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domingo, 24 de julho de 2016

Depois daquela Viagem, de Valéria Polizzi [Relato sobre a vida com Aids]

Essa semana li essa matéria sobre Aids na Folha (2,5 milhões de pessoas são infectadas anualmente pelo vírus da Aids no mundo; segundo o relatório da Unaids, no Brasil, os casos aumentaram 4% entre 2010 e 2015), aí deu vontade de escrever sobre o livro Depois daquela viagem, da Valéria Polizzi.


Esse é um dos livros que sempre tive vontade de ler (foi lançado em 1997), mas fui deixando para "depois". Até que, esse ano, finalmente, li.

Quando decidiu escrever esse livro-depoimento, Valéria Polizzi tinha 26 anos e já convivia com a Aids desde os 16. Foi contaminada por um ex-namorado com quem transou sem camisinha.


Agora você me pergunta: onde é que estava a camisinha nesta história toda? E eu respondo: não estava. Se já existia a AIDS? Já, sim, só que era coisa de "viado", de "grupo de risco". E, além do mais, segundo meu namorado, camisinha era coisa de "puta". Eu não era "puta"; logo, não precisava de camisinha.
Era esse o tipo de pensamento que devia vigorar na cabeça de muitos homens no fim dos anos 1980 e, infelizmente, ainda deve vigorar até hoje. É absurdo pensar que aspectos culturais e sem lógica se sobreponham a questões de saúde e que muitas mulheres se submetam a eles por medo de perder namorados e maridos. Apesar de não ser feminista daquelas que hasteiam bandeira e ficam gritando aos quatro ventos seus ideais, vira e mexe me pego pensando em como muitas mulheres aguentam isso. Como é que elas simplesmente se deixam levar pelo que os caras querem e não necessariamente pelo que elas querem. E os livros e filmes românticos, em geral, só reforçam a ideia de que as mulheres são seres frágeis, que precisam de um cara bonito e rico que se apaixonem por elas, que as protejam e que paguem as contas, porque elas são incapazes (?) de estudar, ter um bom emprego, pagar as próprias contas e tomar suas próprias decisões, se quiserem, é claro. Tenho raiva desse tipo de história porque parece uma forma de tornar as mulheres débeis mentais, como se a única alternativa e salvação fosse ter um homem ao lado delas (isso em pleno século XXI!). Nicholas Sparks vai pro inferno quando morrer, certeza [isso renderia outro post].

Acontece que, pelo que a Valéria conta, ela nem queria transar com o namorado; acabou cedendo porque ele estava pressionando (afinal, já estavam namorando há seis meses, ele não era mais criança e estava se chateando), aí ela acabou cedendo porque não queria perdê-lo. E ela só tinha 16 anos.

Ela conta também que esse ex-namorado passou a bater nela depois de um tempo, ele tinha sérios transtornos psicológicos e usava drogas. E ela suportou as surras por um bom tempo porque não queria/ tinha vergonha de contar isso para a família e para os amigos. Até que um dia a avó dela viu o ex batendo nela. Foi uma confusão e, apesar de ela não querer mais nada com ele, ele a ficou perseguindo por um ano. (Outra questão é: Como educar as meninas para elas não aceitarem esse tipo de atitude? Como convencê-las de que ter namorado/ marido que as agride não é normal e que o cara deve ser denunciado? Ou que - foda-se - é melhor ficar mesmo sozinha do que com um cara que as agride?)

Depois de se livrar do ex-namorado e de ter vivido uma vida normal de adolescente, Valéria teve um problema no estômago e foi ao médico. O tal médico acabou fazendo exames para verificar se ela era soropositiva sem ela saber e, ao saírem os exames, ele comunicou o pai dela sem nem conversar com ela antes. Foi um baque. Ela estava com viagem marcada para Nova York, onde ficaria na casa dos tios. Ela acabou viajando e os tios a receberam muito bem, apesar de saberem que ela estava doente. 

Em muitos aspectos o depoimento da Valéria se aproxima ao de uma jovem de classe média alta comum. No entanto, o fato de ter Aids a desestabilizava emocionalmente em vários momentos. Apesar dos altos e baixos e angústias (como contar para todos os familiares e amigos que estava com uma doença "mortal"? Valeria a pena fazer uma faculdade sendo que a expectativa de vida dela era baixa?), a autora adquiriu outra consciência ao fazer um intercâmbio para os Estados Unidos, onde teve uma outra perspectiva em relação à vida; lá ela se deu conta de que era possível (con)viver com a doença e deixou de pensar que tinha pouco tempo de vida.

É um livro ótimo para jovens, para alertá-los de que é preciso usar camisinha e se prevenir contra Aids e outras DSTs e também para divulgar, de uma perspectiva muito pessoal, que a Aids não é o "fim do mundo", que é possível conviver com a doença e levar uma vida praticamente normal e longa.

