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domingo, 25 de setembro de 2016

Os livros de Sayuri e Geração nikkei


Continuando a leitura de livros escritos por nipo-brasileiros ou que retratam personagens nipo-brasileiros, recentemente li Os livros de Sayuri (2008), da Lúcia Hiratsuka, depois, Geração Nikkei (2001), da Adelina Nishiyama e, curiosamente, tive a impressão de que os dois livros se complementam.


No primeiro livro, acompanhamos a vida de Sayuri, uma menina nissei (filha de pais japoneses) de uns sete anos, nascida no Brasil, na época da Segunda Guerra Mundial, narrada em primeira pessoa. Nessa época - fim dos anos 1930 e meados de 1940 -, os imigrantes japoneses e descendentes foram proibidos de falar e estudar japonês e de se reunir em grupo, pois o Japão era aliado da Itália e da Alemanha, e o Brasil estava do outro lado da guerra, apoiando Estados Unidos e outros países europeus. Por precaução, o pai de Sayuri enterra os livros em japonês no quintal e a menina passa a sonhar com o dia em que eles serão desenterrados, o que acaba acontecendo anos depois. Enquanto isso, ela e a família (pais e irmãos) continuam tentando levar uma vida normal durante o dia (com trabalhos agrícolas e domésticos) e, à noite, Sayuri e outras crianças nisseis da região se reúnem na casa de alguém para ter aula de japonês em segredo. Além disso, a personagem-narradora também introduz costumes japoneses ao longo da narrativa.
Qualquer comida, qualquer doce, antes ela oferece aos deuses e aos antepassados. Diz que eles nos protegem. Ela explica assim: se cortar uma raiz a árvore não morre? Os antepassados são como as raízes. E nós somos como os galhos, não crescemos sem as raízes. É o que a mãe vive dizendo. (p. 44)
Gostei desse livro de ficção voltado para jovens, mas talvez para uma criança seja difícil lê-lo e entendê-lo dentro do contexto histórico sem orientação de pais ou professores, pois não tem explicações claras - por que os livros foram enterrados, por que a escola japonesa foi fechada e as aulas precisam acontecer em segredo, por que era comum crianças trabalharem/ ajudarem nas tarefas domésticas na época. 

Por isso penso que Geração Nikkei complementa Os livros de Sayuri. Neste outro livro, Adelina Nishiyama, arquiteta e artista plástica paranaense, destrincha um pouco mais as culturas japonesa e nipo-brasileira, se é que podemos falar em "cultura nipo-brasileira".

O livro da Adelina é dividido em três partes. Na primeira, há um resumo de vários "itens" que compõem a cultura japonesa nos campos das artes, culinária, música, arquitetura, esportes, como, por exemplo, ikebana, origami, haiku, mangá, acupuntura, heiki, judô, karatê. Na segunda, para mim, a mais interessante, a autora destrincha aspectos culturais dos imigrantes e das gerações seguintes que nasceram no Brasil e reflete sobre isso. Na terceira e última, são apresentados perfis de filhos de imigrantes japoneses ou de simpatizantes da cultura japonesa que se estabeleceram no Paraná ou que têm alguma conexão com esse estado - gostei especialmente de saber um pouco mais sobre a história da Tizuka Yamazaki, que dirigiu Gaijin (vi esse filme na época da faculdade, lembro de ter gostado muito, e quero rever). 

O mais legal no livro da Adelina é o fato de ela chegar à conclusão de que é preciso desenvolver uma cultura nipo-brasileira e não apenas conservar aspectos culturais japoneses, como se eles fossem intocáveis. Não estamos no Japão, logo, talvez seja preciso criar ou reforçar arestas para uma cultura que nos identifique melhor - ou com a qual nos identifiquemos melhor.

