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domingo, 6 de dezembro de 2015

O melhor do eu, leitora - relatos impressionantes



Marie Claire não é o tipo de revista com a qual me identifico e não costumo comprar. É/ parece ser uma revista destinada basicamente a mulheres de classe média, com muitas propagandas de "creminhos e sapatos caros" (ou algo assim, como o protagonista de um dos livros do Ricardo Lísias definiu) e várias dicas "super(f)úteis" (o que vestir em cada estação/ ocasião, como ser sedutora para segurar seu marido, como combinar roupa e sapato, qual o corte de cabelo combina com você... - foda-se, né?). Mas, enfim, nas poucas oportunidades que tive de folhear/ ler a revista, porque alguém me emprestou ou doou, a seção de relatos pessoais de mulheres sempre me chamou a atenção.

Sempre gostei de ler relatos pessoais (e por isso também gosto de biografias e autobiografias), porque sempre tive curiosidade de saber como é ser outra pessoa/ não ser eu. Como é ser homem? Como é ser catadora de lixo? Como é ter um filho com deficiência? Como é ser garota de programa? O que é que se sente sendo o presidente de um país? Como é trabalhar no Médicos Sem Fronteiras? Como é ter ido até a Lua? Quais as dificuldades em se pesquisar golfinhos? Como é ser mãe solteira de dez filhos no sertão do Nordeste? Como é ser assassino de aluguel? Como alguém toma a decisão de ser freira? Como é a vida afetiva de pessoas assexuais? Depois da leitura, quase sempre, consigo ver e compreender um pouco melhor as pessoas, a humanidade, e nossas diferentes formas de pensar, sentir e viver. Conhecer mais sobre as pessoas me faz sentir um pouco menos ignorante e, dependendo de quem conheço e do que leio, passo a nutrir admiração por elas. Algumas - muitas - pessoas são incríveis e inspiradoras.

Passeando por uma livraria que vende livros por R$ 5 ou R$ 10 na rodoviária do Tietê (fui para a casa dos meus pais no fim de semana passado), encontrei este livro com "os melhores" (eu diria "mais impressionantes") depoimentos de mulheres publicados pela revista. Comprei na hora. Além de gostar de ler esses relatos, penso que eles podem me dar ideias para escrever histórias de ficção depois. =) 

O livro, publicado pela editora Globo em 2008, apresenta 28 relatos, divididos em seis categorias: romance, aventura, drama, sexo, tempos modernos e superação.

Em geral, não choro lendo livros, mas chorei lendo alguns relatos. É emocionante confirmar como o encontro entre pessoas tem o potencial de mudar completamente, às vezes, para melhor e para sempre, a vida delas, ou de pelo menos uma delas. Na verdade, é uma crença pessoal minha: algumas pessoas entram para fazer uma diferença enorme na nossa vida, e isso fica conosco, mesmo que a pessoa vá embora. Sou infinitamente grata a todo mundo que, de uma forma ou de outra, mudou a minha vida e tento retribuir, tentando ser uma boa pessoa para os outros também.

Há várias histórias marcantes, mas seguem abaixo aquelas de que mais gostei:

Na parte de "romance", uma senhora contou que foi amante do vizinho por trinta anos. Ela morava com o marido e dois filhos em São Paulo, quando uma família de italianos se mudou para a casa ao lado. A filha pequena logo fez amizade com a filha dos vizinhos e, logo, as famílias também se aproximaram. Houve um encantamento imediato quando ela e o vizinho se viram pela primeira vez, mas, no início, ela não tinha intenção de trair o marido. Talvez porque o casamento dela estivesse "morno", depois de um tempo, eles começaram a ter um caso escondido. Ela conta que o amante foi o homem da vida dela, e a paixão, talvez por ser proibida, permaneceu mesmo depois de ele ter falecido - como ela mesma disse, talvez por ser proibida, não deu tempo de o relacionamento cair na rotina. Achei a cara do Nelson Rodrigues essa história.

Em "aventura", há uma história impressionante de uma atriz e psicóloga chamada Ana Martin, que tinha uma madrinha com o mesmo nome, que morava na Espanha e havia ganho na loteria. Ela também sempre teve a intuição de que ganharia na loteria e realmente ganhou um prêmio na Espanha quando foi, com o marido e o pai, visitar a madrinha. Além dessas duas coincidências, várias outras permearam a vida dela. Essa história eu acho que caberia em uma comédia dramática argentina.

