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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Por que não quero ter filhos

Em janeiro ou fevereiro, um amigo de Curitiba me mandou uma mensagem pelo Facebook perguntando se eu conhecia pessoas de/em Curitiba que não querem ter filhos e que eventualmente pudessem dar um depoimento, porque ele está fazendo um documentário sobre isso. Conheço algumas pessoas em Curitiba, mas elas já têm filhos ou querem tê-los.

Comentei que depois queria ver o documentário, porque me interesso pelo assunto, talvez porque eu mesma não queira mais ter filhos. Ele perguntou se eu não queria dar um depoimento, mas recusei e expliquei que não gosto/ não levo jeito para estar diante de uma câmera.

Depois dessa conversa, por coincidência, vi duas ou três reportagens na TV com casais falando por que decidiram não ter filhos. Parece que é uma tendência mundial, pois as pessoas estão conseguindo estudar mais e acabam estabelecendo outras prioridades na vida (como continuar estudando, se dedicar mais à carreira, ter uma vida mais tranquila em vários aspectos, ter dinheiro para concretizar os próprios sonhos, entre outros).

Quando eu estava na faculdade, decidi que adotaria uma criança quando me estabilizasse financeiramente. Eu pensava (e ainda penso) que uma criança pode trazer coisas legais, como uma visão mais criativa e menos "formatada" do mundo e uma forma mais leve de se viver a vida. E eu queria adotar porque para mim não fazia (e ainda não faz) muito sentido colocar mais uma criança no mundo para concorrer com outras crianças que já nasceram sem nada. Eu queria cuidar de alguém que já existisse e com quem já tivesse alguma afinidade - imagino que o processo de adoção permita conhecer melhor a criança, há um tempo de convivência para que o afeto se desenvolva e tal. Mas aí o tempo foi passando e fui mudando de ideia. Talvez o ápice tenha sido a leitura de Precisamos falar sobre o Kevin, da Lionel Shriver, que inspirou o filme homônimo (ótimo também); depois disso, decidi que não queria mais ter filhos e pronto. Não que a leitura tenha me influenciado totalmente, mas muitas passagens e reflexões da protagonista (mãe de um adolescente que havia assassinado vários estudantes na escola onde estudavam) vieram ao encontro de observações que eu já vinha fazendo há anos sobre pais e filhos.

Apesar de achar que não tenho obrigação nenhuma de dar satisfações sobre as minhas escolhas, talvez as pessoas que querem tanto ter filhos fiquem curiosos para saber o que as pessoas que não querem ter filhos pensam, então fica aqui o meu depoimento. [Talvez também seja uma tentativa de diminuir o preconceito contra quem decidiu não ter filhos.]

Muitas coisas me passam pela cabeça em relação a esse assunto, tentarei organizar em tópicos:

1. Filhos dão um sentido para a vida. Talvez sim, talvez não. Penso que isso não deve ser esperado de um filho, é muita responsabilidade.

2. Ter um filho para salvar um casamento? Hum. Não é muito racional, né? Próximo tópico.

3. Independentemente de ter afinidade ou paciência com os filhos, eles serão para sempre filhos. Para sempre. É assustador.

4. Observo com uma certa frequência pessoas de classe média entre 25-30 anos, às vezes mais, morando com os pais. Elas não estudam, não trabalham e não fazem nada de muito útil com a própria vida - essa situação parece surreal, mas consigo pensar em pelo menos meia dúzia de pessoas nessa situação no momento. Não consigo me imaginar pagando as contas de alguém com 30 anos (ou mais) que não se interessa por estudar nem trabalhar. Como sempre corri atrás das coisas, seria muito frustrante ter um(a) filho(a) assim.

5. Quando as pessoas pensam em ter filhos, devem imaginar que eles certamente nascerão lindos, inteligentes, com boa índole, saudáveis. Se eu pensasse em gerar um filho, cogitaria o oposto: e se tivesse um filho com deformidades? Com déficit de inteligência e que nunca poderia se cuidar sozinho? E se eu morresse antes dele, quem cuidaria dele? E se eu gerasse um psicopata? E se nascesse com microcefalia, Síndrome de Down ou outras doenças incuráveis mais graves? Para mim seria muito árduo dar à luz uma criança com retardo mental ou com doenças graves de quem eu teria que cuidar para sempre. Esse posicionamento talvez seja de um profundo egoísmo, mas é uma escolha minha não me responsabilizar por alguém "para sempre". Algumas pessoas dizem que "deus nunca dá uma cruz mais pesada do que a gente aguenta carregar", mas eu prefiro não carregar cruz pesada nenhuma. De cruzes, já me bastam algumas situações cotidianas.

6. Ter filhos significaria ter menos tempo para fazer o que gosto e ter menos liberdade de ir e vir, além de precisar deixar de trabalhar por um período. Não consigo ver muitas vantagens nisso. O amor que a criança me faria sentir e o amor que ela teria por mim compensaria tudo? Será?

7. Filhos exigem dinheiro para custear comida, roupas, saúde, educação, imprevistos. Tive um professor do curso de MBA da FGV que chegou à conclusão de que pais de classe média gastam em torno de R$ 1 milhão com cada filho até os 22 anos. Esse era o gasto estimado dele com o próprio filho. Para alguns, isso é moleza, afinal, ter um filho é algo que não tem preço. Já eu... bom, sinto um cansaço só de pensar nisso. Agradeço meus pais por tudo que eles já pagaram para mim e espero conseguir retribuir pelo menos uma parte disso no futuro.

