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domingo, 20 de dezembro de 2015

Amy, o documentário


Como estou de férias, esta semana fui ver vários filmes no Caixa Belas Artes. Um deles foi o documentário "Amy", sobre a cantora Amy Winehouse, que eu queria muito ver. Não fui/ não sou superfã da Amy, mas gosto muito da voz dela e de algumas músicas. Há alguns anos, li a biografia que o pai dela, Mitch Winehouse escreveu (fiz a resenha do livro aqui) e, também por isso, estava curiosa para ver o documentário.

O diretor do documentário, Asif Kapadia, que também dirigiu "Senna" (não vi, mas já li críticas bastante positivas sobre esse documentário sobre o Ayrton Senna), conseguiu pintar um retrato mais amplo da artista e da pessoa que a Amy foi. Ao contrário da imagem que Mitch passa sobre si mesmo na biografia sobre a filha, em vários momentos, o documentário sugere que ele não estava se empenhando tanto na recuperação dela em relação às drogas e ao alcoolismo. O documentário de Kapadia deixou Mitch furioso por causa disso e Mitch pretende lançar outro documentário, com a versão dele, sobre a filha. Para mim, a "verdade" deve estar em algum ponto entre a biografia escrita por Mitch e o documentário de Kapadia.

"Amy" apresenta muitas imagens de gravações caseiras e depoimentos em off das duas melhores amigas de Amy, do ex-marido Blake, da mãe, de produtores, do último guarda-costas e artistas. Imagino que a ideia de Kapadia foi deixar as "imagens falarem por si mesmas", pois não há julgamentos nem interpretações, embora as imagens selecionadas conduzam os espectadores a determinadas conclusões, como, por exemplo, que a família da Amy era problemática (em algum momento, alguém revela que Mitch tinha arranjado outra mulher quando Amy tinha um ano e meio, mas só se separou e saiu de casa quando ela tinha uns 9 anos; parece que Amy contou que tinha bulimia para os pais, mas eles não deram muita atenção - a própria mãe conta que um dia ela chegou, provavelmente quando era adolescente, e falou que estava fazendo uma dieta em que poderia comer tudo que quisesse e depois "tirava tudo"... não sei o que pensar de pais que ouvem uma coisa dessas e acham "normal") e que os pais a deixavam "largada" para fazer o que bem entendesse. Como no livro, a mãe dela parece totalmente ausente. Algumas imagens sugerem que o pai estaria mais interessado em ajudá-la "profissionalmente" (fazer com que cumprisse compromissos de trabalho, shows, gravações) do que como pai. Fiquei pensando que talvez a Amy precisava de alguém que se impusesse e colocasse limites para ela, atitude que, supostamente, os pais devem ter.

As cenas em que Amy, bonita e saudável, aparece cantando, são emocionantes - ela tinha muito talento - e contrastam com as cenas de um dos últimos shows (talvez o último?) que ela fez, em Belgrado, na Sérvia: ela estava totalmente bêbada, talvez um pouco drogada, e alheia ao que estava acontecendo; talvez não tivesse nem noção de onde estava, de que precisava fazer um show para milhares de pessoas. Ela entrou no palco e ficou jogando conversa fora com os músicos da banda em vez de cantar e, uns minutos depois, começou a ser vaiada pela plateia. É triste de ver.

Ao mesmo tempo que o documentário tenta passar uma imagem mais negativa que positiva do pai (ou dos pais) da Amy, fico pensando no quanto eles realmente poderiam ter feito por ela. Ela já era adulta, famosa, tinha dinheiro, não sei que tipo de atitude as pessoas esperavam que os pais tivessem. Interná-la à força? Tomar alguma atitude para manter o marido (Blake) afastado judicialmente da filha, sendo que isso talvez piorasse a situação dela? Ou era isso que, como escrevi um pouco acima, a Amy esperava que os pais fizessem por ela? Inconscientemente ela queria que o pai dissesse: "Chega. Não importa que você seja famosa e tenha dinheiro, sou seu pai e vou assumir o controle da situação, porque você não tem condições de fazer isso no momento. A partir de agora, você vai fazer o que eu mandar, e, no futuro, você vai me agradecer"? Será mesmo possível proteger alguém da autodestruição? Imagino que o pai deve ter tido várias conversas sérias com ela, ela tentava seguir os conselhos dele, porque o amava e respeitava, mas tinha recaídas. Ela não devia estar preparada para tanto sucesso (e provavelmente nem queria isso) e, como se não bastassem os problemas pessoais, a pressão da indústria para que ela fizesse cada vez mais shows, para gerar cada vez mais lucros, talvez a deixassem mais deprimida.

Como no livro, uma coisa fica clara: Blake faz com que ela se afunde cada vez mais rápido. Ele mesmo declara em uma entrevista que Amy consumiu cocaína e heroína pela primeira vez com ele. A impressão que fica é que ele só estava tirando proveito da situação. Ele não a amava, só estava com ela por conveniência, porque ela tinha dinheiro e pagava as drogas para eles consumirem. Em algum momento, Amy diz: "Me apaixonei por alguém por quem daria a minha vida... isso é uma droga, né?". Parece que ela o amava mais do que a si mesma.

Um dos depoimentos mais emocionantes é de Tony Bennett, um dos ídolos de Amy e com quem ela gravou um dueto. Quase no fim do filme, ele diz algo do tipo: "Se eu tivesse tido oportunidade de falar com ela, eu teria dito a ela para se cuidar, porque ela era importante demais para ir embora tão cedo. Para mim, ela está no mesmo nível de Ella Fitzgerald e [citou outras grandes mulheres do jazz de que não lembro agora]".

Gostei muito do documentário, ainda que nem tudo ali seja realmente de verdade (talvez apenas um recorte da "verdade").

A única verdade no momento é que o dueto da Amy e do Tony Bennett é lindo:




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