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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Férias (mais ou menos)


Estou parcialmente de férias.

Em julho não terei aulas de tradução na Casa Guilherme de Almeida, o que significa terças, quartas e alguns sábados livres. Parece pouco, mas não é. Sinto alívio só de pensar nesses dias sem aula, pois ando cansada. 

Nessas breves férias, pretendo reler alguns textos de teoria que não consegui ler ao longo das aulas e também reler um livro chamado Os tradutores na história, de Jean Delisle, leitura obrigatória na faculdade. As aulas de história da tradução na Casa Guilherme têm sido ruins e tediosas (professor lendo textos em PDF projetados na parede e tecendo comentários, para mim, bastante confusos; tivemos aula com outro professor outro dia, esse era ótimo, pena que foi só um dia). Ando me questionando se vale a pena continuar frequentando as aulas dessa matéria para receber um certificado do curso quando eu terminar de cumprir todas as matérias obrigatórias e as atividades extras. Considerando que já tenho um diploma de tradução, vale a pena? Eu já sei a resposta, mas sou trouxa teimosa e insisto. Por outro lado, estou gostando das aulas de teoria da tradução, embora haja controvérsias sobre o nível dessas aulas. Sinto que depois de trabalhar com tradução na vida real (e não apenas nas aulas de prática da faculdade), consigo entender bem melhor as teorias. As aulas da oficina de tradução, sábado sim, sábado não, também são bacanas.

Ontem à noite fui a uma palestra sobre tradução de histórias em quadrinhos dada pelo Jotapê Martins, que traduziu vários "gibis" (como ele gosta de falar) clássicos, como Batman – O cavaleiro das trevas, Watchmen, The Spirit, X-Men, Homem-Aranha, Elektra Assassina, Demolidor, Sandman, entre vários outros (vi essa informação aqui). A Casa Guilherme LOTOU. Teve gente que assistiu à palestra em pé, nunca tinha visto isso.

O Jotapê Martins contou que ele começou a traduzir quadrinhos quando tinha 19 anos, meio "por acaso", para a Editora Abril, juntamente com outro cara de 26 anos, porque as outras pessoas estavam mais preocupadas com as publicações mais "sérias" da editora. Como ele gostava muito de ler quadrinhos, foi bater à porta da Editora Abril, para ver se conseguia traduzir algumas histórias, porque ele achava as publicações no Brasil ruins e que poderia fazer muito melhor (ele disse isso rindo). O editor acabou gostando do trabalho dele e ele passou a trabalhar na Abril, contou que pagou a faculdade com o salário que ganhava lá. Falou rapidamente sobre a história dos quadrinhos e como o trabalho de edição dos gibis era feito na Editora Abril entre 1979 e começo dos anos 1980 - de forma bastante artesanal! Era preciso adaptar formatos e fazer muitos cortes nos textos (às vezes, de até 40%!), por isso ele conta que alguns fãs de quadrinhos o odeiam. Fiquei impressionada com todo o trabalho que tinham na época. Falou também como as histórias em quadrinhos já nasceram como um "produto de massa", feito para vender para o grande público, com a finalidade de render dinheiro para os investidores; ainda bem que hoje há vários tipos de HQs, não curto nem um pouco essas de super-heróis... Também falou um pouco sobre mangás e como ele acha "errada" a forma como se publica mangás no Brasil (os mangás são lidos "de trás para frente", já que o formato japonês é mantido, e a sequência de leitura dos balões também é "invertida"). Ele comentou que quando editou alguns mangás, inverteu a arte, para que os mangás fossem lidos como ele achava que deveria, mas os ideogramas das onomatopeias ficaram ao contrário (para mim, o horror, o horror!! haha). Discordo desse posicionamento dele de que o mangá é lido de forma "errada" e penso que muitos fãs de mangás, por serem tão fãs, devem estudar japonês, talvez com o propósito de lerem as edições originais, então não vejo problema em manter as onomatopeias em japonês.

