Pages

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Que horas ela volta?


Ontem (quarta-feira) fui ver "Que horas ela volta?", filme estrelado pela Regina Casé, com a Yuri.

Eu tinha visto o trailer no cinema, acho que no mês passado, e fiquei curiosa.

O filme é dirigido por Anna Muylaert (que também dirigiu "Durval Discos") e tem como protagonista Val (Regina Casé), uma babá e empregada doméstica pernambucana que trabalha em uma casa no Morumbi, bairro de classe média-alta em São Paulo, e mora em um quartinho dos fundos na casa dos patrões.

Val saiu de Pernambuco e veio para São Paulo para tentar melhorar de vida e ter dinheiro para mandar para a filha, Jéssica (Camila Márdila), que ficou sendo cuidada por alguém em Pernambuco. Ao mesmo tempo, ela criou Fabinho, filho dos patrões, por treze anos. Fabinho, por sua vez, parece ser bastante apegado à Val, pois seus pais sempre estiveram ausentes.

Tudo corria bem até que Jéssica liga para Val dizendo que vai para São Paulo prestar vestibular e pede ajuda para a mãe. Como Val mora com os patrões, ela fala com eles, que permitem que Jéssica fique o tempo que for preciso na casa deles.

Então Jéssica chega e tumultua a ordem doméstica, pois não se comporta como supostamente deveria. Ela "não se põe no lugar dela", pois não se vê e não se deixa ser tratada como "a filha da empregada". Há uma cena em que Val perde a hora e Bárbara, a patroa, prepara o próprio café da manhã (que deveria ter sido preparado por Val) e também acaba servindo Jéssica, que acorda e entra na cozinha um pouco depois. A partir disso, a relação entre Bárbara e Jéssica fica cada vez pior, com o agravante de que Carlos, marido de Bárbara e pai de Fabinho, gosta de Jéssica - e esse sentimento é meio ambíguo.

Regina Casé tem cenas cômicas ao longo do filme, mas é diferente do tipo de humor escrachado das comédias nacionais. Algumas cenas são bem comoventes, como quando Val dá um jogo de xícaras e garrafa térmica comprados nas Casas Bahia como presente de aniversário para Bárbara e, quando Val tenta usar essas xícaras na festa de aniversário da patroa, ela diz para ela não fazer aquilo, para usar umas xícaras que ela trouxe da Suécia. Também são comoventes as cenas em que Fabinho busca o amor materno em Val, pois Bárbara parece nunca ter se preocupado com ele de verdade. E o pai também não.

Lembrei de uma história que uma amiga que trabalha como professora em um colégio tradicional e caríssimo de São Paulo: uma babá cuidava do filho de um casal bem rico e a primeira vez que o bebê falou, ele chamou a babá de "mãe"; a mãe ficou estarrecida. Não entendo muito bem por que algumas pessoas têm filhos. Ter filhos para depois terceirizar a educação das crianças não faz sentido.

O clima na casa dos patrões de Val é bem estranho e fora da realidade da maioria das pessoas: no início do filme Bárbara parece ser uma mulher bastante ocupada com trabalho, mas depois dá a entender que é apenas uma socialite bastante ligada ao mundo da moda, o que passa uma impressão de futilidade. Carlos é um "artista" que pintava quadros, mas parou de fazer isso há um bom tempo. Quando Jéssica questiona de onde vem o dinheiro para pagar as contas, Carlos responde que o pai dele trabalhou muito e juntou o dinheiro que ele gastava para sustentar aquilo tudo.

Jéssica é uma garota inteligente, segura de si e meio petulante, ela não "abaixa a cabeça" para ninguém. E uma das mensagens do filme que fica para mim é algo do tipo: Está tudo bem desde que o "povo" se coloque no seu lugar, desde que eles continuem servindo. A partir do momento em que essa ordem é questionada ou subvertida, as pessoas no topo da pirâmide começam a ficar incomodadas e temerosas de perder o posto. Enquanto Jéssica questiona o tratamento que a mãe (que ela sempre chama de "Val" - e não de "mãe") recebe na casa, Val tenta se reaproximar da filha.

Regina Casé e Camila Márdila compartilharam o prêmio de melhor atriz por este filme no Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Merecidamente.

Vale a pena!



Um comentário:

Lúcia Harumi disse...

Não curto Regina Casé, mas esse filme parece muito bom.
Relacionamento mãe-filha é sempre interessante.