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sábado, 16 de julho de 2016

5 x André Kondo

Já faz um bom tempo que quero escrever sobre o André Kondo. Tanto porque acompanho o trabalho dele quanto porque ele não é uma pessoa "comum", muito menos um descendente de japoneses "comum", e eu gosto de pessoas incomuns e/ou que fazem escolhas inesperadas. Em e-mails que troquei com ele, há alguns meses, porque queria comprar exemplares do livro mais recente dele (Contos do Sol Renascente) para mim e para minha tia, até cheguei a comentar que ele daria um bom personagem.

Bom, o fato é que admiro muito o André e ele me serve de inspiração para ir atrás das coisas que eu quero (embora eu ainda não saiba exatamente o que quero).

Até agora, ele lançou nove livros:

Cem pequenas poesias do dia a dia (publicação independente, 2016 - poesia)
Contos do sol renascente (publicação independente, 2015 - contos)
O pequeno samurai (FTD, 2014 - infantil)
Alguém viu minha mãe? (Cepe, 2013 - infantil)
Palavras de areia (publicação independente, 2013 - crônicas)
Jabuti sabe voar? (publicação independente, 2012 - infantil)
Contos do sol nascente (JBC, 2011 - contos)
Amor sem fronteiras (publicação independente, 2009 - relatos de viagem)
Além do horizonte (publicação independente, 2008 - relatos de viagem)

Esses livros (exceto Palavras de areia Amor sem fronteiras), além de antologias de concursos literários incluindo trabalhos do autor, podem ser comprados no site da Livraria Kondo. Ele havia comentado que tinha planos de construir um site para vender os livros dele, meses atrás, e fiquei feliz quando vi que esse projeto foi concluído. Assim fica mais prático e fácil tanto para ele quanto para os leitores. E, só para deixar claro, não estou sendo paga e nem ganhei nada para escrever esse post. Acontece que eu gosto de falar sobre pessoas que admiro ou que acho interessantes, talvez outras pessoas possam se inspirar nelas também.


Das nove publicações, li cinco. Só não li o de poesia e os infantis - mas depois quero ler O pequeno samurai, que deve ser uma releitura do Issumboshi.

As crônicas em Palavras de areia são leves e engraçadas, como a do condutor de tuk tuk, na Índia, que queria vender um tapete para o André a qualquer custo e por isso o levava a lojas, mesmo contra a vontade dele, ou quando a mãe dele precisou se comunicar em inglês com a ex-namorada estrangeira dele que veio ao Brasil; ele também conta que encontrou uma rua chamada "Bunda" na Austrália (em uma língua aborígine, "Bunda" quer dizer "homem importante"; lembrei que, em tcheco, "bunda" significa "casaco") e que pediu uma "bala" para a vendedora em um lugar em Manaus e a vendedora lhe entregou um bombom ("bala" em Manaus = bombom).

Em Além do horizonte o autor narra sua peregrinação por vários lugares do Brasil (Amazônia, Pantanal, Parintins, Barretos, Chapada dos Guimarães...). Esse livro é bem pessoal; ele conta que o pai não aceitava a ideia de ele querer ser escritor e também sobre a morte do melhor amigo, além relatar suas andanças e contar sobre as pessoas que foi conhecendo pelo caminho. O que mais me impressionou nesse livro foi quando ele contou que chegou a dormir em abrigos porque não tinha mais dinheiro para ficar em nenhum outro lugar.
Segui o pedido de socorro, buscando abrigo no Serviço de Obras Sociais (SOS) de Pindamonhangaba. As grades de ferro se abriram e fui tragado por uma escada até as profundezas do desespero. Dezenas de homens malcheirosos se acotovelavam em torno de uma sopa salgada demais, talvez por ter sido temperada pelas lágrimas de todos aqueles infelizes à sua volta. Para acompanhar a sopa de lágrimas, havia o pão que o diabo amassou. E enquanto mergulhava o pão duro na sopa, eu buscava histórias que ninguém quer ouvir.
Talvez por ter vivido todas as experiências relatadas nesse livro, ele tenha um certo desapego de dinheiro e coisas materiais. É como se ele tivesse alcançado uma sabedoria mais profunda do que aquela em que a gente vive - ou pelo menos em que eu vivo, que inclui preocupações constantes com dinheiro para pagar as contas, comprar o necessário, desfrutar momentos de lazer e cobrir imprevistos.