Até alguns anos atrás, eu não ligava muito para o fato de ser descendente de japoneses. Não ficava pensando muito sobre o assunto, na verdade. Era apenas uma característica com a qual nasci e pronto, embora sinta que isso me privilegia no sentido de ter me proporcionado o contato com uma cultura diferente da brasileira. Se eu tivesse um dos pais de outra etnia sem ser japonesa, o "privilégio" seria maior ainda. Ter um pai japonês e uma mãe coreana, italiana, tcheca ou libanesa (ou vice-versa) seria o máximo! :) Sempre achei o contato com culturas e pessoas diferentes muito enriquecedor. 

Não sei se acontece com todo descendente de imigrantes, mas comecei a ter vontade genuína de descobrir mais sobre meus antepassados e histórias familiares, porque tudo isso também diz respeito a mim, a quem sou, a quem me tornei. Um dos meus planos para o futuro é visitar os lugares de onde meus avós vieram (Fukushima, Saga-ken e algum lugar em Hokkaido), o que significa conhecer as três ilhas principais. Já que meus avós não puderam voltar para lá, eu queria fazer isso por eles (e também por mim). Nessa pesquisa mais ou menos recente sobre meu passado, descobri que tenho sangue misturado de várias partes do Japão... se fosse no Brasil, seria algo do tipo ter avós do Nordeste, Sudeste e Sul do país. 

Trechos interessantes:
Geralmente somos apontados como um grupo fechado que não se mistura, e somos tachados de orgulhosos. Sim, realmente somos orgulhosos. Temos em nossas veias o sangue dos samurais, a inflexibilidade nipônica no sangue, guardada na memória de nossos ancestrais. (p. 83)
Na escola, éramos respeitados pelos colegas como bons em matemática, e éramos temidos concorrentes nos exames vestibulares. Matérias que exigiam raciocínio lógico não nos assustavam, mas a língua portuguesa era mais que um mistério. Jamais a dominaríamos enquanto continuássemos a ter medo de nos expressar. Se desenvolver a capacidade de expressão já é uma grande dificuldade para qualquer ser humano, somava-se a ela, no nosso caso, a timidez, a vergonha e o medo do julgamento das outras pessoas com quem convivíamos. Se a nossa integridade e honestidade sempre foram reconhecidas e respeitadas, por outro lado, a nossa inflexibilidade e timidez nos atrapalhavam sobremaneira no convívio estreito com outros imigrantes e com os brasileiros. E também por isso, talvez, pouquíssimos de nós se sobressaíam nas áreas jurídicas, literária e política. (p. 84-5)
Muitos pais japoneses proibiam a união com gaijin, talvez por causa das lembranças das humilhações que tinham sofrido durante a guerra. Ou talvez mesmo pela tentativa natural de manter a "pureza racial", tornavam-se intransigentes com os filhos que se revoltavam, apaixonados que estavam pelos olhos azuis de seus escolhidos ou escolhidas. (p. 87)
De modo geral, os imigrantes japoneses e os descendentes são caracterizados, na sociedade brasileira, como íntegros e honestos. Ao lado dessa imagem positiva, porém circula uma outra, já bastante tradicional: a imagem do japonês risonho e simpático. É o pasteleiro ou tintureiro que, além do sorriso amarelo obrigatoriamente estampado no rosto, é dono de uma ingenuidade que beira o ridículo. Esses estereótipos patéticos com que somos identificados são veiculados e reforçados especialmente pela mídia. Em propagandas de qualidade duvidosa e que não tem outro fim senão provocar o riso, feitas por publicitários medíocres e que pouco entendem da cultura japonesa, somos ridicularizados através de imagens distorcidas do que realmente somos. (p. 88-9)
Embora algumas das considerações da Adelina se refiram a uma geração passada, esse último trecho me fez lembrar de uma "polêmica" recente, envolvendo uma novela da Globo que terá a ver com a imigração japonesa para o Brasil, mas cujos atores escalados são brasileiros sem ascendência nipônica. 

Recomendo os livros para quem se interessa pela cultura japonesa e por assuntos relacionados à imigração japonesa no Brasil.

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