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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O nome dela é Malala


No fim do ano passado, fui ver o documentário "Malala", dirigido por Davis Guggenheim, no cinema Caixa Belas Artes e gostei muito. Isso me fez antecipar a leitura da autobiografia dela, escrita com a jornalista Christina Lamb. Eu queria saber mais sobre essa corajosa garota paquistanesa que, com apenas 17 anos, dividiu o Prêmio Nobel da Paz com o indiano Kailash Satyarthi em 2014 (leiam mais sobre isso aqui; o vídeo de uns três minutos falando sobre os dois vencedores do Prêmio no começo da matéria resume, de uma forma bem concisa, a vida da Malala).



Como o documentário foi baseado no livro, muitas partes são "iguais". O documentário tem a vantagem de ter mais impacto, creio eu. Nele vemos a própria Malala falando sobre si, sobre seus ideais, sua luta para que as crianças do mundo inteiro possam estudar e, ao mesmo tempo, sobre sua vida comum de adolescente. Mostra também imagens dos talibãs e de quando ela foi baleada. O livro contém mais detalhes e, nele, há muitas informações sobre a cultura pachtum, à qual Malala pertence, e também sobre a história do Paquistão.

No início do documentário, a história de Malalai de Maiwand, "a maior heroína do Afeganistão", uma garota de 17 anos que inspirou o Exército afegão a derrotar o britânico na Segunda Guerra Anglo-Afegã em 1880, é contada em uma bela animação. Ela foi morta pelo Exército britânico, mas virou uma lenda. O pai de Malala chamou-a assim em homenagem à Malalai.

Ao longo do livro e do documentário, ficamos sabendo mais sobre a história de Malala, sua família, sua vida no vale do Swat e sua nova vida no Reino Unido. 

Como sua região foi sido dominada por talibãs, as meninas foram proibidas de ir à escola e várias escolas eram explodidas (é uma situação surreal para mim). Por se expressar em favor da educação de meninas e mulheres no Paquistão, Malala foi baleada por um talibã em um ônibus enquanto voltava da escola, em outubro de 2012, depois foi transferida para um hospital no Reino Unido, onde foi tratada e hoje está bem, apesar de uma parte de seu rosto ter ficado meio imobilizado e da surdez do ouvido esquerdo. Por ameaças de morte feitas pelo Talibã, ela permanece no Reino Unido com a família, onde estuda e continua com seu ativismo através da fundação que leva seu nome: Malala Fund.

Conhecer a história de Malala também é conhecer um pouco da história do Paquistão, o que nos faz entender um pouco melhor os conflitos naquela região e me faz olhar com um pouco mais de atenção as notícias sobre homens-bomba e atentados que ainda hoje acontecem naquele país. Com a história dela, também pude saber um pouco sobre a cultura pachtum, sendo que o que mais me chamou a atenção foi o fato de que, segundo essa cultura, as pessoas são obrigada a dar hospitalidade a amigos e parentes, ou seja, se algum parente ou amigo pede abrigo, um pachtum precisa deixá-lo passar o tempo que for em sua casa, não importando se ele não tem condições financeiras para isso. Outra característica da cultura pachtum é a "vingança", que me lembrou muito o livro e o filme Abril despedaçado (o livro foi escrito pelo albanês Ismail Kadaré e o filme foi dirigido por Walter Salles):

Penso que todo mundo comete um erro ao menos uma vez na vida. O importante é o que você aprende com esse erro. É por isso que tenho problemas com o nosso código pashtunwali. Em nossa cultura, temos de nos vingar do mal que nos fazem, mas então a coisa nunca chega ao fim. Se o homem de uma família é morto ou ferido por outro homem, a vingança terá de recuperar o que chamamos de nang, isto é, a honra. Pode-se recuperá-la matando um membro da família do agressor. Aí então eles têm de se vingar. E assim por diante. Não existe limite de tempo para a vingança. Temos um ditado: "Um pachtum se vinga depois de vinte anos e outro diz que isso aconteceu muito cedo".

