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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Por que você lê?



Semana passada tentei explicar por que gosto de escrever (aqui), depois fiquei pensando por que gosto de ler.

Antes de falar disso, quero apresentar um livro infantil que li há algum tempo: Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo [The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore], de William Joyce.


Esse livro inspirou uma animação que ganhou o Oscar de melhor curta-metragem de animação em 2012 (na verdade, conheci primeiro a animação, que é linda):


Segundo o site oficial do livro/da animação, a história foi baseada no furacão Katrina, em Buster Keaton, em O Mágico de Oz e no amor por livros. Não vou contar a história para não estragar o encanto; vejam a animação e/ou leiam o livro, vale a pena. As imagens que ilustram esse post são todas desse livro/ dessa animação.


Bom, continuando, assim como eu não soube explicar muito bem por que gosto de escrever, também não sei explicar por que gosto de ler e por que leio tanto. Imagino que deve ser gosto pessoal, não tem muito o que explicar. Assim como gosto de cinema. Aliás, talvez eu seja tão apaixonada por literatura e cinema por gostar muito de histórias (em geral, as pessoas gostam de histórias, né? - não importa se são fofocas de familiares e vizinhos, novelas na TV, furos jornalísticos, cinema, teatro...); gosto do poder que elas têm de me fazer refletir sobre muitas coisas e também porque me permitem mergulhar em outros universos. Também sinto que os livros, indiretamente, nos dizem sempre que somos donos do nosso destino, que temos escolhas, não precisamos ficar presos à mesma rotina, somos livres para escolher o que fazer da nossa vida.


Quando eu era criança, já lia bastante. Minha mãe tinha que me chamar várias vezes para o almoço ou jantar, ou por qualquer outro motivo, porque, muitas vezes, eu estava na cama lendo e pensava: "Só mais esse parágrafo e eu vou". Também lembro de ficar acordada até tarde lendo. Muitos anos depois, meu pai disse que talvez deveria ter me levado ao psicólogo porque eu ficava acordada até tarde, talvez fosse hiperativa e tivesse insônia, mas acho que ler (entre outras atividades) me dava tanto prazer que eu não tinha sono, não era nenhum problema sério. Bom, depois foi um pouco problemático porque, durante o colégio, eu precisava acordar muito cedo (as aulas começavam às 7h da manhã), tinha que estudar para as provas, e o fato de ficar até tarde lendo, escrevendo, navegando na internet ou vendo filmes/TV me atrapalhava - eu morria de sono nas aulas, principalmente nas que não me interessavam, e tirava notas baixas em várias matérias de exatas (ficava lendo em vez de estudar física, tsc,tsc).


E o primeiro livro que me causou um impacto muito grande foi lido justamente na época do colégio: A paixão segundo G.H., da Clarice Lispector. Eu tinha 15 ou 16 anos e provavelmente conheci a obra dessa autora nas aulas de literatura (A hora da estrela estava na lista de livros da Fuvest no fim dos anos 90 e também na nossa grade curricular). Lembro que, ao fechar o livro, me senti "estranha", como se eu já não fosse mais a mesma, como se algo extraordinário tivesse acabado de acontecer comigo e eu nem sabia explicar o que era. [Talvez seja esse êxtase que as pessoas vivenciam em determinadas religiões/igrejas, por isso passam a viver em função delas? Aliás, às vezes me sinto uma fanática falando de livros ou filmes e, quando percebo, tento me controlar, porque isso pode ser meio assustador para quem me ouve/lê; desculpem, mas é que paixões são difíceis de controlar...] Por uma razão ou outra, não voltei a ler esse livro (ainda). Para falar a verdade, tenho receio de reler e não gostar ou de o livro não me causar mais impacto nenhum. Apesar disso, mais dia, menos dia, quero reler. Clarice Lispector continua sendo uma das minhas escritoras favoritas.


Outros livros que me causaram impacto parecido com o que senti com o livro da Clarice Lispector foram: Bestiário (Julio Cortázar), Farenheit 451 (Ray Bradburry), Minha querida Sputnik (Haruki Murakami), A casa das belas adormecidas (Yasunari Kawabata), Voragem (Junichiro Tanizaki), (HQ Persépolis (Marjane Satrapi), HQ Daytripper (Fábio Moon e Gabriel Bá), Sessão de Terapia (Jaqueline Vargas), Venha ver o pôr do sol e outros contos (Lygia Fagundes Telles), O som da montanha (Yasunari Kawabata), entre outros que agora não lembro.

