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sábado, 15 de agosto de 2015

Duendes da morte



Título: Os famosos e os duendes da morte
Autor: Ismael Canappele
Editora: Iluminuras
Nº de páginas: 96
Ano de publicação: 2010

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Eu já tinha visto o filme "Os famosos e os duendes da morte" há vários anos e só fui ler o livro que deu origem a ele este ano. Depois de terminar de ler o livro, revi o filme de novo e consegui perceber mais detalhes. Para mim o livro e o filme se complementam. O próximo passo é ler o roteiro (foto abaixo).


A história gira em torno de um adolescente conhecido por "Mr. Tambourine Man" no mundo virtual. Ele mora em uma cidadezinha de colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul e parece sempre deslocado. Me identifiquei com algumas passagens, pois também cresci em uma cidade do interior (onde muitas vezes NADA acontecia e às vezes havia uma certa vontade de fugir de lá assim que possível).

"Do alto dava para ouvir o rio correndo sozinho na parte mais escura. Os cachorros dormiram outra vez. Olhando para as ruas sabia que meus passos estavam condenados a percorrer sempre as mesmas distâncias. Meus olhos estariam presos nos mesmos destinos enquanto continuassem naquela cidade. Nada aconteceria. Nada acontecerá. As plantações em volta definiam os meus limites. Ninguém gritava. Em algum quarto fechado um menino chorava baixinho sem saber por quê." (p. 20)


Na cidadezinha há uma ponte da qual as pessoas se jogam de tempos em tempos - e morrem. No filme, todo o cenário e as cores são melancólicos. O protagonista perdeu o pai, que provavelmente pulou da ponte, e mora com a mãe, que está tentando lidar com a ausência do marido. Em meio à melancolia da mãe e à estranheza em relação à sua própria vida, a vida no colégio, posta em um blog, ouve músicas do Bob Dylan (que inspirou seu nick), conversa com amigos on-line, tenta lidar com a própria solidão, sai de madrugada para fumar baseado com Diego, seu melhor amigo.

 Foto daqui

A leitura não foi exatamente agradável; não gostei tanto do estilo de escrita do Ismael Canappele (que também é ator e faz um papel no filme), pois muitas vezes ele não termina as frases, o texto é quebrado, o que dá uma impressão de preguiça - na verdade, imagino que a intenção não era essa, era mais de deixar tudo em aberto/ em suspenso/ em segredo, como era a vida do protagonista: "Toda a sorte do. Ou a falta dela. Toda. Talvez ele não desejasse com tanta. Como tudo."; "Antes que Julian voltasse à superfície sem entender por que não. Sem nunca mais conseguir lembrar o caminho de volta. Sem saber por onde. Sem ter para. A calçada desviava os meus pés, todos os dias depois da escola, daquele trajeto perigoso que me levaria até." Apesar de não ter gostado tanto do livro como um todo, há vários trechos com alta carga poética que são bem bonitos.

Foto daqui

Uma curiosidade do livro é que ele dialoga bastante com a internet. Há trechos de conversas on-line e links do YouTube (que não abri por preguiça de digitar, então não sei se ainda estão ativos). No filme isso também é constante: o protagonista postando em seu blog, vendo vídeos postados pela irmã de Diego, conversando com amigos pelo antigo MSN. Mr. Tambourine Man parece encarar a internet como uma válvula de escape. As "pessoas de longe" (amigos virtuais) quase sempre estão lá para compartilhar ideias e vontades com ele, pois "estar perto não é físico".

No livro, o Geheimnis (segredo), palavra em alemão citada com uma certa frequência, é mais evidente que no filme. O protagonista parece ter se envolvido com o irmão de Diego, seu melhor amigo, ou ter sentido algum tipo de atração por ele, mas ele tinha ido embora da cidade. No filme, Diego tem uma irmã de quem o protagonista era muito amigo e que morreu depois de pular da ponte e ela aparece de forma misteriosa ao longo da história.


"Eu sentia uma vontade e o meu corpo coçava inteiro por dentro e eu sabia que faltava muito pouco para alguma coisa há muito tempo esperada acontecer comigo. É sempre no inesperado que a felicidade aparece." (p. 42)

Trailer do filme:



Filme completo:

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