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domingo, 10 de julho de 2016

De onde vêm as personagens?


Terminei de ler esse livro sexta passada e tive uma surpresa boa no final. Depois de discorrer sobre a diferença entre pessoas e personagens, tradição crítica relacionada à personagem e construção da personagem, a autora perguntou a alguns escritores "De onde vêm esses seres?", e eles responderam. Há respostas com as quais me identifico mais, outras, menos, mas são todas interessantes. Alguns contam de onde surgiram alguns personagens de seus livros mais conhecidos e falam sobre um pouco sobre o processo criativo deles. 

Como escrevi em um post anterior, a Série Princípios (Editora Ática) e a Coleção Primeiros Passos (Editora Brasiliense) são ótimas leituras iniciais sobre vários assuntos e, caso seja necessário ou interesse, é possível se aprofundar sobre o tema com outros livros da bibliografia apresentada no final. Da bibliografia desse livro, quero ler: A personagem de ficção (Antonio Candido, Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida Prado e Paulo Emílio Salles Gomes; Editora Perspectiva), L'Univers du roman (Roland Bourneuf e Réal Ouoellet; Presses Universitaires de France), Physiologie du roman (Nelly Cormeau; A. G. Nizet), Aspectos do romance (E. M. Forster; Editora Globo), A estrutura do romance (Edwin Muir; Editora Globo) e Morphologie du conte (Wladimir Propp; Seuil). Alguns desses livros já estavam em bibliografias de outros livros que li ou em posts sobre escrita e eu já tenho - esses em francês dá para encontrar na Estante Virtual. Vou ler e depois comento.

Para quem se interessa por escrita, A personagem é uma boa porta de entrada para entender um pouco mais sobre personagens. Vale a pena.


Esses são alguns recortes de respostas que os escritores deram e chamaram a minha atenção (recomendo a leitura do capítulo inteiro!):
Eles vêm do fundo de uma gaveta chamada memória. Aparecem quando menos os esperamos. Rondam as nossas noites, nos perseguem por madrugadas a fio. A princípio são imagens vagas, feições humanas de quem mal nos lembramos, sombras de um passado que o presente quer resgatar. (Antônio Torres)
Observo as pessoas interessantes - ou seja, as que me interessam vivamente por repulsa, atração ou qualquer envolvimento. Para criar ficção, aliás, não basta observar só as pessoas, mas ser observador de tudo. (Domingos Pellegrini)
Vêm de mim. Sou eu mesmo, uns quarenta por cento. Tem vezes que é bem mais: sessenta, setenta, cem por cento. Depende da piração. Mas a maior parte das vezes vêm de tudo que me rodeia, das pessoas que estão à minha volta. De gente que vi, observei, convivi, entrevistei, amei. Dizia Hemingway (será que dizia mesmo?) que o escritor não pode ter escrúpulos. Nem com os outros, nem consigo mesmo. Não se confunda falta de escrúpulos com mau-caratismo; são coisas distintas, no caso literário. Se uma pessoa pode fornecer dados ricos para um personagem, por que não utilizá-la? (Ignácio de Loyola Brandão)
Acredito no que se chama "inconsciente coletivo", e dele vem boa parte da matéria de minhas personagens. Muito delas me foi dado por vivência pessoal: coisas que vi, ouvi, li, sonhei, percebi de passagem na rua, no supermercado. Coisas que imaginei vagamente. (Lya Luft)

"O escritor tem que atuar como um vampiro."
Eu tenho repetido isto: acho que o leitor gosta e aceita um livro na medida em que se transporta, em que se encontra no livro. Como eu também me identifico, me apaixono muito pelos meus personagens, acredito que isso ajude a minha aproximação com o público. De qualquer forma, os personagens me satisfazem mais do que as pessoas, porque têm vida, vícios e virtudes e, no entanto, permanecem tão intactos que não admitem interferências. À medida que os personagens nascem dentro da gente, é preciso escrever rápido. Porque nós vamos nos modificando, até mesmo sob influência deles. Temos que aproveitar o momento, enquanto está quente. O escritor tem que atuar como um vampiro - antes que amanheça. E na verdade, o autor também é vampirizado pelos seus personagens que se alimentam do seu sangue no mistério da criação. Quando termino um livro, estou esvaída. Os personagens e eu então descansamos. Até a próxima aventura. (Lygia Fagundes Telles)
Eu pertenço ao naipe de escritores que só dispara a máquina de escrever quando sente que as personagens estão com cara de gente. Apenas batizá-las com um nome marcante é pouco, muito pouco. Elas precisam respirar, ficar de pé, circular, fazer sombra. Valorizo ainda mais personagens que histórias porque geralmente já trazem no bolso a sinopse de sua vida, seu enredo, e até o elenco de figurantes. No meu livro Memórias de um gigolô, a história nasceu depois da personagem. Tudo se ajusta melhor num conto ou romance quando isso acontece. (Marcos Rey)
Um personagem começa a existir a partir do que não sou e preciso, com urgência, ser; a partir do que sou e não sei ou não encaro ser; a partir da nuvem nublada de mim mesma, nuvem que vou cortando e recortando em infinitas caras de mim [...] E um personagem é tudo o que, em você, eu amo porque não posso ser; tudo o que, de você, eu gostaria de ter, tudo o que, em você, eu odeio porque não posso ser, ou porque sou e você me faz ver. É você, enfim, apresentável. Sou eu, enfim, apresentável. Você e eu resgatados no modelo do que deveria ser. (Marilene Felinto)
De muitos lugares, isto é certo. Da infância. Do dia a dia. De um encontro casual na rua. De uma foto ou notícia de jornal. Das páginas da História. De um sonho ou de um pesadelo. De uma associação de ideias. De um desejo de se autorretratar (Flaubert: "Madame Bovary sou eu"). [...] A atração pelo personagem é que faz o escritor. Uma atração que, afinal, todos temos. Todos queremos ser personagens. Eu mesmo o quero. Quem escreveu esse depoimento foi um personagem chamado o escritor Moacyr Scliar, que não existe na vida real e que só desperta de sua letargia em momentos especiais, como este, de jogar com palavras para se apresentar, enfim, como personagem. (Moacyr Scliar)
Embora inspirados em pessoas que conheci pessoalmente em diferentes circunstâncias da vida, ou em mim mesmo, meus personagens não são essas pessoas que conheci. Antes, são o que imagino que, no limite, essas personagens deveriam pensar de si mesmas, se as pessoas realmente fossem lógicas. Daí a estranheza que meus personagens causam a certos leitores, pois estes não se reconhecem naqueles, dado que a maioria das pessoas não age segundo uma lógica imanente, segundo um raciocínio, mas levadas por paixões. (Renato Pompeu) 

