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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Nadando contra a corrente e Morrendo para viver


Hoje terminei de ler Thammy - Nadando contra a corrente, biografia do Thammy Gretchen, filho da Gretchen, escrito por Marcia Zanelatto.

Nessa biografia, os leitores e fãs têm oportunidade de conhecer um pouco mais a intimidade do artista (?). A escrita é mediana. Talvez a autora tenha seguido recomendações da editora para escrever um texto relativamente "simples", nivelado mais por baixo, para poder atingir um público mais abrangente.

Algumas pessoas podem pensar que Thammy se assumiu lésbica e depois transexual para "chamar a atenção", mas, segundo o livro, ela não se identificava muito com roupas e brincadeiras de menina desde criança. Em um trecho, ela conta que, escondido, costumava vestir as roupas do pai e se sentia bem. Não há como saber se tudo que está ali é verdadeiro, mas não acredito que alguém se mutilaria, se submetendo à retirada dos seios, apenas para "chamar a atenção" ou para "estar na mídia".


De tudo que li, o mais chocante foi saber que Thammy parou de estudar na 6ª série, porque não gostava de estudar e, um pouco depois, foi ser dançarina de palco nos shows da mãe - isso começou quando uma de suas dançarinas faltou. Apesar de não gostar de dançar e nem de vestir roupas sensuais, com as quais não se identificava, Thammy achou que era uma boa ideia, talvez para ficar mais próxima da mãe e conseguir algum dinheiro. O fato de ter parado de estudar e de os pais não terem brigado com ela para que ela continuasse estudando é chocante. Mesmo o pai sendo "rico" (como ele mesmo dizia para a filha adolescente) e a mãe, famosa, não sei como permitiram que ela cometesse esse erro. Hoje, Thammy diz que os pais não deviam tê-lo deixado fazer tudo que ele queria.

Depois que Thammy descobriu que gostava de mulheres, passou a ficar com várias; namorava, mas traía as namoradas, aparentemente, porque não conseguia se controlar e adorava frequentar baladas. Apesar disso, parece ser fiel à última namorada, Andressa (cujo nome aparece tatuado em seu braço na foto da capa), que lhe deu bastante apoio quando ele descobriu que havia nascido no corpo errado e que queria uma aparência masculina.

Pelo texto, é possível notar a confusão e angústia de Thammy, o que me lembrou a história da Lili Elbe, a "garota dinamarquesa" (quero escrever sobre ela em outro post), que passou pela primeira cirurgia de adequação sexual da história, e também a menina americana Jazz (há alguns anos vi esse documentário sobre ela e gostei muito).

Não sei até que ponto essa biografia esclarece as pessoas sobre o que é um transexual e contribui para diminuir preconceitos. Talvez nenhuma das duas coisas. Na verdade, fiquei com a impressão de que Thammy quis abrir sua intimidade em um livro, também, por questões financeiras (ao longo do livro, são várias as passagens em que ela tenta arranjar dinheiro de várias formas).

***

Outra biografia mais ou menos nessa linha, só que com muito mais "emoção", é este:



A "coautoria" (eufemismo para "autoria"?) dessa biografia da Andressa Urach, segunda colocada no Miss Bumbum 2012 (eu nem sabia que isso existia!, mais um dado para a minha coleção de informações aleatórias e inúteis), é assinada pelo jornalista Douglas Tavolaro.


Achei interessante o fato de a biografia ser escrita em primeira pessoa; teoricamente, a própria Andressa Urach narra os fatos. Em comparação com a biografia do Thammy, esta biografia está melhor estruturada e escrita, além de ter cadernos com fotos coloridas.

Na primeira parte, ela conta que quase perdeu a vida por ter feito aplicações de hidrogel na perna, por motivos estéticos, que começaram a dar problema.


Na segunda parte, em flashback, conta episódios de seu passado: o abuso por um pedófilo quando tinha sete anos, a relação tumultuada com a mãe, a indiferença do pai (pelo que lembro, a mãe engravidou por interesse - ou pelo menos foi essa a impressão que tive), o filho que ela teve quase aos 17 anos, a separação do marido e o início de sua caminhada rumo à autodestruição.


 Diário em que Andressa escreveu sobre os abusos da infância

Na terceira parte, ela confessa que foi prostituta, algo que até então ela negava, e, para o deleite dos leitores, conta sobre os programas. Além disso, fala sobre seu envolvimento com drogas e de sua ambição pela fama.
Com o passar do tempo, infelizmente, eu me tornei uma das prostitutas mais caras e desejadas do Brasil. Meu corpo estava torneado, perfeito, em decorrência de cirurgias plásticas e anabolizantes, e despertava a atenção. Ainda cobrando por programas em Porto Alegre, sabia que existia um só caminho para aumentar meu valor e trilhar uma escalada ainda mais audaciosa: eu precisava ser famosa.
Dois episódios parecem bastante fantasiosos (e soaram meio hilários para mim) e dão mais dramaticidade aos relatos: quando ela conta que encomendou vários trabalhos de magia negra para que as outras prostitutas do bordel onde trabalhava se dessem mal ("Para um dos meus alvos, uma garota de programa que me esnobava, exigi dos espíritos que fizessem nascer fungos no órgão genital dela. E aconteceu da maneira como determinei: surgiram sete furúnculos em sua parte íntima") e quando ela conta sobre o caso/ programa com o jogador de futebol Cristiano Ronaldo.

Na quarta e última parte, ela conta sobre sua recuperação e sobre a fé que passou a ter (depois de ter passado bem perto da morte, ela se converteu à Igreja Universal), com direito a algumas citações bíblicas.


Apesar de não ser o tipo de biografia que eu normalmente leria, gostei de ler essa porque estava bem escrita e instigante. Dá uma ideia geral do que se passa na cabeça das pessoas que fazem tudo pela fama e pelo dinheiro, e chuto que a maioria dessas pessoas deve vir de lares desestruturados, como é o caso da Andressa. Só penso que ela poderia ter escolhido um caminho menos clichê... fazer um monte de besteiras e depois se converter à Igreja Universal é algo bastante clichê para mim.

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