Pages

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Os 13 Porquês - Jay Asher


Não lembro como cheguei a este livro juvenil, mas como me interessei pela sinopse (o tema central é "suicídio") e ando lendo sobre isso para tentar compor um personagem, decidi ler.

E preciso confessar: baixei uma versão pirata e foi o primeiro livro pirata que li na vida - me senti uma fora da lei. Minto, já tinha lido livros ou trechos de livros xerocados na época da faculdade também. Mas isso é diferente; foi a primeira vez que baixei um livro inteiro na internet (aqui), porque achei que o custo x benefício não valeria a pena. Mas o livro vale o que custa, sim (em média, R$ 35). De qualquer forma, o arquivo estava cheio de erros de digitação e ortografia, um horror - é isso que pessoas que baixam coisas pirata merecem mesmo: material esculhambado de baixa qualidade para deixarem de ser muquiranas e "espertinhas".

Sobre o livro, a narrativa flui bem e é instigante até o fim. Desde o começo já sabemos que Hannah Baker, uma estudante americana do Ensino Médio, de 16 ou 17 anos, se suicidou. E vamos descobrindo o contexto da atitude dela pelas fitas cassete que ela gravou e que Clay Jensen, um colega do colégio, que era meio apaixonado por ela, recebeu dentro de uma caixa na porta de casa alguns dias depois do suicídio.

Clay descobre que as sete fitas cassete (seis gravadas dos dois lados e a última, apenas do lado A, somando 13 narrativas, os 13 porquês do título) já haviam passado por algumas pessoas e que ele precisará enviar para alguém depois de ouvir todas. Hannah avisa que só quem está nas fitas vai recebê-las (ao todo, 13 pessoas) e poderá saber o que aconteceu de verdade, como cada um contribuiu para que ela tirasse a própria vida.

Clay fica desnorteado, pois não lembra de ter feito nada de prejudicial à Hannah, diferente de outras pessoas do colégio, que espalhavam boatos de que Hannah era isso ou aquilo, que havia feito aquilo outro. Na verdade, ele gostava muito dela e se preocupava com ela, mas talvez tenha perdido a chance de dizer isso a ela.

O livro dá uma ideia do que significa ser adolescente hoje em dia e da dimensão que o bullying pode tomar. Não que eu não soubesse disso (lembram das adolescentes que se mataram quando vídeos íntimos delas foram divulgados na internet um ou dois anos atrás?). Para mim tudo isso é muito fora da realidade, porque nunca me interessei muito em ficar com os garotos do colégio, só ouvia as fofocas de outras pessoas e achava tudo meio sem sentido. Meus amores na época eram platônicos e para mim estava ok; e só agora me dou conta de que esse comportamento pode ter me salvado de situações cruéis, constrangedoras ou dolorosas. Deve ser ainda mais difícil ser adolescente hoje em dia; "tudo pode ser fotografado e filmado e usado contra você", literalmente. Além das redes sociais serem palco para um desfile de vaidade, exibicionismo e crueldade. Não que o mundo adulto não seja assim também, mas depois de um tempo vamos ficando mais fortes, ou pelo menos deveríamos, e certas coisas não nos atingem de forma tão avassaladora. Não consigo imaginar a dor e o desnorteamento de uma garota de 15 ou 16 anos que transa com um colega de sala e, no dia seguinte, ele espalha para todo mundo o que aconteceu - e pior se ele tiver imagens disso e espalhar por WhatsApp e Facebook. Aí todo mundo começa a tratá-la como "vadia" (lembrei do filme "Depois de Lúcia" em alguns momentos) e os caras começam a se aproximar apenas porque, supostamente, vão conseguir sexo fácil. Se já me senti mal só de ouvir comentários sobre uma garota da faculdade que, supostamente, "dormia com qualquer um, acabava se apaixonando pelos caras, mas eles só queriam sexo mesmo", imagina vivenciar isso. Senti pena da garota; ela não devia ter muita autoestima e devia estar buscando algum tipo de afeto desesperadamente, enquanto os caras, entre eles, a rotulavam como "vadia" e creio que nunca namorariam alguém como ela, porque ela já estava muito "rodada". É de um machismo nauseante. 

Jay Asher, o autor, conseguiu captar bem a instabilidade, a insegurança, a crueldade e a falta de noção dos adolescentes, embora a ideia de Hannah usar fitas cassete seja meio inverossímil (a história é contemporânea, o livro foi lançado em 2009 no Brasil e em 2007 nos Estados Unidos, quando quase ninguém devia usar esse tipo de suporte de áudio), mas depois entendi o propósito do autor. No fim do livro há uma entrevista com ele, em que ele explica de onde vieram algumas ideias e motivações para o livro e que usou o recurso das fitas cassete (a ideia inicial veio depois de uma visita guiada com uma fita cassete a um museu) para que a história pudesse ser narrada de forma "dupla" - Hannah narrando na fita cassete e, ao mesmo tempo, Clay reagindo em pensamentos ao que ela falava ou lembrando dos fatos do jeito dele, além de narrar o que acontecia ao redor dele, o que ia acontecendo externamente enquanto ele ouvia as fitas. E o tema central surgiu depois que uma parente próxima do autor tentou se suicidar. Acho legal ler sobre o processo criativo dos outros e como a mistura de vivências pode resultar em algo completamente diferente depois.

Li que os direitos desse livro foram comprados para virar filme. Vou querer ver.

Obs.: por algum tempo, durante a leitura, cheguei a pensar que Hannah Baker não havia morrido, que ela queria só dar uma lição nas pessoas e mostrar que elas poderiam deixar de ser tão mesquinhas, falsas, egoístas e cruéis - ou simplesmente idiotas -, porque tudo que elas faziam tinha consequências. Mas isso não aconteceu.


Nenhum comentário: