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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Música para quando as luzes se apagam


Título: Música para quando as luzes se apagam
Autor: Ismael Caneppele
Editora: Jaboticaba
Nº de páginas: 96
Ano: 2007
[Apesar de a capa ser meio tosca, gostei do conteúdo.]

***

Li Música para quando as luzes se apagam, do mesmo autor de Os famosos e os duendes da morte, há uns três meses, em um dia, nas viagens de ida e volta do trabalho (o livro tem só 96 páginas), e reli ontem para poder escrever melhor sobre ele. 

Este livro me levou para longe, para quando eu tinha 14 anos (idade do protagonista), e me senti aliviada por tudo já ter passado e agora as preocupações serem outras.

Por vinte e seis dias (vinte e seis capítulos), quase um mês, acompanhamos o diário - em um trecho, dá a entender que, na verdade, trata-se de um blogue - do protagonista, que conta seu dia a dia na escola e sua relação com amigos e família. Diferentemente dele, eu não saía à noite escondida, não bebia e nem fumava. Mas me identifico com os sentimentos de não me "encaixar no mundo", nos padrões de beleza, de muitas coisas não fazerem sentido (ir para a escola todos os dias aprender coisas meio inúteis, por exemplo) e os momentos de solidão na época.

O livro já começa com esse trecho, que era como eu também me sentia quando eu tinha 14 anos:
Esse foi um dia comum, mas um pouco diferente dos outros. Hoje, nada de bom aconteceu comigo. Nada de mal também. Nada que eu não conseguisse suportar ou que eu não pudesse esperar. Como sempre.
Ao mesmo tempo em que o protagonista conta sobre seu dia a dia mais ou menos comum para um garoto da idade dele, também conta sobre suas primeiras experiências sexuais e com drogas. Ele mora em uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, perto de Porto Alegre, sente desejo por outros garotos, mas precisa esconder isso de todos, incluindo de seu melhor amigo, Digo, com quem tem uma discussão, mas depois os dois voltam a se falar.
Fiquei um pouco decepcionado porque não senti nada de diferente com a maconha. Não enxerguei nada e não senti nada que ainda não tivesse sentido. Beber é melhor. Sempre ouvi dizer que nas primeiras vezes não acontece nada mesmo. Preciso continuar tentando. Acho que toda a primeira vez é decepcionante porque nunca deve ser do jeito que a gente espera que seja. Tive poucas primeiras vezes, por isso não posso afirmar com precisão. Em relação à maconha, sim, eu esperava ver o mundo um pouco diferente depois dela.
Ultimamente, eu tenho sentido que o tempo passa rápido demais e eu não aproveito as coisas que acontecem. Penso que um dia eu vou ficar adulto e vou ter que arranjar uma mulher. Mas é foda porque não pinta muito tesão com mulher. Minha mãe vai ficar louca se descobrir que eu curto caras. Não vou mais poder nem sair na rua. Talvez essa fase passe. Talvez não.
O sentimento descrito no trecho abaixo eu também tinha quando era adolescente e às vezes ainda tenho; achei emocionante como o autor conseguiu colocá-lo em palavras:
Pensei em fazer coisas que nunca fiz. Pensei que eu deveria fazer coisas que eu nunca tinha feito. Não sei por que pensei nisso, deve ser o primeiro pensamento que a gente tem antes de morrer. Ou depois. Às vezes, eu tenho certeza de que estou morto e sou o único que não sabe. Fiquei com muito medo e me dei conta de que minha vida está passando mais rápido do que eu posso entender e eu, ainda assim, não faço nada para aproveitar o pouco tempo que me resta. [...] Estou com saudade de mim. De alguém que um dia eu fui. Estou com medo de fazer as coisas da forma errada, de ver meus pais tristes. Talvez isso tudo seja uma grande bobagem. E amanhã pode ser que tudo mude de novo. É sempre assim.
A narrativa é permeada por referências musicais: The Cure, Radiohead, Nenhum de Nós [na verdade, os personagens caçoam um pouco dessa banda; o protagonista gosta de rock e toca guitarra], Legião Urbana. Música nunca foi meu forte (a maioria das "músicas" me soam como barulhos irritantes, algumas me deixam atordoada e não consigo nem pensar direito), mas lembro que ouvia muito Legião Urbana; sabia a maioria das letras de cor. Tenho (ou tinha) todos os CDs dessa banda. Tem um trecho em que o protagonista escreve:
[...] Eu tento acreditar que algumas coisas podem durar para sempre, mas, então, eu lembro daquela música da Legião Urbana que fala que "o pra sempre, sempre acaba" e sinto raiva. Sempre tem alguma música da Legião para explicar o que eu não sabia para me apavorar quando penso que está tudo bem. Eu tenho medo de "Por enquanto" na versão original.
No intervalo da narrativa, apesar de o protagonista talvez nem perceber, pois os dias parecem quase todos iguais, ele passa por pequenas mudanças importantes e significativas rumo à vida adulta. Crescer às vezes é doloroso, mas sempre inevitável.

Quando vi o filme "Beira-mar", que coincidentemente também foi dirigido por um gaúcho e rodado no sul, na Mostra Internacional de Cinema desse ano, lembrei bastante desse livro. Depois escrevo sobre o filme [do qual várias pessoas falaram mal no Filmow, mas eu gostei].

Para fechar o post, "Por enquanto" na versão da Cássia Eller:



E tem também essa música que eu ouvia direto quando estava no colegial: Via Láctea, da Legião Urbana, é claro. Traduzia muito do que eu sentia na época. 
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou

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