O Jotapê ia passar um vídeo falando um pouco sobre quadrinhos, mas o vídeo não abriu na hora. Achei esse programa, o "Turma da Cultura", do qual ele participou, em 1998, no Youtube.

Essas palestras e eventos na Casa Guilherme são ótimas! Eu adoro ouvir tradutores falando sobre suas experiências, porque, em geral, traduzir é meio solitário. Queria ter descoberto esse lugar e esses eventos antes. Mas, como diria o Álvaro, um professor da faculdade: "Antes tarde do que mais tarde".

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Ontem ganhei o coelhinho que está foto da Yuri (é uma piada interna) e trouxe para o trabalho, para enfeitar a minha mesa impessoal. Acho que vai se chamar Yuri mesmo, porque tem cara de Yuri.

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Para o jantar, cozinhamos uns rolinhos de filé de peito de frango recheados com salsão, vagem, cenoura, pimentão e bacon ao molho de laranja e gengibre. Ficou mais ou menos. Mas foi interessante amarrar os rolinhos com fio dental para eles ficarem no formato certo - alguns ficaram meio deformados, mas da próxima vez faremos melhor. 

Como o editor comprou um micro-ondas para a editora há uns dois meses, quando cozinho à noite, trago marmita para o almoço, aí é só esquentar e comer. Por conta disso, também tenho cozinhado mais, embora variado pouco o cardápio - por causa do cansaço, acabo preparando pratos mais rápidos e práticos (às vezes começo a cozinhar só lá pelas 22h, quando chego em casa). Cozinhar no fim de semana é bem mais agradável, dá para fazer pratos mais elaborados. Às quartas geralmente vou comer fora porque no restaurante aonde costumo ir tem moussaka (preciso aprender a fazer isso!).

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Essa semana voltei a caminhar depois do trabalho e estou me sentindo melhor. Por conta do frio, não dava coragem, mas estou retomando a rotina. Caminhar sozinha é uma terapia para mim.

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Saíram alguns resultados de concursos literários em que me inscrevi e não fui selecionada para mais nenhuma antologia. Queria ter ganho o Prêmio OffFlip porque o prêmio para o primeiro lugar era de R$ 30 mil, além de hospedagem e passeio de barco em Paraty durante a Flip, que começou anteontem, aliás. Lamento pelos R$ 100 que paguei pela inscrição, mas não tem problema. Depois reli o conto, escrito meio às pressas e vi que não estava muito bom mesmo, aí melhorei (ou pelo menos essa foi a intenção) e inscrevi em outro concurso. O que importa é continuar exercitando a escrita e manter a motivação (esse ano consegui escrever uns dez contos de qualidade duvidosa - esses que inscrevi nos concursos -, mas escrevi!), apesar da falta de tempo e de todo o cansaço. 

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Hoje vim lendo Para sempre teu, Caio F. no ônibus. Comecei a ler esse e vários outros livros há meses, mas fui deixando de lado para ler coisas mais urgentes, agora estou retomando essas leituras. Quero terminar de ler tudo que ficou pela metade. Gosto muito da escrita do Caio Fernando Abreu e gostaria de ter tempo para (re)ler toda a obra dele. Queria "um ano de leitura mágica". Um ano livre só para ler e estudar tudo que eu quero. Continuo jogando na Mega-Sena e na Lotofácil, sem sucesso.

Também estou lendo A loja de tudo, uma biografia do Jeff Bezos, o fundador da Amazon, no Kindle. O Kindle é bem prático para se ler no metrô e no ônibus, e estou me esforçando muito para ler mais nele (assim compro menos livros físicos, que ocupam espaço, são pesados e pegam poeira). Acontece que esses livros digitais ainda são muito toscos. O design das páginas é pavoroso. Estou ansiosa por aparelhos com uma tecnologia melhor e, sobretudo, com páginas com um design mais agradável e amigável. A ideia é genial, mas falta aprimorar.

