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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Ibasyo, de Kosuke Okahara, e minhas automutilações


Ontem eu, a Mila e a namorada dela íamos de novo ao teatro ver outros dois monólogos do espetáculo Ficções no TUSP (Teatro da USP), só que não tinha mais ingresso. São bem concorridos esses ingressos, é preciso comprar logo que a bilheteria abre (duas horas antes da peça, ou seja, às 18h30).

Fiquei chateada por não poder ver a peça, mas depois acabou dando certo, mesmo dando errado. Eu tinha combinado de encontrar uma amiga fotógrafa, a Ana Paula, para ver o fotolivro Ibasyo (conheça mais sobre o projeto aqui [em inglês]), antes de ver a peça. Como ela trabalha perto da rua Maria Antônia e frequenta um bar/boteco chique chamado Villa Imperial, que fica a alguns metros do TUSP, combinamos de nos encontrarmos rapidamente nesse bar, eu veria as fotos e depois iria ao teatro. Como não teve peça, acabei vendo o livro com tranquilidade e conversando com a Ana até tarde, enquanto comíamos uma porção de batatas fritas cobertas com catupiry e bacon.

O projeto Ibasyo, que em japonês quer dizer "espaço físico e emocional onde se pode existir", foi idealizado pelo fotógrafo Kosuke Okahara, que nasceu em Tóquio e atualmente mora em Paris, e consiste em fotos de garotas/mulheres que se automutilam.

Kosuke fotografou seis garotas (Aina, Hiromi, Kaori, Miri, Sayuri e Yuka - conheça um pouco sobre elas aqui) que, por conta de problemas emocionais relacionados a ou resultantes de violências físicas ou psicológicas, se automutila(va)m para se autopunirem ou se sentirem melhor ou aliviadas. Esse problema, como vários outros, parece ser um tabu no Japão, por isso o fotógrafo queria contar a história dessas garotas, para trazer isso à tona, e, ao mesmo tempo, melhorar a autoestima delas, mostrar a elas que elas têm valor.


Ele fez seis cópias do fotolivro (vendo as fotos do livro, tive a impressão de que o próprio Kosuke fez as cópias, encadernou e tudo) e elas estão percorrendo o mundo. Neste link, na coluna à direita ("Where are the books now?"), dá para ver onde estão as cópias agora. Cada livro foi dedicado a uma das garotas e provavelmente será presenteado a cada uma delas depois (no livro que está com a Ana consta "For Hiromi") e o fotógrafo pede para que as pessoas que viram o livro deixem alguma mensagem sobre o livro ou um recado para a garota cujo nome está na dedicatória nas páginas em branco no final. 


Fiquei interessada em ver esse fotolivro porque me identifiquei um pouco com as garotas retratadas. Quando eu era adolescente também me cortava com Gillette. Mas, ao contrário delas, eu não fazia isso porque sofria violência, nem nada do tipo. Na época (entre os 15 e 17 anos), eu sentia um vazio, uma solidão, e viver era um peso - desde essa época eu procurava não ver noticiários porque todas as notícias ruins, de pessoas sofrendo, se matando ou morrendo de fome me deixavam deprimida e parecia que viver não fazia sentido (não que agora faça totalmente, mas a gente vai inventando os sentidos, né?) e tinha a impressão de que o que eu estava buscando (seja lá o que fosse) era inalcançável, além do fato de eu ter aquela rotina de aluna do segundo grau, ir para as aulas, estudar (mais ou menos) para as provas e para o Vestibular, uma leve pressão em ter de escolher o que fazer depois, descobrir quem eu era e quem eu queria ser; talvez tivesse a ver também com a superproteção dos meus pais, as expectativas que eles tinham em relação a mim e eu me sentir tolhida de alguma forma... acho que era cansativo e sem sentido, por isso doía tanto. Nessa época eu fazia uns cursos também... inglês, aulas de pintura em tela, queria fazer aulas de francês, espanhol e tudo que eu conseguisse, talvez para aplicar meu tempo em algo que depois fosse útil ou talvez para esquecer de mim mesma. Não lembro de ter falado sobre isso com nenhum amigo mais próximo do colégio nem na época e nem depois. Mas eu não me cortava tanto e com tanta frequência quanto as garotas retratadas no livro, disso eu lembro.


O mais irônico é que não lembro de mim como uma garota triste, deprimida e solitária. Eu era "totalmente dentro da normalidade". Tinha amigos, hobbies, era até bem alegre. Quando fiz 18 anos, passei na faculdade, me mudei de cidade, tive mais independência e liberdade (e também responsabilidades), conheci outras pessoas, outras possibilidades, fiz vários amigos que gostavam das mesmas coisas que eu e tudo foi fazendo mais sentido. E parei de me cortar.


Uns dez anos depois, conheci a A., que também fazia isso. Fiquei chocada quando vi as marcas dos cortes com estilete que ela havia feito nos braços e nas pernas. Pedi para ela parar de fazer aquilo, porque gostava muito dela e não queria vê-la daquele jeito, mas ela sorriu, em meio a lágrimas, e disse que aquilo lhe trazia um alívio [e quem era eu para falar qualquer coisa?]. Daí entendi que, quando eu era adolescente, fazia a mesma coisa mais ou menos pelo mesmo motivo que ela. A dor externa dos cortes diluía temporariamente as dores internas, intangíveis.


Dessa época, me resta uma cicatriz da letra "A" (de Aline, de amor, de automutilação, de alívio?) na mão esquerda. Cortes profundos. Feridas totalmente cicatrizadas, espero.




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