Depois disso, também fiquei me perguntando de onde tiro minhas personagens. E concluí que tiro da memória e da imaginação (como escreveram alguns escritores acima). E desconfio que as personagens que crio também sejam uma forma inconsciente de tentar "imortalizar" amigos ou pessoas que, de uma forma ou de outra, foram/são importantes para mim. A maioria das pessoas com quem convivo ou convivi é muito interessante e renderia (rende) ótimas personagens. Aí pego o que me interessa e tento criar em cima de uma pessoa que realmente existe ou de um episódio que a pessoa viveu e me impressionou ou de algo que ela me contou sobre outra pessoa. 

Como um amigo que se casou em um navio - com o namorado, que também era tripulante - para ter alguns privilégios a bordo (como uma cabine para os dois e férias na mesma época); um professor que se sentiu muito acuado depois do nascimento do filho e, depois de um tempo, se descobriu gay (uma espécie de libertação de amarras sociais impostas até então?); uma amiga que está se iniciando num relacionamento a três com um casal de namorados; alguém "abandonado" pela namorada, que simplesmente sumiu, trocou de telefone e nunca mais deu notícias nem explicações (na verdade, já ouvi três histórias exatamente assim... me pergunto o que faz as pessoas simplesmente sumirem da vida de alguém que pouco tempo atrás era íntimo... só consegui pensar que essas pessoas que sumiram talvez se sentissem muito sufocadas e não conseguiram dizer isso para a outra... eu também teria vontade de desaparecer sem explicações se me sentisse pressionada e sufocada); uma amiga que descobriu que uma de suas melhores amigas, com quem falava e saía direto, estava tendo um caso ou algo do tipo com o namorado dela; amigos de adolescência que foram criados por avós porque os pais...? (eu nunca tinha coragem de perguntar por que os pais eram ausentes); uma colega de infância cuja mãe a obrigava a arrumar o quarto, tudo muito certinho, e estudar, no mínimo X horas por dia (ela era a melhor aluna da sala, tinha as melhores notas), eu queria saber se isso a levou a ser "bem sucedida" na vida ou se ela um dia se revoltou contra o controle da mãe e virou "porra louca"; uma pessoa cujo namorado estava morando e trabalhando no exterior enquanto ela conhecia outras garotas em redes sociais para encontros afetivos e/ou amorosos e descobre outra parte de si mesma (e nada do que havia planejado dá certo no final - ou talvez nada tenha dado certo para dar certo de outra forma no final, não sei); teve uma vez que tive o privilégio de saber de uma história por dois ângulos diferentes: uma amiga contou um episódio de um passado meio remoto e ficamos sem entender aquilo ("que porra é essa? por que ela fez isso?"), aí, tempos depois, houve uma situação em que encontrei a "personagem" do episódio e, conversa vai, conversa vem, a pessoa me contou o mesmo episódio e por que agiu daquela forma... eu, narradora onisciente, um privilégio!... e essa amiga talvez nunca saiba exatamente o que aconteceu (e eu também não vou contar porque, a essa altura, nem interessa revirar túmulos emocionais); amigos com problemas psicológicos variados (esses casos conheço por alto, porque não gosto de ficar perguntando, ou seja, ficar lembrando que a pessoa tem esses problemas, então só posso imaginar o que eles passam em dias piores); um amigo com quem perdi contato era casado, a esposa estava em outro país, estudando, enquanto ele se encontrava outras mulheres que ele conhecia pela internet (talvez para tentar encontrar a esposa/ a lembrança que ele tinha da esposa nessas mulheres? ou simplesmente porque se sentia solitário?), quando a esposa comentou sobre terem um filho, ele ficou muito angustiado porque, na verdade, ele já estava pensando muito em divórcio ao longo dos meses anteriores (aprendi muito sobre relacionamentos e vida adulta com esse amigo; acho que essa amizade matou um resquício de "adolescência ingênua e tardia" que eu ainda tinha aos vinte e poucos anos e marcou minha entrada definitiva no mundo adulto; uma amiga "crente" que se casou aos 16 anos (quando eu nem pensava em namorado e mal tinha deixado a infância - é, sou meio retardada, admito), porque achou que essa era a única alternativa possível, teve um filho muito jovem, para, anos depois, se divorciar e se transformar em uma mulher "moderna", batalhadora e vaidosa e se casar com um cara que ela provavelmente amava mais... todas essas pessoas e essas histórias, entre outras mil, eu queria que virassem personagem para, de certa forma, viverem mais.

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