Comecei a ler A loja de tudo depois que li este artigo na Medium: Six books that explain the world of today. Estou achando bem interessante porque me identifico um pouco com a vontade do Jeff Bezos de criar algo que não existia antes e que faça diferença na vida das pessoas. Por outro lado, a forma como ele construiu e administrava a Amazon é controverso: ele só queria pessoas com QI alto trabalhando com/ para ele e que se dedicassem de corpo e alma à empresa - o que significava que os funcionários precisavam abrir mão de vida pessoal e equilíbrio entre trabalho e lazer. Imagino que até hoje a política da empresa seja assim. Me perguntei se eu conseguiria trabalhar na Amazon. Se conseguiria ser admitida e, uma vez dentro, se conseguiria lidar com o ritmo de trabalho frenético. Para mim, é fácil me dedicar a coisas que fazem sentido (trabalhar para que tudo funcione bem e cada vez melhor, para satisfazer clientes e ajudar a construir uma imagem boa da marca/ empresa); no entanto, para mim não faz sentido trabalhar "apagando incêndios", resolvendo problemas de clientes e da empresa de modo paliativo e sabendo que a empresa, no fundo, não está muito preocupada em sanar a raiz dos problemas. Quando percebo que estou no segundo tipo de empresa, minha reação é começar a procurar outro emprego depois de um tempo. Para mim, A loja de tudo é especialmente interessante porque tem a ver com livros e como o Jeff Bezos foi construindo a Amazon do jeito que ele queria e, ao mesmo tempo, tentando satisfazer os clientes. Não duvido que, no futuro, mesmo que a Amazon cobre preços um pouco acima da média em relação a outras livrarias, os clientes continuem comprando lá. Porque a qualidade do atendimento da Amazon também está acima da média, então, teoriamente, valeria a pena pagar mais por isso (em vez de comprar em uma Saraiva da vida e depois precisar lidar com atrasos, cobrança indevida, livros que não são entregues, livros entregues amassados e sujos etc.).

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O horário de almoço está acabando, preciso escovar os dentes e voltar para a rotina.

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Tenho vários posts na pasta "rascunhos". Queria comentar sobre vários filmes que ando vendo e também sobre assuntos totalmente aleatórios. Vamos ver se consigo postar mais no fim de semana, entre a aula de MBA de sábado e o bingo da festa junina de domingo.

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Atualização 04/07/16: Para quem se interessar, a receita do "rolê de frango" que eu e a Yuri fizemos está aqui. Tem até vídeo ("Tá difícil ou quer que eu desenhe?", eu responderia: "Tem como fazer um vídeo?" Esses vídeos com receitas são uma das coisas mais úteis que já inventaram!).


9 comentários:

Karen disse...

Fiz um curso de tradução com o Álvaro Faleiros na USP, foi legal porque ele trouxe vários tradutores para contar suas experiências. No fundo, apesar de toda a teoria, a conclusão é que a tradução depende muito da carga cultural e dos conhecimentos do tradutor.

Nunca pensei em amarrar o filés de frango com fio dental, deve ser melhor do que os palitos...

Aproveite o "descanso"! :)

Karen disse...

Ah, eu leio muitos livros no ipad, acho ótimo, as páginas ficam perfeitas, com capa colorida, índice funcional e dá para ir e voltar na leitura das notas dependendo do aplicativo (kindle, ibook ou adobe). Tenho o kindle, mas raramente uso. Claro que talvez seja uma questão de hábito...

aline naomi disse...

Oi, Karen! :)

Não conheço o Álvaro Faleiros; tive aula com o Álvaro Hattnher na Unesp, que, além de professor, era tradutor literário. Faz um tempo tive aula com o John Milton, da USP, que eu conhecia de congressos de tradução desde os tempos da faculdade, lá na Casa Guilherme, e por livros que a professora de teoria nos mandava ler. A aula foi boa.

