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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Stella, de Sylvie Verheyde


Gladys (ruiva) e Stella (protagonista)

Stella tem 11 ou 12 anos, mora em Paris e está tendo problemas de adaptação na nova escola. A história de Stella, personagem que dá nome ao filme de Sylvie Verheyde, ambientado no fim dos anos 1970 e lançado em 2008, é bem clichê, mas a delicadeza com que é contada me cativou.

Esse filme me fez lembrar do livro Les armoires vides [Armários vazios], da autora francesa Annie Ernaux, que eu e colegas lemos na faculdade, obrigados por uma professora de francês depressiva que adorava a França (às vezes me pergunto por onde ela andará e lembro que, segundo colegas que a visitaram uma vez, na casa dela não tinha móveis, só livros espalhados - é deprimente, mas daria uma ótima cena de filme!). Pesquisei e nenhum livro dessa autora foi traduzido no Brasil. Na época, não gostei do livro e concluí que a professora devia se identificar com a protagonista para falar sobre o livro (e nos obrigar a lê-lo) com tanto entusiasmo. 

O tema do livro é parecido com o do filme: uma garota precisa lidar com o fato de conviver com uma família meio pobre material e culturalmente e frequentar um colégio de crianças mais ricas. Coincidentemente, os pais das duas personagens têm um bar e trabalham nele.

Acuada por se sentir "inferior" aos colegas, que a esnobam e provavelmente a consideram "burra" pelas sucessivas notas baixas, além de ser humilhada por vários professores, Stella se retrai e não consegue ou não quer fazer amizade com ninguém - até Gladys puxar papo com ela. De repente, não está mais só e se sente sortuda por alguém como Gladys se aproximar dela.

Gladys é a melhor aluna da sala e representante da turma. Depois de um tempo, ela conta a Stella que é judia e que sua família veio da Argentina. Stella finge entender algumas coisas que Gladys fala e começa a se dar conta de que a amiga tem muito mais conhecimento de mundo que ela. Quando Stella visita o apartamento de Gladys, cujos pais são intelectuais, ela se dá conta de que o ambiente familiar da amiga é mesmo muito diferente do seu. Interpretei a cena em que Stella observa Paris da varanda do apartamento de Gladys e tem uma visão panorâmica muito bonita como uma metáfora da ampliação de sua visão de mundo que acontecerá ao longo do filme.

Em uma conversa trivial, Gladys pergunta o que Stella faz quando não está na escola. Stella responde que não faz nada, e devolve a pergunta à Gladys, que lhe diz que gosta de ouvir música, ler e alguma outra coisa. A partir disso, Stella se interessa por música e livros e começa a ler escritores franceses; ela aparece lendo Jean Cocteau, Balzac e Marguerite Duras - precoce para uma garota de 12 anos, não? Só conheci Duras com uns 16 anos (O amante) e depois voltei a ler essa autora na faculdade (Moderato cantabile), a pedido do Orlando, professor de literatura francesa e um dos melhores professores que tive na vida.



É emocionante quando Stella vai a uma livraria, escolhe um livro na prateleira e, depois de pagar, volta correndo para casa para ler, como se a vida, a partir dali, tomasse um novo impulso. O livro que ela escolhe é Les enfants terribles [Crianças terríveis], de Jean Cocteau.

Edição do livro que Stella lê

Enquanto continua a conviver com os pais negligentes e uma série de vagabundos que frequentam o bar dos pais e moram em quartos alugados sobre esse bar, Stella lê, é tocada pelo que lê e seu mundo aos poucos se amplia.  Mais tarde, com a amizade de Gladys e as leituras, ela concluirá que precisa aproveitar as boas oportunidades que a vida oferece pois, de forma consciente ou não, deseja uma vida diferente da vida de seus pais. No fim, ela agradece Gladys com sinceridade e de forma tocante. Sem a amiga, Stella poderia ter tomado um rumo diferente - como a mãe disse a ela num momento de fúria: "Não vou te obrigar a estudar; para ser garçonete não precisa estudar".

[Não é novidade que "livros mudam pessoas", mas sempre me surpreendo. Na semana passada tentei assistir o máximo de palestras do Conaler, um congresso de leitura on-line, e foi muito legal ver o depoimento do Carlos Andrade, um ex-presidiário que se tornou mediador de um clube de leitura em presídios, e também o depoimento do Otávio Jr., morador do Morro do Caracol, ao lado do Complexo do Alemão, no Rio, que escreveu suas experiências no livro O livreiro do Alemão - sobre o qual comentei aqui - e hoje também é agente de leitura.]


Para finalizar, outra cena que achei genial é quando um professor chama Stella para escrever a palavra "signifient" ("significam", em francês) na lousa. Ela tenta escrever várias vezes a palavra de forma correta, segundo as normas ortográficas, Gladys tenta ajudá-la soprando a resposta, mesmo assim não consegue. Por fim, Stella escreve "cynniphien", algo como "cinificam", remetendo à "cinismo", provavelmente para demonstrar a forma com que encarava as normas escolares e as normas estabelecidas pelos professores e pela sociedade em geral: com um certo cinismo, escárnio e desprezo.

Para quem se interessar, o trailer pode ser visto aqui.

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