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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O ano da leitura mágica, de Nina Sankovitch


Não lembro como me interessei pel'O ano da leitura mágica, da americana Nina Sankovitch, mas ele estava na pilha de "livros comprados um dia para ser lidos no futuro". Não sei quando comprei, mas li mês passado, e achei inspirador.

Nina Sankovitch

Depois que Anne-Marie, irmã da autora, morreu de câncer, ela estava vivendo o mais intensamente possível, participando mais da vida dos quatro filhos e de amigos e tentando suprir a necessidade de cuidado e afeto de todos, talvez, como ela mesma diz, tentando viver tudo que a irmã não poderia mais viver.

Ela passou dois anos tentando apaziguar a dor e o vazio causados pela morte da irmã dessa forma, mas não conseguiu. Então, para "se curar", teve a ideia de ler um livro por dia, durante um ano, e resenhar em seu blogue todos os livros lidos (atualmente ela escreve aqui). Detalhe: na época, ela tinha quatro filhos, um marido, uma casa e alguns gatos a ser cuidados também. Apesar da rotina puxada, conseguiu cumprir o projeto e realmente leu um livro por dia, entre 28 de outubro de 2008 e 28 de outubro de 2009.
Eu precisava de consolo agora. E precisava de esperança. Esperança de que, quando a vida mostra seu lado mais cruel, ela voltará a mostrar seu melhor lado. Nós, as meninas, fomos muito protegidas das infelicidades. Mas então tudo mudou. Minha irmã, aquela que me estendeu a mão, estava morta. A vida havia soltado sobre nós suas injustiças, sua dor dispersa ao acaso, a destruição impiedosa das nossas certezas. Eu tentei correr, mas agora tentaria ler. Eu podia confiar na promessa de Connolly de que "as palavras têm vida e a literatura se torna uma fuga, não da vida, e sim para dentro da vida". (p. 32)
No fim, há uma lista completa dos livros lidos; são livros diversos, escritos em várias partes do mundo. Entre eles, um brasileiro: Maracanã, Adeus, de Edilberto Coutinho, do qual nunca tinha ouvido falar (e que também não mereceu nenhuma menção no livro). Diante disso, fiquei pensando em que livro eu recomendaria para a Nina. Decisão difícil, mas provavelmente recomendaria Dois irmãos, do Milton Hatoum (em inglês, foi publicado como The Brothers - e encontrei essa resenha de 2002 sobre ele), ou a adaptação para HQ feita pelos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon. Na verdade, ainda nem li o livro do Hatoum mesmo, mas só pela adaptação para HQ e por outros livros dele que li, seria uma boa referência de literatura brasileira contemporânea. Ou talvez Todos nós adorávamos caubóis, da Carol Bensimon. Ou algum livro de contos da Lygia Fagundes Telles. Aliás, o Milton Hatoum vai dar uma palestra na Universidade do Livro, na Praça da Sé, mês que vem e já me inscrevi. Definitivamente, ele é um dos meus escritores favoritos. (Essa semana estou lendo Um solitário à espreita, um livro de crônicas dele - é ótimo!)

Voltando ao livro em questão, entre comentários e conclusões sobre as obras abordadas, Nina conta sobre seu passado, sendo que muitas vezes suas lembranças remetem a ocasiões vividas com a irmã falecida, e também sobre o presente, incluindo seus pais, seus filhos e seu marido. E esse processo de leitura e reflexão acaba fazendo um bem enorme a ela.

Um dos primeiros livros sobre o qual ela comenta é A elegância do ouriço, que a fez lembrar muito de Anne-Marie. Também li esse livro, recomendado pela Tati Niwa há alguns anos e presente do editor no ano passado (retrasado?), e pretendo escrever sobre ele aqui depois. Gostei da forma como a Nina apreendeu esse livro, que foi mais ou menos como eu o apreendi também.

