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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Hope, de Boris Lojkine + CinéClub + Reserva Cultural



Depois de muito tempo (anos?), voltei para o CinéClub, um projeto organizado pela Aliança Francesa e pelo cinema Reserva Cultural, que exibe um filme francófono todo último domingo do mês, às 10h30. E, antes, servem um café da manhã (1 croissant, 1 pain au chocolat - um folhado recheado de chocolate, muito bom -, 1 suco de caixinha e café para quem quiser) - tudo isso, cinema + café da manhã, por R$ 8!

Teve uma época em que só vendiam ingressos para o CinéClub na bilheteria do cinema... e os ingressos se esgotavam antes de o primeiro dia de venda acabar. Eu passava lá depois do trabalho, umas 19h, e não tinha mais!, aí desisti de ficar tentando e esqueci o assunto. Agora, aleluia, vendem também pela internet. O site e a bilheteria começam a vender os ingressos na quarta que antecede a sessão, ao meio-dia em ponto. 

Dessa vez, convidei o Fábio, que nunca tinha ido ver um filme no CinéClub (porque não conseguia ingresso), ele topou, aí fui comprar o ingresso pelo site na hora do almoço. Na hora de finalizar o pedido, vi que o pagamento precisava ser com cartão de crédito, que deixo em casa e uso, basicamente, para fazer compras na Amazon. Falei com o Fábio, ele acabou comprando e me disse que mais ou menos às 13h havia poucos ingressos (isso porque as vendas começaram ao meio-dia!), por isso ele teve que comprar uns lugares perto da tela.

O CinéClub é bem disputado, mas vale a pena. É uma experiência muito bacana para quem gosta de filmes "alternativos" e ainda tem o café da manhã. 

O projeto apresenta "ciclos" que duram três meses, ou seja, três filmes com o mesmo tema. Mês passado Hope, dirigido pelo parisiense Boris Lojkine, abriu o segundo ciclo, cujo tema é migrações ("MigrAÇÕES").

Lojkine dirigiu dois documentários (Ceux qui resistent, 2001, e Les Âmes errantes, 2006) antes de trabalhar em Hope, lançado em 2014. Esse filme ficcional, de certa forma, também tem um aspecto documental, pois faz um recorte da realidade de pessoas que saem de seus países em busca de condições melhores ou, às vezes, essa é a única saída para sobreviver.

Antes das sessões do CinéClub, uma representante da Aliança Francesa vai lá na frente, fala "Bonjour!", faz a plateia responder em francês e depois comenta um pouco sobre o filme a ser exibido. Ela comentou que Lojkine escreveu o roteiro para Hope e depois foi para algum país africano para ter mais contato com a realidade que ele queria retratar e precisou reescrever todo o roteiro porque o que ele tinha escrito estava muito distante da realidade. Parece que ele queria filmar dentro dos "guetos" (comunidades de refugiados que se formam dentro de países estrangeiros) em países africanos, mas não teve permissão. No filme, vemos que esses guetos são comunidades muito bem organizadas e com suas próprias leis, o que me fez lembrar dos traficantes que comandam certas comunidades no Brasil - é como se fosse um governo paralelo.

O filme começa com jovens discutindo se a pessoa que está sentada logo adiante do grupo deles, no Deserto do Saara, é homem ou mulher. Um acha que é mulher, os outros acham que é um homem. Descobrem que é uma mulher nigeriana, Hope (que dá nome ao filme). O filme segue num clima de tensão, pois todos ali têm o mesmo objetivo: atravessar o deserto e dar um jeito de chegar à Europa.

Depois de ser retirada de um caminhão em que estava com outros refugiados, todos homens, e ser estuprada, se não me engano, por homens do exército, ela é abandonada em um local diferente de onde desembarcam os outros. Léonard (Léo), um camaronês, em uma crise de consciência, pensa que não pode abandonar uma jovem à própria sorte no deserto, chama alguns companheiros para procurá-la, mas ninguém quer ir, então ele a procura sozinho. Ele encontra Hope, que está desolada, mas ele a convence a não desistir. Apesar de ele falar francês e ela, inglês, os dois conseguem se comunicar.

A partir daí, os dois passam por uma série de dificuldades, encaram a violência dos guetos, Hope se prostitui para que os dois possam sair daquela vida, e, pouco a pouco, um sentimento de carinho nasce entre eles.



Os próximos filmes do CinéClub serão Aprovado para adoção (Couleur de peau: miel), no dia 31/07, e Vândalo (Vandal), no dia 28/08. Vamos ver se consigo ingresso! :)

***

Uma curiosidade: Jean Thomas Bernardini, dono do Reserva Cultural e da distribuidora Imovision, é francês, por isso muitos filmes exibidos lá são franceses e, provavelmente por isso também, que essa parceria com a Aliança Francesa deu tão certo (o CinéClub existe pelo menos desde que cheguei em São Paulo, em 2009). Acredito que a proposta de Bernardini era exatamente essa: trazer filmes franceses para divulgar a cultura de seu país de origem e também filmes mais autorais, de países menos conhecidos, por ele próprio ser amante desse tipo de filme.

Já fui a várias sessões bacanas no Reserva e sou fã do lugar. Teve uma vez em que exibiram o filme Soul Kitchen, de Fatih Akin, sobre um imigrante grego que trabalhava como cozinheiro na Alemanha, e levaram o Erick Jacquin (é, aquele do MasterChef, antes de ele ser tão famoso) para falar um pouco sobre a experiência dele como imigrante e como chef. Foi muito bacana. Ele disse que veio, basicamente, por causa da grana. O patrão dele, dono de um restaurante, abriu uma filial em São Paulo e o chamou para trabalhar aqui, pelo triplo do salário que ele ganhava na França. Aí ele veio e acabou ficando.

Em outra ocasião exibiram não lembro que filme e depois levaram uma modelo e uma agente de modelos para um bate-papo com a plateia depois da sessão (o tema do filme provavelmente estava relacionado ao mundo da moda, mas realmente não lembro qual foi).

E outra vez o Eric Belhassen, outro francês, dono da Boca a Boca, agência de pesquisa sobre público de cinema, lançou um documentário que ele dirigiu, Por que você partiu?, lá na Reserva também. Fui como "convidada" em uma sessão-pesquisa sobre o filme, e foi muito bacana. O filme é sobre chefs franceses que deixaram a França para vir trabalhar no Brasil. O Jacquin participa desse documentário e, pelo que lembro, ele meio que maltrata e grita com os funcionários (desnecessário). E existem histórias emocionantes de outros chefs. Tem uma história que nunca esqueço: um chef tinha um sócio, também francês, que cuidava da administração e do dinheiro... um dia o cara sumiu e o chef descobriu que o sócio não fazia depósitos na conta do restaurante, os comprovantes que ele apresentava eram todos falsos... fico imaginando a sensação de descobrir que anos de trabalho árduo foram perdidos, a sensação de ter sido enganado e de não ter mais dinheiro nenhum. Como pode alguém fazer isso? E ainda mais com alguém do mesmo país que ele, que provavelmente veio buscar o mesmo que ele.

Vale a pena:


Encontrei o documentário completo no Youtube: Por que você partiu? 

Quem quiser saber um pouco mais sobre o Jean Thomas Bernardini, pode ler uma matéria que saiu na Folha (não sei em que data) e uma entrevista com ele no site Cine Festivais, em 2014. A história de vida dele daria uma bela biografia! 

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