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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Kevin Mãos de Tesoura

Sábado, depois de quase um ano, voltei ao Kevin para cortar o cabelo.

Kevin é um cabeleireiro chinês que tem um pequeno salão em uma galeria comercial perto da estação Ana Rosa. Como tenho certa resistência a ir a cabeleireiros (assim como a dentistas e médicos), aproveitei a ida da Yuri e pedi para ela marcar um horário depois do corte dela para mim.

Enquanto o Kevin lavava e cortava o cabelo da Yuri e os dois conversavam (ele fala português com certo sotaque, mas dá para entender), eu lia um livro de contos do Milton Hatoum, A cidade ilhada, e às vezes prestava atenção em algumas partes da conversa. 

Segundo a Yuri, o Kevin deve estar no Brasil há uns dez anos, a noiva/ esposa dele veio da China no fim do ano passado, e os dois tiveram um filho há uns quatro meses. A Yuri, que viu uma foto do recém-nascido na penúltima vez em que foi lá, havia comentado que ele parecia o Shinchan, porque era muito bochechudo. Não é o tipo de comentário que eu faria, porque não sei se "bochechudo" é um elogio ou não, mas o Kevin pareceu levar numa boa. Ele não conhecia o Shinchan, então procurou na internet depois do comentário da Yuri e concordou que o filho parecia o Shinchan, mas achava que quando ele crescesse as bochechas provavelmente diminuiriam.

Depois foi a minha vez de lavar e cortar o cabelo. 

A água estava quentinha e o cheiro do xampu era bom. É muito relaxante quando lavam meu cabelo no salão. Não é preciso fazer nada, só ficar lá e... relaxar. Daí o Kevin perguntou se eu tingia o cabelo. Lembrei de uma colega da faculdade que perguntou a mesma coisa há uns quinze anos - para o meu espanto. Não tinjo o cabelo, mas talvez pareça tingido por ser preto demais.

Meu cabelo estava quase na altura da cintura, bem seco nas pontas e cheio de pontas duplas. Pedi para o Kevin cortar mais ou menos uns dez centímetros (mostrei o tanto que eu queria que ele cortasse), para tirar as horrorosas pontas duplas, mas ele acabou cortando mais de um palmo, porque o comprimento ficou um pouco abaixo do ombro. Cabeleireiros adoram cortar, quanto mais, melhor, já tinha percebido isso. Ainda bem que não tenho apego ao meu cabelo, então não foi nenhum trauma. Depois cresce de novo.

Antes de começar a cortar, o Kevin perguntou se podia cortar as pontas do meu cabelo para fazer "teste de cor", falei que sim, aí ele amarrou as pontas com um elástico e cortou um "rabinho". Antes, na lavagem, estávamos falando sobre colorir/ descolorir o cabelo e falei que, dependendo da tintura, meu cabelo provavelmente nem absorveria a tinta. Lembrei de quando tingi o cabelo de azul, há quase dez anos (bem antes de "azul ser a cor mais quente"): a cabeleireira precisou passar o descolorante duas vezes, uma só não foi suficiente. 

E aí o Kevin foi cortando meu cabelo, repicou atrás e desfiou um pouco a franja. Sentada, com uma capa vermelha do pescoço para baixo, via o que ele estava fazendo pelo espelho e às vezes ele parecia o Edward Mãos de Tesoura. Picotes de cabelo voavam para tudo quanto é lado e se juntavam ao cabelo da Yuri, aumentando o mar de tufos pretos no piso branco. Às vezes eu me perguntava se ele não estava cortando demais. Mas, bom, deixei que ele se divertisse. E o resultado ficou muito bom. 

Olhando bem, o corte ficou quase igual ao melhor corte da minha vida, feito pela Margarida, a mesma cabeleireira que descoloriu e pintou meu cabelo de azul (e me aconselhou a não pintar TODO o cabelo de azul, como eu queria, mas só as pontas e parte da franja - conselho supersensato, aliás). Ela atendia num salão perto do convênio odontológico onde eu trabalhava lá em São José, na época em que eu também estudava odontologia na Unesp - era tudo perto, o convênio, o salão e a faculdade -, aí eu ia lá na hora do almoço. Depois de um tempo, a Margarida se formou em psicologia, abriu um consultório e começou a cuidar do lado de dentro da cabeça das pessoas, e não mais só por fora. Lastimei, porque ela era uma ótima cabeleireira, mas fico feliz porque agora deve estar ajudando as pessoas a se sentirem bem com elas mesmas de outra forma.

Quando fomos pagar, o Kevin pegou o celular dele perto do "caixa" e nos mostrou algumas fotos do primogênito. Agora ele não está tão parecido com o Shinchan. As bochechas já diminuíram um pouco - sinal de que está crescendo. Mas fotos de quando era recém-nascido não negam: era a cara do desenho!

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