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domingo, 10 de julho de 2016

Amadores - Cia. Hiato



No fim de maio, em uma sexta fria depois do feriado de Corpus Christi, fui ver a primeira peça do ano, Amadores, da Cia. Hiato, com a Mila e a Ju. 

No ano passado, fomos ver Ficções, desse mesmo grupo. As duas são fãs dos trabalhos que os atores dessa companhia produzem e acabaram me contagiando. Agora também fico superentusiasmada em ver as peças deles, que sempre valem a pena. Tanto essa peça quanto Ficções, entre outras coisas, me fizeram refletir sobre o que seria a vida e o que seria a arte, e como ambas muitas vezes se misturam. E, ainda, como a arte muitas vezes extrai sua matéria-prima da vida, assim como às vezes as pessoas se utilizam da arte (ou se inspiram nela) para entenderem melhor a própria vida ou para mudarem de vida.

Para a peça, foram selecionadas pessoas sem formação em teatro ("amadores") por meio de um "processo seletivo sem muitos critérios objetivos" - foi mais ou menos isso que a atriz Paula Picarelli disse no começo, haha -, depois de a companhia colocar anúncios em jornais. Não lembro o total de inscritos interessados, seja pela remuneração (cada ator/atriz recebeu R$ 3 mil para participar das oficinas e atuar) ou pela vontade de estar num palco, mas, em poucos dias, MUITA gente se candidatou e as inscrições foram encerradas antes do previsto, provavelmente porque o grupo não daria conta de entrevistar tanta gente. Em abril, a Folha publicou essa matéria falando um pouco da peça (tem algumas fotos).

Folder de Amadores

No palco, cada ator amador ou atriz amadora atua contando episódios de suas própria biografias, talvez haja alguns elementos ficcionais, mas parece tudo muito real. São histórias diversas, de pessoas comuns e ao mesmo tempo extraordinárias, meio costuradas pelo filme Rocky, um lutador, e também pela história por trás desse filme. Aliás, comprei o DVD do Rocky por causa da peça - não sei quem ou que outra situação me faria ver esse filme...



Fiquei curiosa em ver o filme depois de saber da história do Stallone (os fatos foram comentados na peça e depois fiz pesquisas pelo Google): ele era um ator pornô e estava muito sem grana, aí teve a ideia de escrever o roteiro de Rocky, uma história meio previsível de superação, sobre um lutador de boxe amador que, com muita garra e depois de muito treino, enfrenta um veterano famoso dos ringues. [Spoiler] Ele não ganha a luta, mas se mantém firme o máximo que consegue... a plateia vai ao delírio e torce muito por ele. Voltando à história real, um estúdio quis comprar o roteiro, mas ele não vendeu, mesmo precisando muito da grana, e a exigência para fechar o contrato era que ele faria o papel do protagonista - parece que o Stallone precisou brigar muito para conseguir isso; os investidores não queriam que ele ficasse com o papel principal. A história de Stallone e de Rocky se assemelham e talvez o filme tenha feito tanto sucesso (e tido tantas sequências), porque o Stallone colocou a "verdade" dele no script.

Ainda acho a história do filme mais interessante que o livro em si. E isso me fez lembrar da autora da Saga Crepúsculo; li faz tempo no site dela que tudo começou depois que ela teve um sonho com um casal debaixo de uma árvore conversando e ela sabia que eles estavam vivendo um "amor impossível". Ficou intrigada com o sonho e escreveu a história. Depois de muitas cartas de recusa debochadas e até cruéis de editoras - qual a necessidade disso? -, conseguiu publicar e fez muito sucesso. A qualidade dos livros é questionável, mas a história por trás deles é bem interessante.

Voltando à peça, muitas histórias dos atores amadores são impressionantes. Tem um ator pornô que conta como entrou nesse mercado e como gosta de aprender coisas diferentes; o homem transgênero (de mulher para homem) que tem um filho e que consegue cantar com uma voz feminina e outra masculina a música do Aladdin (ele canta na peça!, é incrível); a manequim que abriu mão da carreira para se casar e ter filhos (e precisou carregar no ventre um bebê morto - não lembro por que, acho que o bebê precisava sair "espontaneamente", não dava para o médico simplesmente abrir e tirar); um advogado que saiu de férias e está de férias há alguns anos; um refugiado que teve o nome "invertido" pela atendente que foi fazer o documento dele no Brasil (pelo que entendi, agora o primeiro nome dele é o último sobrenome (Nsona Kiaku Arão Isidoro Jorge); uma descendente de japoneses que disse que sempre fazia "tudo certo", mas a vida pessoal e profissional foram desmoronando aos poucos; um dos atores profissionais do grupo contou que um dia, num passado recente, saiu da peça e foi tomar uma cerveja num bar com alguns amigos e um motorista bêbado invadiu a calçada e atingiu a mesa em que eles estavam -  uma amiga dele acabou morrendo e ele estava na cadeira de rodas na peça (fiquei chocada!), entre outras histórias que valem a pena ser ouvidas. Todos os atores "amadores" têm também algum tipo de talento (cantam, dançam, tocam algum instrumento...).

Esse mês a peça vai ser apresentada gratuitamente no Itaú Cultural e pretendo ver de novo! Combinei com a Mila, vamos ver se conseguimos ingressos, porque a disputa é sempre grande. 

Recomendo!

***

O quê? Peça teatral Amadores, da Cia. Hiato
Quando? 12, 19 e 23 de julho de 2016, às 20h
Onde? Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 - a estação de metrô mais próxima é a Brigadeiro)
Quanto? Grátis (retirada de ingressos 1 hora antes; para o público preferencial, retirada de ingressos 2 horas antes)
Site oficial da Cia. Hiato com informações sobre o espetáculo: clique aqui

Bate-papo com a Cia. Hiato
Dias 19 e 26 de julho de 2016, às 16h
Piso 2 - 40 lugares
Os atores da peça participam de uma conversa com o público e contam como foi o processo de pesquisa para a construção da narrativa do espetáculo.

Entrada gratuita
Distribuição de ingressos: público geral, uma hora antes do evento; público preferencial, duas horas antes do evento 
[importante: aqueles que participarem do encontro receberão automaticamente um ingresso para assistir à peça que será apresentada no mesmo dia, às 20h.]

[Informações tiradas do site do Itaú Cultural (daqui ó)]

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