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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Aprovado para adoção, de Jung e Laurent Boileau



[ATENÇÃO: ESTE POST CONTÉM SPOILERS!]

Ontem a Marina e eu fomos ver Aprovado para adoção, na sessão do CinéClub no Reserva Cultural.

Eu tinha lido a sinopse, achei interessante por se tratar de uma família europeia que adota uma criança coreana. Fiquei imaginando de antemão os conflitos internos do protagonista e também o choque cultural (que, de fato, acontecem). 

Como sempre, antes da sessão, a moça da Aliança Francesa falou um pouco sobre o filme. 

Chegada de Jung sendo filmada

Para minha surpresa, o filme na verdade é uma animação autobiográfica de Jung, um quadrinista coreano adotado por uma família belga quando tinha cinco anos; os desenhos foram feitos pelo próprio Jung. Dirigida pelo francês Laurent Boileau, a animação mescla algumas imagens filmadas por um tio adotivo de Jung com uma Super 8 e cenas de quando ele viajou para a Coreia, para gravar um documentário que acabou resultado nessa animação (essa informação eu li nessa entrevista com ele, em francês).


A animação foi baseada na HQ Couleur de peau : Miel (Cor de pele: Mel), que Jung já tinha lançado; o título da animação em português não tem nada a ver com o original porque foi baseado no título em inglês.

Procurei pela HQ e ela ainda não foi lançada no Brasil. São três volumes publicados respectivamente em 2007, 2008 e 2013 pela editora belga Quadrants (dei uma olhada no site, bem legais as publicações!). Imagino que o hiato entre a publicação do segundo e do terceiro volume tenha acontecido porque o Jung ficou trabalhando na animação, lançada em 2012. Encontrei essas informações sobre as HQs na Amazon da França. Se eu fosse comprar os três volumes, gastaria, hoje, 53,85 Euros, fora o frete. Talvez eu me dê isso de presente de aniversário. Li algumas páginas disponibilizadas no site da Amazon e fiquei meio alucinada. Queria muito traduzir isso e propor para alguma editora publicar (a Nemo talvez topasse).


Depois do fim da Guerra da Coreia (1950-1953), estima-se que 200 mil crianças ficaram órfãs - porque os pais morreram ou porque forram abandonadas.

Jung foi encontrado por um policial nas ruas de Seul em 1970 (?), quando tinha cinco anos e foi levado a um orfanato. Essa parte ficou um pouco confusa, mas, pelo que entendi, esse orfanato tinha contato com orfanatos na Europa e nos Estados Unidos e, depois de uma avaliação médica, Jung e milhares de outras crianças eram "aprovadas para adoção" (o responsável atestava isso na ficha da criança) e elas seguiam para outros orfanatos em países estrangeiros, onde eram adotadas por famílias locais.


Jung foi adotado por um casal que já tinha outros quatro filhos, todos loiros. Destaco isso, porque o fato de Jung ter uma aparência inegavelmente asiática era motivo de zombaria e preconceito entre seus colegas da escola.



Nessa ilustração falta Valerie, a irmã coreana mais nova de Jung


Depois de um tempo, o casal adotou uma menina coreana de 11 meses. Jung não gostava dela talvez por ela ter roubado seu lugar de "filho asiático" na família ou por ela lembrá-lo da origem de ambos, ou por motivos que nem ele sabia explicar.

Jung é uma criança "problema", sempre se mete em confusões, apronta muito (necessidade de chamar atenção? carência?), é castigado pelos pais, mas continua aprontando.

Ele teve uma fase bem engraçada de adoração ao Japão. Nessa época, queria ser japonês e não coreano, praticava artes marciais e ouvia música japonesa bem alto, o que irritava os irmãos. 


Apesar de aprontar muito e não gostar de estudar, gostava muito de desenhar.


É comovente, porque, com o desenho, ele tenta contar a si mesmo a história dos pais e sua própria história. E quando ele desenha ou deixa a imaginação correr solta, muitas vezes está buscando a mãe biológica e explicações - os traços dessas cenas são diferentes das demais, são meio borradas, oníricas. Apesar disso, ele, enquanto narrador, enfatiza que não sente mágoas dela.

Aos poucos, ele vai se tornando um jovem tímido e com poucos amigos. Sente-se confortável apenas com uma amiga coreana (também adotiva), que estudava no mesmo colégio que ele e gostava de seus desenhos. 

Com cerca de 17 anos, vai morar em um abrigo da igreja para refletir melhor, pois estava se sentindo estranho dentro da própria família e consigo mesmo. Nesse período meio curto (parece durar algumas semanas), come muito arroz com pimenta Tabasco, o que lhe causa sérios problemas de estômago. O padre que o estava ajudando liga para os pais de Jung, e a mãe vai buscá-lo para levá-lo ao hospital.

Ele fica internado, mas se recupera e volta para casa. E conta que, por sorte, se salvou, diferentemente do que aconteceu com outras pessoas coreanas adotivas que ele conhecia - vários tentaram suicídio (e eu que pensava ingenuamente que bastava adotar, cuidar, amar e orientar crianças sem pais biológicos que tudo daria certo no final... a realidade é muito mais complexa; é bom que eu tenha desistido da ideia porque não teria suporte emocional para vivenciar certas coisas). Sua irmã Valerie, que tinha um nome em coreano antes de ser "Valerie", morreu em um estranho acidente de carro aos 25 anos, sugerindo que ela quis morrer.

O fim é um pouco abrupto. Quando ele volta do hospital, a mãe que, segundo ele, não era boa em demonstrar sentimentos, acaba lhe contando que seu primeiro filho biológico morreu e Jung ocupou o lugar desse filho no coração dela. Entendi que, por meio dessa conversa, a mãe conseguiu comunicar que ela o considerava um filho "de verdade" e, mesmo sem dizer diretamente, que ela o amava. A cena final dá a entender que ele, por fim, se reconcilia consigo mesmo e com a família.


Encontrei o filme todo, dublado em português, no YouTube (a qualidade não é boa, mas quebra o galho).

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