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domingo, 24 de julho de 2016

Diálogo no Escuro, uma experiência


Hoje (sábado) fui participar da mostra Diálogo no Escuro e gostei muito.

Eu já tinha visto algumas propagandas na rua na primeira vez em que a mostra esteve em cartaz (em meados do ano passado, se não me engano), e depois vi essa propaganda de novo no metrô:

Cartaz na estação de metrô Faria Lima 

Apesar de ter visto esse cartaz no metrô na semana passada, ele está errado; a mostra fica em cartaz até dezembro (e não até julho) de 2016.

Fiquei muito curiosa para participar dessa mostra, mas fui adiando... até que o "destino" deu uma ajudinha: semana passada ou retrasada recebi um e-mail da PublishNews falando sobre a mostra e fornecendo um código que dava direito a ingressos grátis... ao todo acho que deram 150 ingressos com direito a um acompanhante. Aí marquei de ir hoje.

Primeiro convidei o Resina, um amigo com quem converso "virtualmente" há mais ou menos um ano, que ainda não encontrei pessoalmente, ele topou, só que chegou hoje e ele parecia estar com preguiça mas sem coragem de desmarcar. Falei que não tinha problema se ele não fosse e aí chamei a Yuri, ela topou, e então fomos.


Diálogo no Escuro é uma experiência literalmente "no escuro". Entramos em ambientes totalmente escuros, em que fomos privados da visão, e pudemos ter uma leve noção do que os deficientes visuais vivem no dia a dia e também aguçar os outros sentidos - alguém do meu grupo comentou que a visão era algo muito condicionante; estamos tão acostumados a usar a visão que ela acaba encobrindo os outros sentidos. A visita é guiada por deficientes visuais, o que torna a vivência ainda mais interessante.

Entrada da mostra

No início fomos recepcionados por uma moça que explicou o básico da exposição. Éramos seis pessoas, três homens e três mulheres. A Yuri guardou a mochila no armário e eu também deixei a bolsa lá. A moça também deu um bastão para cada um e pediu para levarmos uma nota de R$ 2 ou duas moedas de R$ 1 para podermos comprar algo (comida) no terceiro ambiente, em que teríamos uma experiência gustativa.

Entramos em um tipo de corredor, com o bastão na mão esquerda (depois, dependendo da situação, podíamos mudar o bastão para a mão direita, para quem é destro é melhor), fomos tateando a parede do lado direito, e logo o Marcos, nosso guia, assumiu o comando. Ele nos conduziu por três ambientes diferentes: uma mata, um ambiente urbano e um bar.

Nesses ambientes havia barulho para simular melhor a vivência: de água correndo e animais, de trânsito intenso e conversas paralelas, respectivamente.

Na mata, caminhamos ouvindo os sons da natureza e, em uma parte do caminho, nos guiamos por um corrimão de madeira, que o Carlos disse que era uma ponte com 15 metros de altura, mas que não tinha perigo (haha - no escuro podemos imaginar qualquer coisa). No ambiente "urbano", tateamos muros, portão, interfone, vitrine de loja e um mercado (havia alguns legumes e frutas e, no final, alguns sacos de feijão). No bar, tateamos o nome do lugar ("Boteco no Escuro") e depois o balcão, onde usamos os R$ 2 para comprar um dos itens: água, suco de laranja, guaraná, "pão na chapa" e "torradas com queijo". Na verdade esses últimos itens eram salgadinhos (torradinhas) sabor "pão na chapa" e "queijo". Pedi um "pão na chapa" e foi decepcionante receber um pacote com essas torradinhas... =P

Ao longo do passeio, fomos conversando entre nós e com o guia, até para podermos nos guiar pelas vozes uns dos outros, porque não dava para enxergar absolutamente nada lá. Mas o guia vai dando instruções ao longo de todo o caminho e chamando a atenção para sons e texturas. No bar, nos sentamos em um banco e havia também uma mesinha. Abrimos as comidas ou bebidas que compramos e começamos a conversar com o Carlos, que era deficiente visual. Alguns ficaram muito surpresos ao saber disso (eu já sabia porque tinha lido que seríamos guiados por deficientes visuais). Ele disse que poderíamos fazer qualquer pergunta para ele. E a primeira foi meio óbvia: se ele havia nascido cego ou adquirido a cegueira depois. Ele disse que começou a perder a visão aos 13 anos e aos 18 anos ficou totalmente cego. Comentamos impressões sobre o passeio e algumas pessoas fizeram mais algumas perguntas. Como outro grupo guiado estava se aproximando e falando, o Carlos nos guiou para uma sala que ficava antes da saída para continuar a conversa. Algumas pessoas comentaram mais algumas coisas e foi isso.


Tive curiosidade de participar dessa experiência, entre outras coisas, porque criei uma personagem cega e quero ter contato com o máximo de experiências e conhecimentos que puder sobre isso para tentar tornar a personagem o mais verdadeira e humana possível. Há algum tempo pesquisei vários artigos sobre cegueira e sexualidade e também li esse livro (a minha personagem tem vinte e poucos anos e sua sexualidade está começando a aflorar, por isso fui fazer pesquisas com esse enfoque):


Devo me interessar por cegos desde que era criança, porque (não sei se toda criança faz isso?) lembro de fechar os olhos e ficar tateando pela casa para tentar saber como seria ser cega (eu ficava pensando: "e se eu fosse cega?"), mas depois de bater joelho e outras partes do corpo em quinas diversas, parei de fazer isso. É engraçado lembrar disso porque talvez isso seja um indício de que desde muito nova eu já tinha essa curiosidade do tipo: Como seria não ser eu? Como seria se eu fosse outra pessoa? Como eu me sentiria sendo outra pessoa? São perguntas que nunca vão ter respostas porque nunca vamos conseguir ser outra pessoa que não nós mesmos.

Fora isso, gostei muito de um documentário brasileiro chamado Janela da alma e do filme/ livro Ensaio sobre a cegueira. Recentemente descobri um filme norueguês chamado Blind, que quero ver. Tem também aquele filme com a Björk de que não gostei muito: Dançando no escuro.

Enfim, foi uma experiência diferente e muito legal!

Observação: se participarem da mostra, usem o bom senso e não façam nada que não fariam em um ambiente com luz (como enfiar um pacote de feijão ou qualquer outra coisa dentro do bolso ou ficar no maior amasso com o(a) namorado(a)), pois há câmeras de segurança em vários pontos (são câmeras com infravermelho; dá para vê-las porque tem umas luzinhas vermelhas perto do teto).


O quê? Mostra Diálogo no Escuro

Quando? De 23/07 a 03/12/2016 - Segunda, terça, quinta, sexta e sábado, das 11h às 18h30 | Quarta, das 13h às 20h30. 
Onde? Unibes Cultural (fica literalmente ao lado da estação de metrô Sumaré)
Quanto? Durante a semana, R$ 20,00 inteira e R$10,00 meia-entrada | Sábados e feriados R$ 30,00 inteira e R$15,00 meia.
Sites oficiais: clique aqui e aqui
Os ingressos podem ser comprados no Compre Ingressos (para sábados ou para dias de semana)


Nunca tinha entrado no Unibes Cultural e nem sabia que ele existia. Graças à mostra Diálogo no Escuro ainda descobri mais uma opção de lazer cultural.







No saguão perto da lanchonete estava tendo uma exposição chamada "Panoramas da comida no Brasil", com fotos de comida!









Valeu o passeio e recomendo!

Depois disso vim para São José dos Campos ver minha família e comer pizza  e bolo na casa da minha tia, em comemoração aos sessenta e cinco anos (!) de casamento dos meus avós maternos.

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