Pages

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Desistências e fracassos

Ontem fui para a aula de história da tradução imaginando o que o professor pensa sobre projetar e ler textos em sala de aula e fazer comentários aleatórios e supostamente engraçados no meio das frases enquanto tenta explicar a matéria (para mim, de forma incompreensível). Ele não tem nem o trabalho de preparar uns slides com tópicos de forma organizada; as aulas parecem todas improvisadas - para que se dar o trabalho, né? E fico abismada de ele ainda ganhar para fazer isso, não, não é trabalho voluntário.  

Apesar do desânimo e do saco cheio (contei 23 alunos na aula ontem; no começo do curso éramos cerca de 60), decidi continuar indo a essas aulas para evitar o sentimento de fracasso quando desisto de alguma coisa. Comecei, então preciso ir até o fim, pensei e decidi. O fato de as aulas não me acrescentarem nada e só me darem cansaço são meros detalhes. Comecei, e agora vou até o fim. Questão de honra. Pelo menos a resenha obrigatória no fim das aulas vai servir para algum aprendizado, ou pelo menos assim espero.

Durante o trajeto de volta da aula, caminhada e metrô, fiquei pensando nos meus fracassos, nas coisas que eu queria e não consegui, nas possibilidades das quais abri mão e em tudo que deixei pela metade. Sei que insistir em algo que não vale a pena é uma idiotice e uma perda de tempo, e que desistir não é necessariamente sinônimo de fracassar, mesmo assim, o que sinto é inevitável.

Já fiz natação quando era criança, e também pratiquei vôlei e judô. Cada esporte durou, no máximo, dois anos na minha agenda. Ainda bem que minha mãe não me colocou no balé, que eu pedia tanto para fazer, porque teria sido dinheiro gasto à toa... tutu, sapatilha, meia-calça, nada disso deve ser barato, fora a mensalidade das aulas.

Com uns 9 ou 10 anos, fiz aulas de órgão eletrônico (isso ainda existe?) que duraram mais ou menos um ano. Como eu não tinha o instrumento, praticava na escola (ainda bem que nossa casa era pequena e não tinha lugar para colocar um instrumento daquele tamanho, senão talvez meu pai tivesse comprado um). Não lembro bem das aulas. Só que a professora era crente e gorda e que fui muito a contragosto tocar no recital de fim de ano - eu odiava (e ainda odeio) ser o centro das atenções.

Com 12 ou 13 anos, entrei num grupo escoteiro (do ar) no Sesi de São José dos Campos e saí cerca de um ano depois.

Já perdi as contas de quantas vezes comecei a estudar japonês (vamos ver, desde os 12, já estudei com meu avô paterno, que sentia que era uma missão ensinar japonês para todos os netos, depois passei por aulas em escolas de idiomas, em uma associação japonesa em Rio Preto e duas vezes pelo Kumon). Da próxima vez que eu começar isso, vou até o fim. E depois quero fazer aquele curso de tradução de japonês na Aliança.

Com 13/14 anos também fiz umas aulas de corte e costura e tricô, mas não evoluí muito (eu tinha medo de usar a máquina de costura - e se a agulha perfurasse os meus dedos?). As aulas de corte e costura pretendo retomar quando tiver tempo e não tiver outras prioridades.

Com 15/16, fiz aulas de pintura a óleo. Cheguei a pintar uns quadros, que o professor finalizava de um jeito bonito e profissional. Perguntei se eu podia assinar, ele disse que sim, é claro, então eu assinava - meu nome e o ano. Meus pais emolduraram alguns. Tem um pendurado na sala da casa deles. Essas aulas duraram mais ou menos um ano e meio.

Quase fracasso: pensei mil vezes em desistir da faculdade de tradução ao longo dos quatro anos - eu gostava do curso e adorava os colegas, mas não suportava Rio Preto. Odiava o calor, a falta de eventos culturais significativos (exceto o festival de teatro), as músicas sertanejas em todo lugar, as baladinhas universitárias de merda, a sensação de estar no meio do nada, a falta de perspectivas de estágio na área de tradução. Lembro que a Aline Storto, minha irmã de coração, colega de turma e roommate na época disse para eu terminar aquilo logo e depois eu poderia fazer qualquer outra coisa, aí fui até o fim. Foi um dos melhores conselhos que já recebi na vida, e a Aline sabe que sou muito grata a ela por isso.

E o que mais?

Desisti do curso de alemão em Rio Preto, porque a professora se mudou e eu não quis procurar outra (era o último ano da faculdade e dali a uns meses eu sairia de lá). As aulas duraram quase três anos, com algumas interrupções, fiquei com vontade de chorar na despedida e a professora disse para eu continuar estudando alemão. Vou continuar, mas ainda não sei quando. Eventualmente vou querer conhecer a Feira do Livro de Frankfurt e gostaria de ir falando pelo menos um alemão intermediário, embora todo mundo por lá fale inglês (é o que dizem).

