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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O jardim das palavras, o mangá e o anime


Domingo passado vi O jardim das palavras (Kotonoha no Niwa), de Makoto Shinkai, por recomendação da Ana Igual. Esse anime, lançado em 2013, está disponível no Netflix (o Fábio criou uma conta para mim na conta dele, além de ter adicionado várias recomendações de filmes ótimos na minha lista -  valeu, Fábio! - e, como a Yuri tem um Play Station 3, conseguimos assistir na TV... fico fascinada com essas tecnologias) e também no Vimeo (legendas em inglês) e no YouTube (legendas em português, mas nesse vídeo falta uma parte inicial de mais ou menos um minuto).



Antes de ver o anime, li o mangá homônimo, com roteiro de Makoto Shinkai e arte de Midori Motobashi. No site da New Pop, li que o mangá foi baseado no anime - e não o contrário, como normalmente acontece.

De qualquer forma, tanto no mangá quanto no anime, a história é a mesma, só os finais são levemente diferentes.

Takao é um adolescente de 15 anos que, em dias chuvosos, vai para um parque matar as primeiras (ou talvez todas as) aulas da manhã. No parque, se dirige a um tipo de "quiosque" com bancos, onde fica desenhando modelos de sapatos. Uma curiosidade: Shinkai, o diretor, se baseou em fotos que ele tirou do Shinjuku Gyoen, em Tóquio, para compor o cenário; depois do terremoto de 2011, por recear outro terremoto e a possibilidade de o parque ser destruído, ele queria preservá-lo no anime. Além dessas curiosidades, li várias outras na Wikipedia (em inglês).



No quiosque, Takao encontra uma mulher "misteriosa" e um pouco estranha, pois bebe cerveja e come chocolate logo de manhã. Aos poucos, eles começam a conversar, criam uma certa proximidade e chegam a dividir o almoço que Takao leva.

A mulher, que não revela seu nome e não fala sobre si, é misteriosa tanto para Takao quanto para quem está assistindo. Enquanto o perfil e o dia a dia do jovem são, aos poucos, revelados - ele gosta muito de desenhar e confeccionar sapatos, se sente alheio aos colegas no colégio, seu irmão mais velho está saindo de casa para morar com a namorada, ele mesmo cozinha, a mãe saiu de casa para morar com o namorado, arranja um trabalho em uma lanchonete no verão para juntar dinheiro e se inscrever em uma escola profissionalizante de sapateiros... -, da mulher, não sabemos quase nada. Até Takeo cruzar com ela no corredor de seu colégio e ficar sabendo, por colegas, que ela é Yukari Yukino, uma professora de literatura que havia sido alvo de boatos e fofocas maldosas. Por conta do clima no colégio, Yukari não conseguia mais dar aulas, por isso matava trabalho no parque.

[A partir daqui, spoiler!!]

Takao chega a se declarar para Yukari, mas, por conta da diferença de idade (ela tem 27 anos), ela é prudente e responde que, para ele, ela era a "professora Yukari". Takao, que vinha demonstrando um comportamento bastante maduro para a idade dele, desmorona e provavelmente se sente diminuído. Mas Yukari o abraça e diz que os encontros com ele no parque a salvaram e a ajudaram a caminhar novamente.

Yukari retorna à sua cidade natal e volta a dar aula. Takao segue em busca de seu sonho de se tornar sapateiro e consegue terminar o sapato que estava fazendo para Yukari.

***

Achei curioso o fato de Takao se interessar por sapatos feitos a mão, pois isso vai na contramão do mundo atual, em que quase tudo é fabricado de forma massificada. Incomum um jovem se interessar por algo tão artesanal, mas não inverossímil.

Também me chamou a atenção o fato de Takao ser tão "adulto" em contraposição à mãe dele, por exemplo, que parece ter agido como uma adolescente, movida pela paixão, deixando a casa onde morava com os filhos para morar com um novo namorado. Takao ou o irmão dele comenta algo do tipo: "Mas quando ela se cansar, ela volta". Ou seja, provavelmente esse era um comportamento previsível da mãe (o que me fez lembrar da mãe do filme japonês Ninguém pode saber; só que no filme era pior, porque os filhos ainda eram crianças e eles precisavam se virar enquanto a mãe sumia com os namorados e não dava notícias).

Li na Wikipedia que o diretor declarou que O jardim das palavras era um anime sobre solidão. Para mim, é uma história de encontro. Ainda que os dois não permaneçam fisicamente próximos (seria um tabu) e a "solidão" prevaleça, o tempo que passaram juntos no parque e o que um acrescentou na vida do outro seguirá com eles.

Gosto de pensar que alguns encontros especiais não se dão por acaso. Algumas pessoas surgem, ensinam o que têm de ensinar (ou vice-versa, quando ajudamos os outros mesmo sem saber), deixam marcas indeléveis e depois vão embora. De repente, a forma de encararmos a vida já é outra e nossa trajetória se altera. E, apesar da saudade, só nos resta agradecer.

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