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Passei os olhos pelo Boletim Epidemiológico HIV/ Aids de 2015, produzido anualmente pelo governo, e há dados interessantes (e alguns, alarmantes) por lá:
O Boletim não deixa dúvidas sobre o tipo de epidemia brasileira, concentrada em populações-chave que respondem pela maioria de casos novos do HIV em todo país, como gays e homens que fazem sexo com homens, travestis e transexuais, pessoas que usam drogas e profissionais do sexo. Dentre os destaques relevantes deste Boletim, fica reiterado o fato de que o crescimento de aids na juventude (15 a 24 anos) continua sendo uma preocupação importante e que as ações nesse segmento tem de ser intensificadas.
- A taxa de detecção de gestantes com HIV positivo tem aumentado no Brasil, e o maior índice do país está no Rio Grande do Sul; 

- Os casos de Aids no Brasil estão concentrados na região Sudeste e Sul (respectivamente, 53,8% e 20,0% do total de casos identificados de 1980 até junho de 2015);

- "Nos últimos cinco anos, o Brasil tem registrado, anualmente, uma média de 40,6 mil casos de aids. Segundo as regiões, o Norte apresenta uma média de 3,8 mil casos ao ano; o Nordeste, 8,2 mil; o Sudeste, 17,0 mil; o Sul, 8,6 mil; e o Centro-Oeste, 2,7 mil";

- Foram registrados no Brasil, desde 1980 até junho de 2015, 519.183 (65,0%) casos de aids em homens e 278.960 (35,0%) em mulheres;

- O número de casos de incidência da doença apresenta aumento nos homens e queda nas mulheres;

- A maior concentração dos casos de aids no Brasil está nos indivíduos com idade entre 25 e 39 anos para ambos os sexos; entre os homens, essa faixa etária corresponde a 53,6% e, entre as mulheres, 49,8% do total de casos de 1980 a junho de 2015;

- Desde o início da epidemia de aids (1980) até dezembro de 2014 foram identificados 290.929 óbitos tendo como causa básica aids, sendo a maioria na região Sudeste (61,0%);

- Do total de óbitos por aids registrados no Brasil, 206.991 (71,2%) ocorreram entre homens e 83.820 (28,8%) entre mulheres;

-  A cobertura de teste de HIV na vida entre as mulheres (40,7%) é 56% maior do que a observada entre os homens (26%), o que está relacionado, especialmente, à obrigatoriedade do teste de HIV durante o pré-natal;

- Recentemente, o país foi citado como exemplo de vanguarda e modelo a ser seguido, por ter instituído a estratégia de tratamento para todos antes que isso se tornasse recomendação da OMS.

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Mais para frente vou escrever sobre uma HQ chamada Pílulas azuis, do suíço Frederik Peeters, em que ele conta como foi/ é se relacionar com uma mulher soropositiva que tinha um filho pequeno também soropositivo de uma relação anterior. Como a HQ é autobiográfica, dá para saber o que se passava pela cabeça dele no começo da relação (muitas "noias"), até a doença ir fazendo parte da vida dos três... ele e a namorada chegaram a ter outro filho, e a criança, felizmente, não nasceu com a doença. Aliás, parece que o risco de contaminação, seja vertical (de mãe para filho) quanto sexual é muito baixo quando as pessoas seguem o tratamento seriamente porque a carga viral nessas pessoas é extremamente baixa.

E continuo lendo Para sempre teu, Caio F., da Paula Dip. Por enquanto ainda não há um enfoque no fato de ele ter adquirido a doença (a certa altura, ele voltou para a casa dos pais, no Rio Grande do Sul, para ser cuidado). O fato de ele ser soropositivo provavelmente deve ter influenciado as últimas obras dele, mas não posso falar nada a respeito.

De qualquer forma, Depois daquela viagem e a HQ Pílulas azuis são ótimas obras para informar e entreter ao mesmo tempo. Os livros têm linguagens bem acessíveis e relatos verdadeiros, o que acaba aproximando os autores do público e diluindo preconceitos. Não é só puta, drogado e gay que se contamina. Todo mundo corre o risco de se contaminar se se expuser a situações de risco - às vezes, até sem saber. Faz muito tempo li que muitas mulheres eram contaminadas pelos próprios maridos, que pulavam a cerca com várias mulheres e/ou homens e depois transavam com elas sem camisinha. Aí, para essas mulheres, era um choque quando descobriam o que tinha acontecido. Infelizmente existem pessoas assim no mundo. 

A única saída é tentar se cuidar ao máximo e tentar se relacionar com pessoas leais. Não tem outro jeito.

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