Pages

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues



Ontem também terminei de ler Sem vista para o mar, da Carol Rodrigues, que ganhou o Prêmio Jabuti 2015 na categoria Contos e Crônicas.

Comprei o livro no começo do ano, diretamente com ela e pedi uma dedicatória:




Como ela foi publicada por uma editora independente, a Edith, ela mesma vende os livros (quem quiser comprar, o e-mail dela é carol.santos.rodrigues@gmail.com).

Li sobre a Carol Rodrigues no ano passado (uma das matérias foi essa), procurei algo dela para ler na internet antes de decidir se corria atrás para comprar o livro ou não, porque ele não é vendido nas livrarias. Então encontrei esse conto, "Os dentes não sabiam como agir" (um dos meus preferidos do livro), gostei e fiquei procurando como comprar. Vi esse vídeo, em que ela dá uma entrevista para o Rodrigo Simon, da "Univesp TV", e, no final, tinha o e-mail dela.

Para quem nunca ouviu falar de Carol Rodrigues e tem interesse em saber quem é ela, recomendo essa entrevista escrita: Quem é Carol Rodrigues? 

Bom, fazia muito tempo que eu não lia nada com um trabalho de linguagem "original", então foi uma surpresa boa ler esses contos. Em vários momentos tive a impressão de que a prosa se aproximava da poesia - e, apesar de eu não ser leitora de poesia, às vezes o efeito disso era bem interessante: 

Um menino de cabeça raspada (que a mãe abstrai do cuidado) compra um milho de espiga na beira da praça. Nessa beira da praça tem uma pedra (parece pedra arpoadora de mar) e dessa pedra dá ver o pôr do sol. Dela declina um horizonte e se inclina lá longe uma ausência de mar. E ainda nela o menino quer ver o pôr do sol e comer milho sentado na fenda perfeita pra ele caber. Cineminha ancestral ele quer sem saber. (Trecho inicial de "Sem vista para o mar", conto que dá nome ao livro.)
Na entrevista escrita que citei antes, a Carol comenta um pouco sobre seu processo de escrita:
Se eu penso muito eu estrago a história. Geralmente é uma imagem, um nome, alguma faísca que não tem uma intenção dramatúrgica envolvida.
Por ela pensar e trabalhar dessa forma, imagino que se um dia ela decidir escrever poesia, vai ser bem fácil para ela.

Nunca fui muito fã desse tipo de escrita que chama muito mais atenção para a forma do que para o conteúdo (apesar de gostar de algumas obras de Guimarães Rosa), mas o resultado que a Carol consegue é muito bom. Confesso que alguns contos não consegui entender direito. Por exemplo, "Teoria do eriço" - não sei que raios esse conto quer dizer... achei bem confuso.
O pio do pelo em pé faz pintura de fraqueza mas é um tipo de defesa que faz do nume um naipe exato feito o adorno do avestruz o matiz da fuga camaleoa a juba da leoa e o veneno do sapo. (Trecho de "Teoria do eriço")
Eu nunca conseguiria escrever dessa forma, por isso fico admirada. Para mim, as ideias e as imagens que advêm delas precisam estar mais ou menos claras - tanto quando escrevo e principalmente quando traduzo. Em linhas gerais, cuido para que a linguagem não chame muita atenção, porque a minha intenção primeira é que o conteúdo ou a história ou algum tipo de verdade se sobressaia. É difícil quando estou lendo e não consigo formar imagens ou sequer entender o que está acontecendo, quando tudo é muito vago e pode ter qualquer interpretação. Talvez por isso não gosto muito de poesia. Concluí, com a leitura desse livro, que é preciso ter um certo "refinamento mental" para absorver os poemas (e prosas como essa) e depreender alguma "verdade" neles. Algumas rimas ou repetição de sons me irritam um pouco porque me soam como ruídos desnecessários.

Ao todo são 21 contos e a maioria não tem relação entre si, e todos se passam em cidades do interior ou pelo menos dão essa sensação. O que inspirou a Carol a escrever esses contos, segundo ela, foi uma viagem que ela fez a Presidente Prudente - ela foi olhando o nome das cidades, achou singular e que daria para extrair algo de interessante disso.

Preciso e vou reler esse livro mais para frente. 

Observação: Fiquei pensando no quanto um tradutor de português para alguma língua estrangeira penaria ao trabalhar com o texto da Carol... se bem que isso já não é problema meu... :)


2 comentários:

Carolina disse...

Adorei seu blog, vou seguir! Tb sou amante do cinema e da literatura. E tradutora tb, só que de espanhol. A Carol vai este ano na FLIP, acabou de sair a programação. Vou tentar comprar o livro dela.

aline naomi disse...

Carolina,
obrigada pelo comentário! :)
Que legal que a Carol Rodrigues vai pra Flip esse ano! Nunca fui pra Flip, pra falar a verdade, mas adoro Paraty.