Trechos selecionados que me chamaram a atenção ou com os quais me identifiquei:
[...] eu havia evitado livros sobre a guerra, de ter uma experiência que fosse assustadora, aberrante e incômoda. E agora eu entendia justamente como era importante ler tais livros. Porque testemunhar todos os tipos de experiências humanas é importante para compreender o mundo, mas também para entender a si mesmo. Para definir o que era importante para mim, quem é importante e por quê. (p. 134)
O valor da experiência, real ou imaginada, está no fato de ela nos mostrar como viver - ou como não viver. Ao ler sobre diferentes personagens e as consequências de suas escolhas, eu estava me descobrindo transformada. Estava descobrindo maneiras novas e distintas de suportar as tristezas e alegrias da vida. (p. 135)
Ler um livro por dia durante este ano estava limpando minha mente do mesmo jeito que meu trabalho limpou a bagunça no jardim. Eu estava em meio a uma confusão de dor e medo. Minhas leituras, às vezes doloridas e em geral exaustivas, estavam me tirando das sombras e me levando para a luz. (p. 142) 
Haruki Murakami escreve em suas memórias Do que eu falo quando eu falo de corrida sobre como, depois de decidir se tornar escritor, abordou seu objetivo de um modo peculiar: "Você precisa mesmo ter prioridades na sua vida, estabelecendo em que ordem você deve dividir seu tempo e energia. Se você não estabelece esse tipo de sistema numa certa idade, você não terá foco e sua vida será desequilibrada". Ao decidir que, para ele, escrever seria o foco da sua vida, ele se dedicou a isso, entendendo que haveria outros aspectos da sua vida que ele teria de desistir. Ele não pode desistir de correr (com tendência a engordar, ele corre para se manter em forma), mas socializar e ficar acordado até tarde são atividades que ele exclui da sua rotina. (p. 166)
Eu precisava conversar sobre livros. Porque conversar sobre livros me permitia conversar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa. Com família, amigos e até com estranhos, que entraram em contato comigo por meio do meu website (e que se tornaram amigos), quando discutimos nossas leituras o que estamos discutindo, na verdade, é nossa vida, nossa opinião sobre tudo, desde tristeza até fidelidade, passando pela responsabilidade, de dinheiro a religião, de preocupações a embriaguez, de sexo a roupas sujas e vice-versa. Nenhum assunto era tabu, desde que pudéssemos ligá-lo a algum livro que lemos, e todas as reações eram permitidas, formuladas em termos de personagens e suas situações. (201)
Nossa única solução para a dor é viver. Viver olhando para trás, lembrando as pessoas que perdemos, mas também seguindo adiante com ansiedade e entusiasmo. E repassar esse sentimento de esperança e possibilidade por meio de gestos de bondade, generosidade e compaixão. (p. 211)
[...] qualquer interrupção da vida frenética, dos dias cheios de ocupação, pode restaurar o equilíbrio de uma vida virada de cabeça para baixo. [...] Todos precisamos de espaço para deixar que as coisas se acomodem, um lugar para nos lembrarmos de quem somos e do que nos é importante, um intervalo que nos permita que a felicidade e a alegria da vida voltem à nossa consciência. (p. 211)
Inspirada pela Nina Sankovitch, decidi que se eu conseguir entra na oficina literária do Assis Brasil ano que vem, também me comprometo a ler um livro por dia e a resenhar todos aqui no blogue. A meu favor: terei bastante tempo livre e não terei marido, filhos nem casa para cuidar - no máximo, um quarto alugado perto da PUCRS para organizar. Alguns amigos me perguntaram como andava esse meu projeto e, bom, está tudo mais ou menos pronto, mas fico achando que talvez consiga escrever algum conto melhor/ menos vergonhoso, por isso vou adiando o envio dos papéis exigidos (o prazo é começo de janeiro e o resultado sai em janeiro mesmo). Mês que vem vou revisar tudo e mandar do jeito que está mesmo, porque provavelmente não conseguirei o tempo que preciso para escrever nada muito melhor do que já escrevi até agora. 

2 comentários:

Minhas Impressões disse...

Olá, Aline.
O que acho mais incrível nesse livro (e que eu só descobri agora!) é ele ser uma história real. É inspirador ver que uma mulher conseguiu ler um livro por dia por um ano e ainda assim ter uma vida, apesar das circunstâncias.
Achei boa a indicação de leitura que você daria para ela. Já li "Dois Irmãos" e é realmente muito bom. Quero ler a HQ também. Eu conheci o autor pessoalmente ano passado e quero ler os demais livros dele.
"A elegância do ouriço" é um dos meus livros favoritos! Lembro que na época que o li, achei tão bom que queria que todo mundo lesse, tanto que saí comprando para presentear as pessoas.
Estou na torcida para que você consiga entrar na oficina literária ano que vem!
Abraços.

Minhas Impressões

aline naomi disse...

Incrível e inspirador o que a Nina fez, né?! Também fiquei admirada. A literatura realmente pode mudar a vida da gente - nunca duvidei, mas a Nina é mais uma prova disso.
Que legal que você conheceu o Milton Hatoum pessoalmente!! Eu vou conhecer mês que vem! Estou ansiosa e animada. :)
Obrigada pela torcida, Maria! :))
Abraço!