Ainda em "aventura", há uma história de uma mulher, Angela Bekeredjian, que se tornou detetive depois de descobrir que o marido a traía. Acabei de ver (aqui) que ela era bem famosa e que faleceu em 2013 (aliás, eu a vi comentando o caso do marido que traía a esposa com uma boneca inflável no motel em algum programa de TV há vários anos; se não me engano, o cara era evangélico). Gostei especialmente desse relato porque, quando era adolescente, imaginava que essa devia ser uma profissão emocionante, pela falta de rotina e pela aventura - e tinha uma leve vontade de me tornar detetive, para que a vida nunca caísse na rotina; detetives precisam se virar para encontrar uma maneira de investigar os outros sem que eles saibam, o que exige criatividade, e, ao mesmo tempo, é uma oportunidade para se infiltrar em mundos diversos e conhecer pessoas diversas.

Seguem alguns trechos do depoimento da "Angela Detetive":

"Hoje sei que quem trai uma vez raramente para de trair. Ninguém pula a cerca desejando aquele que ficou em casa. Por dois anos me senti destruída como mulher, mas, ao mesmo tempo, minha carreira de detetive deslanchava e, por ironia, meus primeiros casos foram de suspeita de traição."

"Perdi a conta de quantas suspeitas de traição já investiguei, mas sei de cor as que não se comprovaram: apenas cinco."

"Aprendi que o homem, quando trai, fica dócil. Movido pelo peso da culpa e pelo medo de ser descoberto, faz tudo o que a mulher quer - muitas se sentem confortáveis nessa situação e fingem não saber de nada por conveniência. Já as mulheres traidoras têm um comportamento bem diferente. São mais ardilosas, têm um maior controle sobre o homem e costumam ser menos reveladoras." [Fica a dica para vocês que são heterossexuais e casad@s! haha]

Entre os casos mais impressionantes que investigou, Angela contou que um homem tinha como amante a própria sogra e um outro caso em que um homem tinha uma família duplicada: duas mulheres e quatro filhos, sendo que os filhos (dois de cada mulher) tinham os mesmos nomes e idades parecidas.

Em "drama", há a história de uma universitária que cursava psicologia e decidiu ser voluntária em uma associação de atendimento psicológico gratuito (no depoimento não deixam claro, mas, pelos procedimentos e regras, parece se tratar do CVV) e conheceu um doente terminal que passou a telefonar para ela quase todas as semanas. Ele mudou completamente a forma de ela ver a vida e ela se sente muito grata por isso.

Também tem o depoimento da médica que sobreviveu ao tsunami com o marido na Tailândia (essa história foi amplamente divulgada pela mídia na época da tragédia, mas ler o depoimento dela em primeira pessoa foi emocionante). 

Nessa parte também me impressionei com a história da mãe e da filha que se apaixonaram pelo mesmo homem (talvez o diretor da minissérie Verdades Secretas, da Globo, tenha se baseado nessa história para desenvolver uma das linha narrativas), mas a mãe, que fez o depoimento, acabou abrindo mão do namorado, quatorze anos mais novo, em prol da felicidade da filha. [Sei que a ideia é ler sem julgamentos, mas, se eu fosse a filha, jamais deixaria minha própria mãe abrir mão da felicidade dela em prol da minha nesse contexto; seria muita crueldade e eu não conseguiria viver com essa culpa... afinal, quem conheceu e se envolveu primeiro com o cara foi ela; como sou mais racional, provavelmente daria um jeito de me afastar um pouco dela e dessa situação, me mudar de casa, ir atrás de outros projetos da vida que são igualmente importantes, como trabalho e estudos, até o sentimento passar, porque, certamente, passaria.] 

E o que dizer sobre a história de um casal de irmãos que namoraram sem saber que eram irmãos? Eles se conheceram na faculdade, começaram a namorar, e corria tudo bem, até o rapaz  mostrar a foto da mãe falecida para a família da namorada em uma comemoração de Dia das Mães. Depois disso, o pai começou a não querer mais que a filha namorasse; tudo era muito estranho. A mãe e os irmãos da garota passaram a apoiar o namoro escondido dos dois, até que o pai descobriu e precisou contar que há muitos anos teve relações com a mãe desse namorado dela, mas nunca mais soube da mulher [depois a filha descobriu que o pai havia abandonado a mãe do irmão/namorado grávida e ficou revoltada], eles eram, portanto, meio-irmãos. Choque total. Essa história parece extraordinária, mas não é tão incomum. Outro dia li uma história parecida e também esta outra, em que um casal de irmãos gêmeos [britânicos?] separados no nascimento se casaram sem saber quem realmente eram.