Alguns dizem que Malala foi manipulada pelo pai, que começou a se pronunciar contra o que o Talibã estava fazendo no vale do Swat quando Malala ainda era criança e estava jurado de morte pelo grupo; outros dizem que Malala não merece a atenção que estão dando a ela e que ela deveria voltar ao Paquistão (para ser morta pelo Talibã?). Vi algumas dessas críticas no documentário e li essa matéria. A opinião sobre Malala não é unânime no Paquistão. Imagino que algumas se posicionam contra ela por medo e outras, por inveja.

É difícil saber o que é "verdade" e o que é "manipulação da mídia ocidental" ou mesmo manipulação do pai de Malala, mas acredito que se a Malala não quisesse se pronunciar contra as decisões do Talibã, o pai dela não a obrigaria; de certa forma, essa "vontade de lutar contra injustiças" talvez já tenha nascido com ela, faz parte da personalidade dela (assim como há pessoas que são predispostas a não fazer esforço nenhum) e o pai dela apenas a estimulou. Se ela voltasse ao Paquistão, como alguns lunáticos dizem que ela deveria fazer, ela certamente morreria - não entendo muito bem a posição dessas pessoas. Além disso, estranho muito as pessoas que criticam que Malala não fez muita coisa pelo vale do Swat ou pelo Paquistão e, ao mesmo tempo, me pergunto o que essas pessoas estão fazendo pelo Paquistão. Penso que é ótimo ter alguém em evidência que esteja chamando atenção para causas importantes em países para os quais "ninguém se importa", porque são pobres e não podem render lucros com mão de obra barata ou como fornecedor de petróleo e matérias-primas para países ricos.

De minha parte, admiro a Malala e também o pai dela, que a estimulou a pensar por ela mesma, a ser forte, a lutar pelo que ela acredita e a valorizar a educação como instrumento de mudança social (isso vem muito de encontro com o que eu acredito também). Lembrei de algo que li faz tempo, uma matéria, não lembro se baseada em artigos científicos, que afirmava que as meninas que têm apoio do pai amadurecem com menos inseguranças, talvez pela figura paterna passar a imagem de força e coragem (?). De qualquer forma, o pai dela foi crucial para a formação intelectual que ela tem e a mãe por dar a ela uma visão amorosa de mundo, ou seja, ela tem a formação necessária para ser uma boa líder por não pensar apenas com a razão.

Alguns trechos tanto do documentário quanto da biografia descrevem Malala como uma menina que continua simples e às vezes parecer estranhar a vida dupla de adolescente e estudante e, ao mesmo tempo, de uma pessoa "importante". Em uma parte do documentário ela comenta algo do tipo: "Sou só uma adolescente, tenho só 16 anos, o que eu posso fazer?". Essa dicotomia deve ser um pouco angustiante; ela deve sentir o peso da responsabilidade desde muito jovem.

Torço muito para que a Malala consiga voltar ao Paquistão, tornar-se primeira-ministra como ela deseja e promover as mudanças necessárias para que o país se torne um lugar livre de medo do Talibã e das coisas absurdas que acontecem atualmente por lá.