Sobre tradução, depois de certas aulas, estou começando a ficar meio insegura... tem tantas coisas que é preciso observar e escolher na hora de traduzir que dá até medo - fiz um minicurso com o tradutor de "Dom Quixote" que ganhou o Jabuti pela tradução e fiquei pasma com o tanto de pesquisa que ele precisou fazer para chegar àquele resultado (e ainda disse que não ficou 100% satisfeito com todas as escolhas). Além do que você citou, carga cultural e conhecimentos gerais e específicos do tradutor. De certa forma, senti um alívio por não ter conseguido o que eu queria tanto na faculdade (traduzir literatura "profissionalmente" logo depois de me formar)... fico imaginando o desastre. Lembro que quando eu estava na faculdade, também, queria traduzir aqueles romances "Júlia" e "Bianca", porque achava que seria um bom treino para o que talvez viesse depois - se tivesse erros, acho que ninguém ia notar ou ligar.

Na receita a orientação era amarrar os filés de frango com barbante, mas não tínhamos barbante, aí usamos fio dental mesmo. Acho que deu na mesma.

Vou pesquisar sobre Ipad depois (estou pra comprar um tablet faz tempo, mas como ando tentando economizar...), obrigada pela dica. Enquanto isso, vou usando o Kindle, que foi presente de um amigo entusiasta desse e-reader!


Karen disse...

Ah, pensei que fosse o Faleiros. O John Milton às vezes aparecia para assistir a algum palestrante (e cochilava! rs).

Sim, o tradutor de literatura está sujeito a levar muitas pedradas de seus colegas. Alguém sempre tem uma sugestão a dar. Criatividade também é importante. Enfim, parar para pensar no ato de traduzir paralisa qualquer um. rs

Bem o fio dental não pode ter sabor, né?

aline naomi disse...

Hahahaha... não sei por quê, mas o John Milton tem cara de quem faz isso mesmo...

Por falar em "pedradas", um dos tradutores mais recentes de "Dom Quixote" escreveu uma crítica sobre a tradução do Sérgio Molina (que deu o minicurso que fiz - ele dá a oficina de espanhol na Casa Guilherme... vou tentar pegar essa oficina mais pra frente, ele é ótimo)... aí, ironicamente, o próprio Molina passou essa crítica para lermos. Tem que ter muito peito para criticar uma obra que ganhou um prêmio de melhor tradução. É que o cara modernizou todo o texto e o Molina, não (tentou manter o ar de texto antigo, com palavras e expressões que causam estranhamento). Eu teria que ler as duas traduções pra ver qual me agrada mais, mas acho que cada tradutor está coerente com o que se propôs a fazer. O mais importante é a coerência.

É, usei o fio sem sabor! Se tiver sabor, sabe-se lá o que acontece! Rolê de frango com toques de hortelã... haha

Minhas Impressões disse...

Olá, Aline.
Muito provavelmente seu professor de terça na Casa Guilherme de Almeida é meu professor de sexta na Unifesp. Esse semestre ele está lecionando uma matéria de Introdução aos Estudos Clássicos. Uma vez ele comentou durante a aula sobre esse curso que ele dá na CGA e eu fui pesquisar. Acho que pode ser ele mesmo.
Abraços.

aline naomi disse...

Olá, Maria (?)!
(Entrei no seu blog e vi que seu nome é Maria Ferreira, certo?)
O nome do seu professor é Érico? Ele dá aula de que na USP? As aulas são ok?
Abraço!

Minhas Impressões disse...

Oi, Aline.
Isso mesmo, meu nome é Maria :)
Sim, esse mesmo! Érico Nogueira. Ele dá aulas na UNIFESP. Esse semestre ele deu aulas de Introdução aos Estudos Clássicos e ouvi dizer que semestre que vem ele dará aula de Tópicos de Literatura Latina (ou Clássica, não me recordo). As aulas são ok. Ele explica bem, não é muito pesada porque eles é bastante divertido e nos faz rir, sem no entanto, desviar do conteúdo.
Abraços.

aline naomi disse...

Desculpe, Unifesp! (Não sei por que eu achava que ele dava aula na USP também... enfim)
Ele é engraçado e tal, e deve ser uma ótima pessoa, mas como professor pelo menos lá no CGA não funciona muito bem. Me achava "cricri" por achar as aulas confusas e meio tediosas, mas, conversando com outras pessoas, vi que não sou só eu, então não estou me sentindo culpada =P
Abraço!