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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Inside Llewyn Davis: Balada de um homem comum


Na semana passada, o sr. B., editor com quem trabalho, me emprestou o DVD desse filme - "Inside Llewyn Davis: Balada de um homem comum" (Inside Llewyn Davis, 2013) -, dirigido pelos americanos Joel e Ethan Coen, conhecidos como "irmãos Coen", pois achou que eu ia gostar. Ele disse que tenho um gosto cinematográfico parecido com a esposa dele, que gosta de filmes, em geral europeus, densos e dramáticos. È vero. Mas não gosto só disso, é claro.

Esse filme, primeiro dos irmãos Coen que vejo (apesar de amigos cinéfilos já terem falado deles faz tempo), foi inspirado no livro de memórias do cantor folk Dave Van Ronk (este) e faz um recorte do cenário musical em Greenwich Village, na cidade de Nova York, nos anos 1960. O protagonista também é um cantor de folk chamado Llewyn Davis. Greenwich Village foi o berço da geração beat, - artistas, em geral, poetas e escritores, que levavam uma vida nômade e posteriormente parecem ter dado origem ao movimento hippie.

Abaixo, a inspiração para o título original do filme (esse LP do Llewyn Davis realmente aparece no filme):

Imagem tirada daqui

Llewyn é um cantor em busca de reconhecimento e de uma carreira no meio musical, só que, apesar do aparente talento, ele não decola, os LPs encalham na gravadora, os donos/ administradores das casas de shows não o chamam para cantar. Então ele vive de favores de amigos, que indicam trabalhos esporádicos e emprestam seus sofás para Llewyn passar a noite. 

Diferente de seus pares, Llewyn parece não ter carisma e nem se conectar/ importar com as pessoas, tanto que seus melhores amigos e companheiros, ao longo do filme, são os gatos - a propósito, na capa do LP do Dave Van Ronk podemos ver um gato à porta, o que talvez tenha inspirado os personagens felinos do filme. Ironicamente, quando Jean, namorada de Jim e amigo cantor de Llewyn, lhe conta que está grávida e não sabe se o filho é dele (Llewyn) ou de Jim, Llewyn resolve rapidamente o assunto, falando que vai pagar pelo aborto e um pouco depois comenta que está preocupado com um gato de um amigo que ele deixou fugir. Aí a Jean comenta algo do tipo: "Que bom que você está preocupado só com isso!". A propósito, esse casal de amigos de Llewyn (Jim & Jean) realmente existiu e com esse nome; como no filme, era uma dupla de cantores de música folk.

Llewyn passa os dias buscando trabalho como cantor, andando pelas ruas e passando frio, pois não tem nem um casaco decente, pedindo favores aos amigos, fazendo pequenos "bicos" musicais, sem muitas perspectivas de melhorar de vida. É um filme depressivo e ao mesmo tempo me fez ter ainda mais consciência de que se não temos um plano de vida, objetivos mais ou menos claros do que queremos e de como vamos chegar lá, além de resistirmos a "dançar conforme a música" ou a mudar nossa postura, a probabilidade de nossos sonhos darem certo é mínima.

O protagonista, a meu ver, tem a postura do tipo: "quero viver de música e só quero cantar o que eu quero/ o que eu acho que tem qualidade", quando seus amigos cantores estão buscando alternativas, "popularizando" a música para cativarem mais o público e poderem viver de música. Isso não é se vender. Isso é dançar conforme a música. Depois de ficarem conhecidos, terem reconhecimento e dinheiro, esses cantores poderiam direcionar suas carreiras da forma como quisessem, cantando músicas mais autorais, talvez. É ótimo poder fazer tudo como e quando a gente quer, mas isso, para a maioria das pessoas, nem sempre é possível. Mas Llewyn se acha bom demais para "se vender"; no fundo ele se acha melhor que todos, ainda que não tenha conseguido construir nada de sólido na carreira nem na vida pessoal. 

Até certo ponto, Llewyn passa a ideia de estar conformado com sua própria vida - espero que a vida de Dave Van Ronk, falecido em 2002, não tenha sido tão miserável assim. Mais para o final do filme, a impressão é que ele toma consciência de que precisa mudar (até porque ele não tem dinheiro para nada) e tenta mudar.



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