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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Sonhos bloqueados, de Laura Honda-Hasegawa


Título: Sonhos bloqueados
Autor: Laura Honda-Hasegawa
Editora: Estação Liberdade
Nº de páginas: 200
Ano: 1991
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Ando garimpando obras literárias de autores nipo-brasileiros para saber o que escreveram ou escrevem e qual a influência da cultura japonesa na literatura que produzem. Creio que isso começou depois que li Nihonjin, do Oscar Nakasato, e de me dar conta de que não há muita literatura produzida por descendentes de japoneses no Brasil. Uma curiosidade: pesquisando, descobri que a tese do Oscar Nakasato foi sobre esse assunto e gerou um livro, Imagens da integração e dualidade, que pretendo ler em algum momento.

Ao longo da busca por esse tipo de literatura específica, encontrei Sonhos bloqueados, publicado no começo dos anos 1990 pela Estação Liberdade - e coincidentemente editado pelo Jiro Takahashi, um excelente editor e professor com quem estou tendo aula no MBA, que, parece, foi um dos fundadores da Estação Liberdade, editora onde eu gostaria de trabalhar um dia. O título me soou superesquisito (se eu estivesse envolvida com a publicação, sugeriria Sonhos interrompidos), mas fiquei curiosa em ler.

Sonhos bloqueados é narrado por Kimiko, uma senhora nissei (filha de japoneses) na faixa dos 45 anos, que conta passagens de sua infância, juventude e tempo presente. Como a autora é sansei (neta de japoneses), seu relato muitas vezes me pareceu autobiográfico - acho que esse é um dos problemas (?) quando autor e personagem parecem ter  origens e história de vida similares. Pode ser um "problema", mas também pode ser um truque para enganar os leitores; quando me deparo com esse tipo de livro, sempre penso no Ricardo Lísias e sua autoficção - alguns dos personagens dele se chamam Ricardo Lísias e parecem ter um estilo de vida, em partes, igual ao dele, além de algumas passagens terem partido de acontecimentos da vida real dele, é intrigante.

O livro não é escrito em "linguagem literária", parece mais um relato ou um livro de memórias, com várias digressões. Nele, Kimiko conta seu dia a dia em São Paulo, sobre o casamento arranjado no interior do estado, de onde veio, sobre sua família, sobre quando foi morar com a irmã mais nova para que essa irmã pudesse terminar os estudos, a autoridade do pai, a dificuldade de se relacionar com a filha e sobre o relacionamento mais traquilo com os outros dois filhos - tudo isso mesclando elementos das culturas japonesa e brasileira.

Sonhos bloqueados, para mim, é um registro social e histórico da segunda metade do século XX sob a ótica de uma descendente de japoneses e sua realidade no estado de São Paulo. Muito do que a protagonista conta me é familiar e tenho certeza de que se a minha mãe ou a minha tia lessem esse livro, iriam se identificar muito. Algumas passagens familiares: alguns nisseis que só tinham nome em japonês, como é o caso da protagonista, às vezes ganhavam "apelidos", nomes brasileiros (Maria, Rosa, etc. - algumas tias minhas têm esses apelidos), mas os netos já ganhavam nomes brasileiros e o segundo nome japonês (que é o meu caso também); em um certo momento, há uma festa realizada em um kaikan (salão de festas dentro de uma associação nipo-brasileira ou de uma igreja frequentada/ administrada por japoneses/ descendentes) e a protagonista fala de grandes mesas feitas com cavaletes e tábuas, forradas com papel pardo e, sobre essas mesas, muita comida japonesa e brasileira [o casamento dos meus pais foi assim (vi em fotos) e algumas comemorações familiares também, isso fez parte da minha infância]; a falta de comunicação/ conexão da protagonista com os filhos, que, talvez por pertencerem a uma geração diferente, já estão mais integrados à cultura brasileira e têm outra forma de pensar e de se comportar.

Para quem se interessa pela imigração japonesa no Brasil ou pela vida desses imigrantes no Brasil, vale muito a pena.

Também li um outro livro escrito por um descendente de japoneses, voltado para jovens, mas achei decepcionante. Vou postar sobre isso assim que puder. Além diso, um post sobre as obras do André Kondo também está a caminho.

A Laura Honda-Hasegawa também escreveu outro livro, Kiken, em 2004. Aparentemente, é uma autopublicação e não encontrei nenhuma informação sobre ele, mesmo assim comprei um exemplar na Estante Virtual e estou esperando chegar. Depois comento. Ela também escreve uma coluna no site "Descubra Nikkei" chamada "Ohayo Bom dia".


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