mails para Johanna como se fossem Ken, e Johanna acaba criando expectativas em relação a ele.

Enquanto tudo está no plano virtual, não há efeitos destrutivos, pelo contrário, Johanna passa a se ver de um jeito mais bonito, parece que, quando se olha no espelho, pela primeira vez, começa a se admirar. Até que Edith, se passando por Ken, reforça o nível de crueldade e propõe que Johanna vá visitá-lo em Chicago. Johanna acredita na proposta e vai para Chicago, então essa mudança geográfica desencadeia uma série de outras mudanças improváveis.

É um bom filme, eu gostei muito.

***

Li o conto "Ódio, amizade, namoro, amor, casamento", da Alice Munro, depois de ver o filme e, como sempre, há diferenças na trama.  

O título do conto vem de uma brincadeira inventada por Sabitha:

"A maioria de suas boas ideias vinha de Edith. A única boa ideia que Sabitha teve era escrever num papel o nome de um garoto e o seu próprio, descartar as letras que se repetiam e somar então as restantes. Depois elas contavam o número na ponta dos dedos, dizendo Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, até receber o veredicto sobre o que poderia acontecer entre elas e o garoto."

Inicialmente, o foco do conto é o sr. McCuley, avô de Sabitha, e não exatamente Johanna, mas, depois, por meio de cartas que ela escreve a Ken, ficamos sabendo mais sobre ela e passamos a acompanhar sua trajetória. Ela nasceu em Glasgow, Escócia, mas foi abandonada pela mãe e depois encaminhada, aos cinco anos, para uma instituição. Johanna esperou que a mãe voltasse, mas nunca ela voltou. Com 11 anos, ela foi parar no Canadá, por conta de um projeto (a história do conto se passa no Canadá e a do filme, nos Estados Unidos) para trabalhar em uma horta, idealizado pelo então presidente Richard Nixon, que governou os Estados Unidos entre 1969 e 1974. Teve algumas experiências de trabalho antes de trabalhar para a senhora que viria a falecer doze anos depois, com 96 anos - Johanna morou com ela esse tempo todo e considerava que as duas eram amigas. Também ficamos sabendo um pouco mais sobre Ken - ele não era alcoólatra, nem drogado, nem tão irresponsável quanto no filme.

No conto, as garotas não usam e-mail, mas cartas datilografadas, fingindo ser Ken. O perfil de Edith é melhor delineado, ela é ainda mais esperta, maldosa e invejosa que no conto, pois a situação econômica das duas é mais evidente: o avô de Johanna é rico, podia lhe dar o que ela quisesse, enquanto os pais de Edith tinham uma sapataria, o que parece ter despertado a vontade de Edith em "crescer na vida", se mudar daquela cidadezinha e prosperar em algum outro lugar.

O desfecho se dá dois anos depois, quando o velho sr. McCuley morre e Sabitha retorna à cidade onde morou por um tempo com o avô. Pelo contexto, entendi que, pouco tempo depois de Johanna ter fugido da casa do sr. McCuley para encontrar Ken, Sabitha foi morar e ser educada por uma parente em outra cidade. Ela está mudada, mais sofisticada, assim como Edith também está diferente, mas as duas não chegam a se falar no enterro.

Vou procurar ler mais contos da Alice Munro, porque gostei muito desse.




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