Tentei Vestibular para jornalismo na USP e na UFRGS alguns anos depois de me formar em tradução e não passei. Ou eu fazia jornalismo em uma dessas universidades (as melhores do país, na minha cabeça) ou não fazia. Não fiz. (Se bem que esse foi um fracasso bom; não sei se um diploma em jornalismo faria diferença na minha vida hoje em dia... tenho a impressão de que teria sido muito esforço e tempo à toa. A revista Os caminhos da Terra, em que eu pretendia trabalhar como viajante e jornalista e eventualmente tradutora - olha a minha pretensão! -, deixou de ser publicada um tempo depois, e os cadernos culturais dos jornais estão sendo cada vez mais cortados porque não dão dinheiro, ninguém lê essas coisas etc. Ou seja, só sobrariam os trabalhos chatos e mal pagos que ninguém quer fazer.)

Prestei Vestibular para editoração na USP também depois de ter me formado em tradução e não passei. E não tentei de novo. Se eu tivesse persistido até conseguir, teria sido uma ótima formação complementar para a carreira de editora. Mas, beleza, a vida segue.

Deixei o curso de odontologia em São José, mesmo  sem ter de desembolsar nada, porque a faculdade era pública - se fosse privada, acho que a mensalidade chegaria fácil a R$ 3 mil.

Abandonei as aulas de tcheco há alguns anos (quero voltar a estudar isso depois!).

Não fiz o TCC do MBA da FGV.

Essas desistências superam muito o total de cursos que consegui terminar: datilografia (aos 10), informática (aos 13), inglês (dos 11 aos 16), uma oficina literária (aos 16), espanhol (dos 15 aos 17), a faculdade de tradução (dos 18 aos 22), história do cinema (aos 19), fotografia (aos 20 - pedi de aniversário para o meu pai, era um curso rápido que fiz nas férias de fim de ano em São José), malemá o MBA da FGV (sem o TCC, aos 34).

Por todas essas desistências e para evitar o sentimento de fracasso total, quero e vou continuar as aulas de história da tradução e o MBA em Book Publishing. 

Tentando ser positiva, imagino que várias coisas das quais desisti talvez tenham sido boas experiências, mas não me instigavam tanto a ponto de querer continuar (esportes, pintura e música) ou não eram prioridade no momento. Nada me impede de retomá-las em algum momento no futuro. Então não preciso ficar tão desesperada. Não é nada grave e irreversível. 

E depois de pensar sobre tudo isso, concluí que sempre fui uma pessoa meio "inquieta" ou, como diz minha mãe, "que não consegue parar quieta". Na reunião familiar do fim de semana passado, uma prima bem mais velha comentou que eu precisava conhecer uma das filha dela (minha prima de segundo grau?), a Tainá/Tayná/Thainá, não sei como se escreve, porque ela era muito parecida comigo, que gostava de muitas coisas/ se interessava por muitas coisas. Meu pai comentou faz tempo que achava que a Tainá tinha estudado/ estava estudando Cinema nos Estados Unidos, mas minha prima disse que ela vai voltar para São Paulo em breve. Fiquei curiosa (e imaginando os papos sobre cinema que poderiam surgir de conversas com ela) e contente por saber que não sou a única "inquieta" da família. Devo estar dentro dos parâmetros de normalidade. Que bom. 

2 comentários:

Anônimo disse...

Parece maldade, mas não é... Mas me senti bem melhor depois de ler este teu texto! E eu pensando que minha vida sim que fosse uma sucessão de fracassos e desistências. E eu aqui quase ao ponto de fazer uma besteira. Algo sem volta, se é que poucas palavras bastam. Mas ao ler o teu texto, percebi que não sou o único assim.

Bom, eu cheguei aqui ao acaso, mas muito obrigado! Essa é uma das vezes em que a vida nos coloca no lugar certo e no momento certo, então só tenho a agradecer!



aline naomi disse...

Olá, Anônimo!

Imagino que seja muito mais fácil para as pessoas falarem das "glórias" do que dos fracassos que temos na vida. E nesse post me restringi a fracassos de estudo e (mais ou menos) profissionais; imagina os fracassos da vida pessoal... alguns seriam impublicáveis e não vêm ao caso, mas, sim, eles existem e não são poucos.

Não sei qual o seu caso, mas se estiver nos últimos anos de alguma faculdade chata e sem sentido e/ou sem motivação para continuar, recomendo o mesmo que minha amiga Aline: termina isso logo e depois você pode fazer o que quiser. Se isso fizer sentido para você. Às vezes as coisas são bem difíceis, dá muita vontade de desistir, mas vale a pena terminar. Ainda que seja só pelo "dever cumprido".

Obrigada pelos comentários nos outros posts também! ;)