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terça-feira, 6 de setembro de 2016

História, sangue e glória

Na semana passada as viagens de ônibus do e para o trabalho foram meio irritantes. Várias pessoas falando ao celular se sentaram ao meu lado e ficaram falando muito, às vezes durante todo o trajeto (cerca de uma hora e quinze minutos). Não entendo a razão disso. Conversas banais que poderiam nem existir (ou pelo menos não naquele lugar e momento) ou conversas sobre assuntos particulares para todo mundo ouvir.

Tento cada vez mais não ligar, mas é impossível. Com alguém falando ao meu lado ou em alguma poltrona próxima é impossível ler ou dormir. Mesmo colocando o protetor de ouvidos que comprei há algum tempo na Daiso ou o fone de ouvido com música, é impossível deixar de escutar as pessoas falando e não me irritar.


Não entendo a necessidade (falta de noção?) de as pessoas se comportarem dessa forma dentro do transporte público. Ninguém está ali porque quer, logo, por que não pensar no bem-estar coletivo?

Segundo a educação que meus pais me deram desde sempre, convém se comportar em público e não atrapalhar os outros - ou atrapalhar o mínimo possível. Lembro dos meus pais me falando: "Por que você está deixando o carrinho [de compras] no meio do caminho? As pessoas querem passar" ou "Vamos ficar ali no canto para não atrapalhar as pessoas [quando eu e meu irmão estávamos perto de entradas e saídas]", enfim, toda uma educação baseada em bons modos visando a boa convivência com outros seres humanos. Por isso, evitar atrapalhar os outros é algo natural e tem a ver com um comportamento civilizado. Daí a dificuldade de entender por que algumas pessoas não estão nem aí se estão perturbando ou não os outros.

Além dessas pessoas irritantes, teve um dia que um garoto ouvindo música com fones de ouvido que deixavam escapar o som se sentou do meu lado. Como não conseguia me concentrar na leitura, guardei o livro e comecei a prestar atenção no que ele estava ouvindo. Notei que ele colocava uma única música no "repeat" e as únicas palavras que eu conseguia distinguir eram "história", "sangue" e "glória". No dia seguinte ele entrou no ônibus e se sentou em alguma poltrona próxima, porque eu conseguia ouvir o som escapando do fone dele... e ele continuava ouvindo a mesma música!

Em casa, digitei "história, sangue e glória música" no Google e encontrei "Carta aos missionários", da banda de rock Uns e Outros, da qual nunca tinha ouvido falar, mas li que fez um certo sucesso nos anos 1980.



A letra é essa:

Missionários de um mundo pagão
Proliferando ódio e destruição
Vêm dos quatro cantos da terra
A morte, a discórdia
A ganância e a guerra...
E a guerra

Missionários e missões suicidas

Crianças matando crianças inimigas
Generais de todas as nações
Fardas bonitas, condecorações
Documentam na nossa história
O seu rastro sujo de sangue e glória

Missionários de um mundo pagão
Proliferando ódio e destruição
Vêm dos quatro cantos da terra
A morte, a discórdia
A ganância e a guerra...
E a guerra

Missionários e missões suicidas
Crianças matando crianças inimigas
Generais de todas as nações
Fardas bonitas, condecorações
Documentam na nossa história
O seu rastro sujo de sangue e glória

Vindo de todas as partes, indo pra lugar algum
Assim caminha a raça humana
Se devorando um a um
Gritei para o horizonte
E ele não me respondeu
E então fechei os olhos
Sua voz, assim me bateu.


Ouvi a música uma vez, duas, três, várias vezes. Depois parei, porque não queria ficar igual ao garoto do ônibus e também porque comecei a pensar que a humanidade vai se autodestruir uma hora dessas. 

Como não sou muito ligada em música, foi uma descoberta legal.

Ah, e sobre as pessoas que perturbam no ônibus, talvez o mais civilizado seria pedir para elas baixarem o volume do som ou a voz ao falarem ao celular, mas não tenho coragem.

Para quem tiver interesse, ano passado escrevi esse Manual de bons modos no transporte público.

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