Na parte de "sexo", a história mais emocionante foi a de uma prostituta contratada por um executivo casado. Ele foi o primeiro cliente a tratá-la como mulher/pessoa e esse encontro mudou a vida dela para sempre. Diferente dos outros homens, esse cliente estrangeiro a levou para jantar, depois foram para um quarto de motel, onde, pela primeira vez, ela sentiu desejo e prazer.

"Quando se é vítima de abuso sexual, cada relação é um sofrimento físico terrível. Sempre que saía com um homem era como se ele me violentasse. Mas meu cliente inglês foi maravilhoso: me beijando sem pressa, da cabeça aos pés, ele fez com que eu me sentisse, pela primeira vez, o que era ter desejo. Orgasmo deixou de ser palavra de revista para ser realidade. A hora da penetração, sempre um suplício para mim, me trouxe, enfim, prazer. [...] Antes de cair no sono, absolutamente serena, ele me disse: 'Tente sair dessa vida, tente melhorar de outro modo'. E depois perguntou o que eu mais gostaria de ganhar na vida. 'Uma camisola branca', respondi, sem pensar muito."

"Quando acordei já era meio-dia. Alfred tinha ido embora. Discretamente, do mesmo jeito como tinha chegado. Levantei, me olhei no espelho e me senti outra pessoa. Aquela mulher que eu via tinha olhos mais bonitos, cabelos mais brilhantes, pele macia. Era toda mais bonita. Sentia um estremecimento no corpo, um cansaço bom. Era estranho como me sentia feliz."

Tem uma outra história que achei surpreendente e até um pouco chocante (sempre me surpreendo com as pessoas). A de uma mulher casada, fã do filme "A Dama do Lotação", que gosta de transar com estranhos, principalmente motoristas de táxi e de ônibus. Hoje em dia as mulheres estão lutando tanto para serem respeitadas, principalmente pelos homens, e combatendo o machismo, por isso, foi meio chocante ler esse tipo de depoimento. A mulher simplesmente chega nos caras e, de um jeito ou de outro, fala que quer transar naquele momento e aí vão para um canto qualquer, um banheiro, transar.

"Outra vez, peguei um metrô na zona sul, sentido zona norte. Assim que entrei no vagão, vi um lourinho lindo, surfista. Percebi que ele voltava da praia, estava de bermuda e camiseta, ainda meio molhado. Não tinha mais que vinte anos. Quando ele desceu, desci também. Falei claramente: 'Adoraria transar com você, se possível, agora'. Dessa vez aconteceu num banheiro masculino. Estava movimentado, sei lá se alguém me viu entrar. O risco faz parte da brincadeira. Depois saímos, cada um para o seu lado. Nem olhei para trás.
Desde que eu comecei a colocar em prática minhas fantasias, há cinco anos, já transei com muitos desconhecidos. Até perdi as contas. Às vezes nem chego a transar. Já deixei muitos homens loucos com um simples olhar cheio de malícia ou uma cruzada de pernas. [...]"

A mulher está no direito de fazer o que quiser, incluindo transar com estranhos, mas fiquei pensando que isso talvez possa implicar nos homens acharem que todas as mulheres são assim: estão a fim de transar com qualquer um a qualquer hora. Mas, depois, concluí que só homens cretinos pensam dessa forma, homens inteligentes sempre saberão respeitar as mulheres e as pessoas em geral e sabem que existem diferentes tipos de mulheres.

Na seção "tempos modernos", uma mulher conta que ela e o marido sonham em viver um casamento a três, tanto que montaram o apartamento já pensando em acrescentar mais uma mulher ao casamento deles (a cama é gigante e o closet também, para que caiba roupas de duas mulheres). Outra história peculiar é a de uma mulher que descobriu que o marido tinha uma amante virtual e, depois de algumas peripécias, tornou-se amante virtual dele, sendo que ele nem sonha que vive várias fantasias sexuais com a própria esposa por e-mail.

Na seção "superação", a história de que mais gostei foi a de uma publicitária que dividia o apartamento com a amiga. Ela estava infeliz com o trabalho e talvez com outros aspectos da vida, quando uma gatinha apareceu e a fez encarar a vida de outra forma. 


Recomendo muito o livro. Falei aqui dos depoimentos que mais me impressionaram ou me tocaram, mas todos são marcantes. Fiquei me perguntando se existiria um livro nesse estilo com depoimentos de homens. Eu adoraria ler. 

Observação: outros relatos da seção "eu, leitora" podem ser lidos no site da revista. Oba!

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