Em Amor sem fronteiras, André reúne relatos de viagens que fez pelo mundo inteiro: Índia, Nepal, Mongólia, China, Laos, Rússia, Finlândia, Suécia, Alemanha, Polônia, entre vários outros. Nesse livro, a ideia era retratar flagrantes de cenas em que o amor (às vezes misturado a outros sentimentos, ternura, afeto, gratidão) estivesse presente. Gostei e me emocionei com as histórias, embora algumas fossem meio "forçadas" (para se encaixar no pano de fundo "amor").

Gosto muito de Contos do Sol Nascente e Contos do Sol Renascente - a maioria dos contos que compõe esses livros foi premiada em concursos literários. Não sei se é bem isso, mas as histórias parecem releituras de contos e lendas japonesas, incluindo elementos culturais de determinadas regiões do Japão e características do povo japonês. É bem interessante. O conto "O tambor", por exemplo, começa assim:
Na região de Aomori, uma multidão se reunia para celebrar o festival de Nebuta. Gigantescas alegorias desfilavam em meio ao povo que aplaudia. O som das flautas acariciava o poderoso som dos taikos, que batiam no ritmo do coração do Japão. No centro dessa grande festa estava Hayashi, o maior tocador de taiko de todo o país.
Vou continuar acompanhando os trabalhos do André porque outras obras devem estar a caminho.

2 comentários:

André disse...

Naomi, que feliz surpresa me deparar com essa agradável postagem sobre os meus livros. Muito obrigado! Por que você não me contou que tinha escrito sobre os meus livros em seu blog? Acabei descobrindo ao acaso, buscando informações minhas no Google.
De fato, não teria dinheiro suficiente para pagar por resenhas tão generosas!
Sobre o livro "O pequeno samurai", ele é uma história original, de um garoto que vem do Japão ao Brasil e vai encontrando vários personagens pitorescos durante a viagem. Tem sido adotado em várias escolas, por passar valores sem didatismo, como dito por uma professora. Foi uma obra inspirada bastante em minha avó. De fato, foi o primeiro livro que escrevi para crianças, para ser inscrito no Prêmio João-de-Barro (recebendo dupla menção honrosa, do júri infantil e técnico). Também acabou sendo finalista do Prêmio Jabuti em 2015. Enfim, esse pequeno samurai tem me dado muitas alegrias.
Sobre "Amor sem fronteiras", concordo totalmente com você. Pretendo relançar o livro, que está esgotado, suprimindo as histórias "forçadas". Todas foram escritas a partir de fatos reais, por isso, creio eu, acabei forçando a mão para que se encaixassem no tema do livro.
Sobre "Contos do Sol Nascente" e "Renascente", fico muito lisonjeado por você pensar que os contos são releituras de lendas japonesas. Certa vez, uma pessoa disse que sempre teve curiosidade em saber a origem das bonecas Kokeshi e que ficou muito feliz ao descobrir a lenda que buscava há tanto tempo em meu livro. Fiquei sem jeito, porque o conto não narra lenda alguma. Apenas surgiu como história fictícia na minha cabeça, sem muita relação com histórias tradicionais sobre a boneca. Talvez tal confusão se dê exatamente por eu ambientar os contos em festas e locais verdadeiros do Japão, com pitadas reais da cultura japonesa, como o Karatê, Taikô, Sumiê, Shodô, etc.
Enfim, estou muito feliz com a suas impressões sobre as minhas obras!
Muito obrigado!

aline naomi disse...

Oi, André!
Que ótima surpresa ver comentário seu por aqui.
Ainda não li "O pequeno samurai" e agora que você disse que é uma história original (e não a releitura de "Issumboshi" - a sinopse me fez pensar isso!), fiquei mais curiosa.
Gosto mais ainda dos contos por eles serem originais (e não releituras, nem contos baseados em lendas)!
Como prometido, daqui duas semanas entro em contato por e-mail para comentar sobre "Amor sem fronteiras". Vai ser um prazer reler!
Abraços! :)