Selecionei outros trechos da biografia que me chamaram a atenção:
Fazlullah era especialmente popular em regiões remotas, onde o povo se lembrava de como os voluntários do TNSM tinham ajudado durante o terremoto, quando não se via o menor sinal do governo. Em algumas mesquitas foram fixados alto-falantes ligados à rádio, para que as transmissões pudessem ser ouvidas por todos, na aldeia e nos campos. A parte mais popular era levada ao ar à noite, quando Fazllulah citava nomes de pessoas e suas decisões. "O sr. Fulano fumava haxixe mas parou porque é pecado", "O sr. Cicrano deixou a barba crescer e eu lhe dou os parabéns", "O sr. Beltrano fechou sua loja de CDs voluntariamente", dizia, acrescentando que todos seriam recompensados na outra vida. Os habitantes gostavam de ouvir seu nome citado no rádio. Também gostavam de saber quais vizinhos ainda pecavam, para espalhar boatos.
Esse trecho me lembrou o documentário sobre Jim Jones, líder da seita Templo do Povo, fundada nos Estados Unidos, conhecido por ter induzido/ obrigado mais de 900 fiéis a cometerem suicídio. Ele também instalou alto-falantes em Jonestown, vila que fundou na Guiana, para que seus fiéis ficassem ouvindo sua voz o tempo todo, na tentativa de que eles não ouvissem mais suas próprias vozes e/ou de fazer uma lavagem cerebral. Lembrou também o fato de que o fato de o governo brasileiro deixar algumas pessoas sem ajuda pode, eventualmente, fazer com que algum líder incite pessoas a "lutarem por seus próprios direitos", usando violência e atentados.

Primeiro os talibãs nos tiraram a música, depois nossos Budas e então nossa história. Um de nossos divertimentos favoritos era participar de excursões escolares. [...] Quando Fazllulah chegou, não houve mais excursões. As garotas não podiam sair de casa.

Era como se toda a nação estivesse enlouquecendo. [...] o Talibã entrara bem no centro da capital de nosso país, Islamabad. Nos jornais, imagens do que as pessoas chamavam de "Brigada Burca" - jovens mulheres e meninas usando burcas, empunhando porretes, atacando lojas de CDs e DVDs nos mercados do centro de Islamabad.

Alguém me deu um exemplar de O alquimista, de Paulo Coelho, uma fábula sobre um jovem pastor que viaja às pirâmides do Egito, em busca de um tesouro - que o tempo todo estivera em sua casa. Adorei o livro e o li várias vezes. "Quando você quer uma coisa, todo o Universo conspira para a realização de seu desejo", escreve o autor. Penso que ele não conhece nem o Talibã, nem nossos ineficazes políticos.
Uma surpresa: o livro preferido de Malala é  O alquimista, ela declara isso também no documentário, quando está mostrando sua estante cheia de livros. O pior é que o Paulo Coelho meio que plagia um texto do Goethe, que um amigo me mandou faz tempo e do qual eu gosto muito:

Antes do compromisso há hesitação, a oportunidade de recuar, a ineficácia permanente. Em todo ato de iniciativa (e de criação), há uma verdade elementar cujo desconhecimento destrói muitas ideias e planos esplêndidos: no momento em que nos comprometemos de fato, a Providência também age.
Ocorre toda espécie de coisas para nos ajudar, coisas que de outro modo nunca ocorreriam. Toda uma cadeia de eventos emana da decisão, fazendo vir em nosso favor todo tipo de encontros, de incidentes e de apoio material imprevistos que ninguém poderia sonhar que surgiria em seu caminho.
Começa tudo o que possas fazer, ou que sonhas poder fazer.
A ousadia traz em si o gênio, o poder e a magia.
 Goethe

Também ouvimos falar que o Talibã atacou o dono de um estabelecimento comercial porque uma mulher desacompanhada observara os batons da loja, que era de produtos de beleza. "Há um cartaz no mercado dizendo que as mulheres não podem ir à sua loja sem estar acompanhadas por um parente homem, e você nos desafiou", eles acusaram. O homem apanhou muito e ninguém o ajudou.

No Paquistão, quando as mulheres dizem que querem independência, as pessoas acham que isso significa que não desejam obedecer a seus pais, irmãos ou maridos. Mas não é isso. Significa que queremos tomar decisões por conta própria. Queremos ser livres para ir à escola ou para ir trabalhar. Não há nenhum trecho no Corão que obrigue a mulher a depender do homem. Nenhuma mensagem dos céus estabeleceu que toda mulher deve ouvir um homem.

Trailer do documentário:

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