8. Sinceramente, não confio muito na minha capacidade de educar uma criança. Principalmente se ela for chata. Por observação, concluí que as pessoas nascem com uma índole própria, algo que não muda, não importa a educação que recebam. Quando penso que poderia ter um(a) filho(a) infernal e mau caráter, não por falta de dedicação e atenção minha, mas porque ele(a) simplesmente é assim, sinto vontade de cortar os pulsos. E, pior, conviver com a ideia de que escolhi isso...

9. Ter filhos, cuidar deles e educá-los dá muito trabalho e não tenho certeza se isso me traria mais alegrias ou mais cansaço. Um conhecido, pai de dois filhos, avô de alguns netos, comentou uma vez: "Ter filhos é ter algumas alegrias e muitos problemas". Acredito.

10. Algumas pessoas pensam que ter filhos garante que esses filhos vão cuidar delas quando elas ficarem velhas. Não consigo ver muita lógica nesse pensamento, até porque, se o filho nascer com algum tipo deficiência permanente, os pais é que terão de cuidar dele para o resto da vida.

Depois dessas reflexões, concluí que o sensato é mesmo eu não ter filhos. É uma escolha.

Penso que isso (casar, ter planejamento familiar, ter filhos) deveria ser debatido nas escolas, assim como outros assuntos "da vida real", como planejamento financeiro e igualdade de gêneros, para que as pessoas tivessem tempo de refletir o que é melhor para elas e que ficasse claro que as escolhas são sempre delas; ter filhos é o tipo de escolha em que não é possível voltar atrás. Depois de ter tido os filhos, caso haja arrependimento, não há muito o que fazer. Li essa matéria há algum tempo e me deu angústia ver depoimentos de pais e mães que tiveram filhos e depois se arrependeram. Para haver menos probabilidade de erro nas escolhas, o melhor é refletir sempre.

Nesse contexto, também lembrei do filme As horas, que vi pela primeira vez com 20 e poucos anos. No filme, a mãe de um dos personagens o abandona - um certo dia, acho que nos anos 1960, ela sai de casa, deixa-o com uma vizinha ou conhecida, vai para um hotel sozinha e começa a ler Mrs. Dalloway; nesse dia, achei que ela ia se matar, embora eu não entendesse bem as razões. Ela não se mata, mas foge; abandona o marido, o filho, a suposta vida perfeita, numa bela casa num subúrbio americano, e vai viver em outro país (se não me engano, Canadá), como se abandonasse uma casca morta que já não servia para ela. É incrível que, com o tempo, os filmes e os livros vão fazendo mais sentido. As horas é um filme que sempre revejo de tempos em tempos. Hoje interpreto a fuga dessa mãe como uma questão de sobrevivência; talvez ela nem quisesse ter casado e muito menos ter tido um filho, mas, quando "acordou", se viu naquela situação, naquela rotina sufocante, de aparências e repetições da vida doméstica (não era feliz, mas precisava fingir que era, afinal, tinha "tudo": um marido bondoso, um filho esperto e sensível, uma bela casa, era uma mulher bonita e saudável). Se ela não fugisse, ia acabar morrendo de uma forma ou de outra. Isso marcou o filho com uma tristeza incurável, talvez o sentimento de que ele não valia a pena. Por esses e outros motivos, é preciso muita reflexão e responsabilidade antes de tomar decisões/ fazer escolhas - principalmente se elas envolvem outras pessoas. 

6 comentários:

Karen disse...

Concordo com seus pontos, são coisas nas quais também pensei várias vezes.

Não ter filhos sempre foi algo muito concreto para mim, uma das poucas certezas da minha vida incerta. E isso desde criança. Engraçado, não é mesmo? Estou casada há 16 anos, poderia ter um filho(a) adolescente, mas sequer consigo me imaginar com um filho dessa idade, é tão surreal!

aline naomi disse...

Engraçado mesmo, Karen! Decidir que não queria ter filhos desde criança!
Acho que no fundo eu queria ter uma convivência com crianças (deve ser enriquecedor), mas não queria a responsabilidade... :)
Lembro que quando era adolescente (uns 15 anos), falei pra minha mãe (na época, com uns 38 anos) ter outro filho, porque eu achava que seria legal ter um irmãozinho pra ajudar a cuidar sem a responsabilidade de ser mãe. Daí ela riu e respondeu algo do tipo: "Sai fora. Agora que você e o Alan já estão criados, você acha que vou querer mais uma criança?".
Mas isso de filhos para mim também já está decidido, não quero mesmo. No futuro gostaria de fazer algum trabalho voluntário com crianças, fazer leituras de livros com elas ou algo do tipo, acho que seria legal.
Tenho preguiça só de pensar como seria a relação com um(a) filho(a) adolescente... tem uns que são bem tranquilos, mas outros... nossa. Imagina o desgaste de ter que explicar por que não quero que ele(a) fique na balada até 5h da manhã, mesmo que os pais dos amigos deixem os filhos fazerem isso?! Não, não. Deixa pra lá... hahaha

Karen disse...

Durante um período de minha infância, tinha uns 7/8 anos, minha mãe sofreu um acidente e passei algum tempo na casa de conhecidos e vizinhos enquanto ela se recuperava e meu pai trabalhava. Como eu era sempre a criança mais velha nos lugares onde ficava, tinha que cuidar de meus irmãos, de cinco e dois anos, e dos filhos dessas pessoas. Acho que isso me "vacinou" em relação ao desejo de ter filhos.

aline naomi disse...

Hahahaha. Entendi, Karen! Agora ficou mais clara a sua decisão pra mim.

Anônimo disse...

Vazectomia deve ser mais facilitada para homens

aline naomi disse...

Anônimo, concordo totalmente.