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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Vândalo, de Hélier Cisterne


Domingo de manhã fui ver o filme Vândalo (Vandal), uma coprodução francesa e belga de 2013, na Reserva Cultural com o Fábio. Esse foi o terceiro e último filme do ciclo "Migrações" do CinéClub e valeu a pena. Em geral, a curadoria da Aliança Francesa para o Cinéclub é muito boa.

Vândalo foi dirigido por Hélier Cisterne, que hoje tem 34 anos e, na época das filmagens, devia ter uns 30 (coloquei a idade porque fiquei impressionada, ele é bem jovem e o filme é bom), e traz um cenário incomum para filmes: o do grafite.

Chérif é um adolescente de 15 anos, filho de pais separados, que mora com a mãe, o padrasto e o irmão menor. Quando ele "pega emprestado" o carro de alguém, sendo que essa não é sua primeira infração, a mãe dele convence a oficial de justiça a dar mais uma chance para Chérif. Em vez de ser detido, ele vai para a casa dos tios, em Estraburgo, na França, onde fará um curso profissionalizante de pedreiro.

Em uma noite, Thomas, primo de Chérif, um jovem mais ou menos da idade dele, o chama para sair. Os dois, então, saem de casa escondidos dos adultos e se encontram com um grupo de amigos de Thomas. Nesse dia, Chérif fica encarregado de vigiar a área e avisar caso alguém se aproximasse, enquanto os outros garotos grafitavam as letras ORK, marca do grupo, em um muro. Logo Chérif é integrado ao grupo e passa a grafitar também.

O pai de Chérif também mora em Estrasburgo com a segunda esposa, grávida, em um apartamento pequeno (por isso ele mora com os tios) e lhe arruma um estágio como ajudante de pedreiro na construção onde trabalha. Apesar de trabalhar na obra com o pai, Chérif parece alheio à relação com ele, não há intimidade, ele não se conecta com as origens árabes do pai e talvez nem se reconheça como um "árabe".

[A partir daqui, contém spoilers!]

Thomas mostra a Chérif um vídeo com uma ação de um grafiteiro misterioso conhecido como "Vandal", que grafita em espaços aparentemente inacessíveis (prédios muito altos e sem escadas ou andaimes) em toda a cidade. Ele é muito rápido e seus traços são precisos. O grupo de Thomas estava tentando descobrir a verdadeira identidade desse grafiteiro. Havia admiração e rivalidade pelo grupo em relação a Vandal.

Vários grafites que aparecem no filme, na verdade, foram feitos pelo grafiteiro francês Lokiss - segundo pesquisei, ele começou a grafitar em meados dos anos 1980. A apresentadora do CinéClub comentou que o Lokiss é um dos grafiteiros mais famosos na França.

Abaixo, um dos grafites que Lokiss fez para o filme; há outras fotos desse trabalho aqui. E também esse vídeo curtinho.


Chérif faz amizade/ se envolve com Élodie, a única menina da escola profissionalizante e, diferentemente dos outros garotos, a única que o acolhe. Certo dia, talvez um pouco para impressioná-la, leva-a para o esconderijo dos ORK, onde também poderiam ficar à vontade. Mas alguns garotos do grupo surgem e querem tirar satisfação, pois o combinado era que ninguém do grupo falaria sobre os grafites para pessoas de fora e muito menos levaria pessoas estranhas ao esconderijo.

Então Chérif passa a ser preterido/ é expulso do grupo ORK. Para tentar ganhar a confiança do grupo novamente, conta que viu Vandal. O grupo, cético, se deixa conduzir por Chérif a uma velha estação de trem, onde o grafiteiro foi visto. Mais ou menos à meia-noite, surge uma pessoa toda vestida de preto e encapuzada, é Vandal. O grupo corre atrás dele (embora para mim não tenha ficado claro o que exatamente fariam se o pegassem) por alguns minutos e depois é visto em cima do muro e sendo eletrocutado por uma cerca elétrica. Ele cai, aparentemente sem vida, perto da linha de trem. Os meninos correm. Chérif e o primo ligam de um orelhão para pedir ajuda.

Dias depois, ao lerem o jornal, os ORK ficam sabendo que um jovem de 16 anos foi encontrado inconsciente, às 2h da manhã, perto da linha do trem; ele é filho do prefeito e está em coma.

Depois disso, Chérif passa a se sentir cada vez pior, ainda mais depois que descobre o esconderijo de Vandal, em uma propriedade privada perto da estação. Lá, Chérif descobre muitas latas de spray e grafites nas paredes. 


Tive a impressão de que os grafites falavam sobre libertação, de liberdade, que, simbolicamente, era o que os jovens buscavam por meio do grafite e talvez o que todos os jovens buscam. 

Creio que no momento em que Chérif vê a arte de Vandal é como se ele se visse ali. Ele era Vandal, e Vandal também era ele. E, com isso, vem o peso maior de ter contribuído para o aniquilamento de um garoto como ele, que provavelmente se sentia como ele e buscava as mesmas coisas que ele. Essa cena é a minha preferida.

Gostei do filme porque gosto de histórias sobre esse período da vida em que as pessoas estão tentando se encontrar e encontrar um lugar no mundo. Em geral, tudo é confuso (relações familiares e de amizade, descobertas amorosas e sexuais, responsabilidades da vida adulta, escolhas importantes a ser feitas), no entanto, também é interessante observar como as personagens lidam com a situação.

Para quem sabe francês, encontrei essa entrevista com o diretor Hélier Cisterne, em que ele fala sobre o filme.



Trailer:

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