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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Julieta, de Pedro Almodóvar


Ontem fui ver Julieta, do Almodóvar, depois de ter lido em algum lugar que o filme foi baseado em três contos da canadense Alice Munro. Como gostei muito de Amores inversos, baseado num conto dessa escritora - escrevi sobre esse filme e o conto em que ele se baseou aqui -, estava animada em ver esse. O filme se baseia nos contos "Ocasião", "Daqui a pouco" e "Silêncio", que constam no livro Fugitiva. Vou ler e depois comento!

A sessão das 19h10 no cine Itaú Augusta estava quase lotada. Talvez muitos ali fossem fãs do diretor. Antes de a sessão começar, havia uma garota atrás de mim conversando com o amigo sobre os outros filmes do diretor - ela sabia a sinopse de vários. De certa forma, eu estava um pouco "descrente" do Almodóvar porque Amores passageiros me pareceu meio idiota (pelo trailer), por isso nem fui ver.

No cartaz acima, vemos Julieta, a protagonista, nas versões jovem e madura. À primeira vista ele pode parecer estranho, mas remete a uma cena em que Antía está enxugando o cabelo de Julieta, sua mãe, e, quando tira a toalha, a mãe aparece envelhecida.

A trama do filme é relativamente simples, mas envolve conflitos familiares e relações humanas complexas. Julieta está prestes a se mudar de Madri para Lisboa com Lorenzo, seu namorado, quando encontra, por acaso, Beatriz (Bea), amiga de sua filha Antía. Bea lhe conta que encontrou Antía, também por acaso, pouco tempo antes, então Julieta desiste da mudança e termina com Lorenzo, pois tem esperança de encontrar a filha, com quem não tem contato há doze anos.

Como uma tentativa de resgatar o passado de forma mais palpável (?), Julieta se muda para o mesmo prédio em que morava com a filha, antes de ela "sumir", e começa a escrever uma longa carta a ela, contando coisas que não teve oportunidade de contar antes. Assim, ficamos sabendo que ela conhece Xoan, pai de Antía, em um trem, em uma noite fria e com muito vento. Tem uma cena linda em que um cervo aparece correndo pela neve ao lado do trem. Antía é gerada nesse dia.

Pouco tempo depois, a convite de Xoan, Julieta vai visitá-lo em sua casa à beira-mar, e a empregada conta que a esposa de Xoan faleceu alguns dias antes. Julieta acaba indo morar com Xoan, tem Antía, e os três formam uma família feliz. Até Xoan morrer no mar enquanto pescava (ele era pescador), sob uma tempestade devastadora. Depois disso, Julieta cai em depressão e é cuidada por Antía e Bea. Com 18 anos, Antía vai para um retiro espiritual nos Pirineus e desaparece, deixando para trás tudo e todos que ela conhecia até então. Em doze anos, manda apenas um cartão de aniversário próximo da data de seu próprio aniversário de 19 anos para a mãe, sem nada escrito e sem dados de remetente. Vários detalhes vão enriquecendo a trama e nos permitem conhecer melhor os personagens.

Sempre achei curioso o fato de as pessoas "sumirem" da vida das outras como se fugissem de assombrações, quisessem esquecer o passado ou desejassem nunca ter vivido tal passado com tal pessoa. Ainda não conheci ninguém que tenha sumido para saber o que leva alguém a fazer isso, só sei de pessoas que foram deixadas para trás e, de certa forma, nunca mais foram as mesmas. As relações humanas são permeadas por coisas invisíveis e indizíveis, e às vezes acabam dessa forma abrupta. Talvez quem parte nunca tenha noção do nível de vazio e trauma que vai deixar no outro. E a gente nunca vai saber o que de fato acontece dentro da cabeça e do coração das outras pessoas para elas fazerem as escolhas que fazem. 

O filme também pode ser lido como o amor incondicional de uma mãe. Mães nunca deixam de amar seus filhos - embora haja controvérsias, em geral, é isso que acontece, ainda que os filhos sumam por livre e espontânea vontade.



Obs.: procurei o significado do nome Antía, que para mim soa estranho, e um dos significados é "flor". Antía também foi uma santa siciliana do século II que morreu como mártir. Li sobre esse nome aqui.


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