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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Dolls, de Takeshi Kitano



Ontem de manhã assisti pela enésima vez um dos meus filmes preferidos: Dolls, do Takeshi Kitano.

Vi esse filme pela primeira vez em 2003, no cine do shopping Frei Caneca, em São Paulo, quando tinha 22 anos e, desde então, ele continua sendo um dos meus preferidos - se não, O preferido. Na época, escrevi um texto sobre o filme (abaixo) de tão impressionada que fiquei. Um dia eu gostaria de escrever algo que provocasse nos outros a mesma sensação que tenho sempre que vejo esse filme. Um misto de prazer, angústia e inquietação.

Também me pergunto por que alguns filmes ou histórias se tornam nossos "preferidos" e como eles se relacionam com o que fomos, somos, sonhamos e desejamos. 

Além de Dolls, também amo Encontros e Desencontros (Lost in Translation), da Sofia Coppola, e Abril Despedaçado, do Walter Salles. Eu poderia fazer uma lista de no mínimo cem filmes que adorei, por diversos motivos, mas esses três são os superpreferidos.*

Me identifico com a solidão e com a sensação de "falta de sentido" dos personagens desses filmes. No fim, acho que nada faz sentido mesmo, e só nos resta tentar acertar nas escolhas. E, se não acertarmos, minimizar o tempo do erro.

Os personagens de Dolls fizeram escolhas irreversíveis e depois precisaram lidar com as consequências, buscando algum tipo de "salvação". Se pudessem voltar no tempo, talvez as escolhas tivessem sido outras, assim como os desfechos de suas existências.

Vale muito a pena ver. É um dos meus filmes da vida!

* Update 21/06: lembrei que também adoro Asas do Desejo (Wings of Desire), do Wim Wenders.

***
[CONTÉM SPOILERS!]

Amor [do lat. amore.] S.m. 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa; devoção extrema (Aurélio). Essa talvez seja a definição mais próxima de “Dolls”, filme japonês dirigido por Takeshi Kitano.



“Dolls” baseia-se no bunrako, teatro de bonecos japonês, criado no século XVII, para contar três histórias vividas no Japão contemporâneo. Na primeira história, vemos “os mendigos amarrados”, dois jovens unidos por uma corda vermelha que vagam sem destino. 




Em flashback, vemos que Matsumoto, pressionado pelos pais, aceita se casar com a filha do chefe, tendo que desfazer seu noivado com Sawako, que tenta suicídio e perde a noção de si e do mundo que a cerca. Matsumoto abandona a noiva e os convidados na igreja, no dia do casamento, e vai ao encontro de Sawako, no hospital. 




A segunda história é sobre Hiro, um chefão da Yakuza que se lembra da namorada, abandonada por ele há décadas no banco de uma praça; ele dissera que tornaria a vê-la assim que ficasse famoso e ela prometera esperá-lo todos os sábados, para almoçarem juntos, naquele banco. 




Após tanto tempo, Hiro vai ao encontro de sua antiga namorada e surpreende-se ao encontrá-la lá, a sua espera. 




A terceira história é sobre o amor de um fã, Nukui, por Haruna, uma famosa estrela pop (a “Sandy japonesa”); Haruna sofre um acidente de carro e fica com a face desfigurada e, temendo que os fãs a vejam naquele estado, isola-se do mundo. Nukui, para poder se aproximar de Haruna, mutila-se, perdendo a visão.




“Os mendigos amarrados” vagam pelas quatro estações, a começar pela primavera (marcada pelas cerejeiras em flor), entrelaçadas com as outras duas histórias. Matsumoto e Sawako parecem inseridos em quadros de paisagens harmoniosas, mesmo que o interior das personagens seja caótico, criando um contraste inquietante.





O rosa e o vermelho são constantes no filme. Mistura do vermelho (amor) com o branco (pureza), o rosa sugere o amor em estado bruto, em seu estado mais puro, e o vermelho, o ápice do amor, o sangue, a tragédia, a dor.




Há poucas falas, “eu te amo” não é dito, como num haikai de Leopoldo Scherner: 

“Depois de um silêncio.
Outro silêncio maior.
Amor é silêncio.” 

Aliás, “Dolls” pode ser lido como poemas, tamanha a intraduzibilidade da delicadeza e da profundidade das cenas.




Quando as personagens parecem ter encontrado uma certa paz (Nukui encontra-se com seu ídolo, Hiro senta-se no banco da praça para falar com sua antiga namorada e Sawako parece lembrar-se de sua história com Matsumoto), a tragédia. Nukui está morto, provavelmente atropelado, na beira da estrada que o levou à Haruna; Hiro é assassinado logo após o encontro na praça e Sawako e Matsumoto, agora encarnados como bonecos do bunraku, despencam por um barranco coberto de neve e morrem. 


O suicídio do amor? O amor é mortal? O amor é uma tragédia mascarada? 



O amor não se explica. É silêncio.


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