Não sei se isso acontece com outros leitores também, mas talvez essa "busca pelo êxtase" seja uma das motivações que me fazem continuar lendo mais e mais. Existem livros que mudam a nossa vida, mas não são muitos, então, o jeito é continuar lendo para tentar encontrá-los. Os livros também são uma busca para descobrir o que já está dentro de nós e, ao mesmo tempo, podem abrir nossos olhos para pessoas e realidades que nos cercam.


Antes eu me restringia à chamada "alta literatura", mas atualmente me interesso também por outros tipos de livros. 

Se eu fosse listar o que gosto de ler e normalmente leio, seria mais ou menos assim:

- Literatura estrangeira em geral (gosto de descobrir livros e autores de lugares distantes, para descobrir novas realidades e culturas, embora nem sempre eu goste)

- Literatura japonesa/ oriental em específico

- Literatura brasileira, principalmente contemporânea

- Literaturas infantil e juvenil estrangeiras e nacionais

- HQs e mangás autorais estrangeiros e nacionais

- Livros de "fantasia" (do tipo que o Neil Gaiman escreve; adoro Neil Gaiman!)

- (Auto)biografias

- Livros técnicos e acadêmicos sobre leitura, edição e publicação de livros

- Livros sobre cultura japonesa e sobre imigração japonesa (ou de outros povos) para o Brasil

- Livros de suspense ou histórias de crimes (fictícias ou baseadas em fatos)

- Livros relacionados à escrita, à psicologia, à culinária, ao cinema, à fotografia, a culturas diferentes da minha

Tenho meus próprios motivos para ler cada uma dessas categorias, mas leio basicamente porque gosto, porque sinto que me acrescenta. E uma falha (?) minha é o fato de eu quase não ler poesia - em geral, não gosto, não tenho paciência, já que a maior parte dos poemas fala de amor (ô, clichê!) e, bom, para mim é tedioso demais. Gosto do pouco que conheço de Paulo Leminski, Ferreira Gullar e Mario Quintana. Alguma coisa de Pablo Neruda (sem ser os poemas de amor). Também não costumo ler livros de autoajuda, porque (já tentei ler) parece que os autores partem do princípio de que sou burra e que preciso de várias instruções para fazer as coisas de um jeito melhor, para viver de um jeito melhor e ser feliz de um jeito melhor (como se realmente houvesse fórmulas prontas para tudo isso). Já li alguns best-sellers (incluindo Marley e eu) e me diverti com eles (e, ao ler esses livros, fico pensando se algum dia, quando eu for editora, conseguirei descobrir e lançar algo assim, que venda 100 mil exemplares em algumas semanas). E queria ter lido Harry Potter quando tinha uns 10 anos, eu certamente ia amar; ter lido o primeiro livro da série com 20 anos não funcionou e por isso não quis ler o restante (embora amigos adultos digam que depois a saga melhora, porque o Harry Potter também vai ficando mais adulto e elementos mais complexos vão sendo adicionados à trama - mas... não, obrigada). Aliás, nossos gostos enquanto leitores devem ir se moldando com o tempo e parece que a exigência vai ficando maior, então alguns livros já não satisfazem, parecem bobos demais, rasos demais.


Por enquanto não me vejo parando de ler livros de ficção nem nenhum desses tipos de livros que listei acima, como acontece com alguns leitores. Não sei dizer se vai chegar uma hora em que os livros não terão mais nenhum valor para mim e se num futuro distante vou preferir gastar meu tempo com qualquer outra atividade diferente de ler (cozinhar, cuidar de horta, pomar, tentar tocar um galinheiro para ter sempre ovos frescos, quem sabe?). Mas acho realmente difícil parar de ler; paixões não morrem.


E vocês? Por que leem? O que gostam de ler? Quais livros "mudaram a sua vida"?
Minha lista de "livros que quero ler" no Skoob está com mais de 700 títulos, mas sempre estou aberta a indicações! ;)


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