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terça-feira, 8 de novembro de 2016

A vida, entupida

Uma vez, depois de voltar do último dia de trabalho em um emprego que tinha um ambiente bem pesado, onde eu via e ouvia coisas absurdas, passei mal e vomitei várias vezes. Eu não tinha comido nada diferente do que costumava comer e nem lembro a última vez em que tinha vomitado antes dessa. Entendi a situação como uma metáfora: eu estava colocando para fora, exorcizando, toda a energia negativa, as angústias e os medos absorvidos durante o tempo trabalhado nesse lugar para começar "limpa" no emprego seguinte, na vida seguinte. 

Hoje minha privada entupida é a metáfora do meu estágio de vida atual - e talvez do meu estado de espírito também -, apesar de a imobiliária afirmar que não há entupimento nenhum. Se não é entupimento, não sei o que é a água podre que sobe da privada e transborda em vez de descer para o esgoto, assim como a água nojenta que sobe misteriosamente do ralo do chuveiro quando não estou vendo. Não é só a privada - também estou cheia. E quase transbordando. 

Esse problema doméstico está parcialmente resolvido, porque decidi entregar a chave do apartamento no Tucuruvi no fim do ano e morar definitivamente com a Yuri na Saúde. Agora falta "apenas" vender a geladeira, o fogão e os móveis, menos as estantes com livros e DVDs. E depois limpar o apartamento, incluindo o banheiro de onde, imagino, qualquer hora pode sair um monstro - o monstro do esgoto, igual naquele filme, Saneamento básico, o filme.

Além disso, esse ano me entupi de cursos, minicursos e palestras.  As aulas de teoria da tradução e os encontros da oficina literária de prosa do Programa Formativo para Tradutores Literários já terminaram, agora só restam as aulas de história da tradução, que terminam no fim desse mês. Na verdade, para concluir essas "matérias", preciso entregar trabalhos finais até o começo de janeiro - um para cada professor. E aí só falta cumprir a oficina literária de poesia para receber o certificado. Continuo indo para as aulas do MBA em Book Publishing e, talvez por não criar mais nenhuma expectativa, algumas aulas têm sido boas. Termino esse MBA em agosto do ano que vem - depois de vários trabalhinhos em grupo e TCC, para o MEC saber que o curso é minimamente decente. Até lá, a meta é não transbordar. 

Há quatro semanas estou fazendo o minicurso "A tradução literária no processo editorial", oferecido em parceria pela Casa Guilherme de Almeida e pela Universidade do Livro; agora só restam mais duas aulas (do total de seis) nas próximas duas quintas-feiras. Apesar de esses cursos relacionados a mercado editorial não trazerem nada de extraordinário, quero dizer, nada sobre o que eu já não tenha ouvido falar ou visto ou feito, sempre há detalhes que me acrescentam. Por enquanto, o mais surpreendente foi a aula da Eliane Fittipaldi, professora da USP e tradutora, que quase sempre traduz literatura a quatro mãos com a Kátia Orberg, que também é professora da USP e tradutora. A Eliane contou que traduz um capítulo do livro, aí envia para a Kátia, que revisa e faz observações e comentários, depois o arquivo volta para ela. A Kátia então traduz o capítulo seguinte e depois envia o arquivo para ela revisar e fazer comentários, que, por sua vez, devolve o arquivo revisado para a Kátia. Fazem isso até terminar de traduzir o livro inteiro, depois leem e revisam o livro todo para detectar eventuais estranhezas e incoerências. Para elas, esse método tem funcionado há mais vinte anos. Achei a ideia ótima, porque, imagino, as chances de a tradução sair melhor (do que sairia se a Eliane traduzisse individualmente, por exemplo) aumentam. Algumas editoras com foco na qualidade do livro não se importam com o tanto de tempo que elas levam para fazer isso.

Amanhã vou assistir a uma palestra (esta) sobre o programa de tradução literária oferecido pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que faz parte do programa de escrita literária da mesma universidade. Vamos ver como é que se faz para entrar nesses programas sendo estrangeiro e o que é preciso fazer para conseguir uma vaga. A professora Maria Teresa, que vai mediar essa palestra da Susan Bernofsky, foi nossa professora de teoria às terças. 

Esse ano também continuei - e continuo - fazendo traduções e revisões como freelancer. Bem menos que no ano passado, por causa da crise econômica, mas consegui poupar razoavelmente, então já estou no lucro.

Ainda restam várias pendências profissionais, pessoais e de estudo a ser resolvidas até o fim do ano. Quero entrar em 2017 com a vida desentupida! 


2 comentários:

Tati* disse...

Nossa, não sabia que você estava morando no Tucuruvi...
Que bom que você também voltou a escrever \o/

aline naomi disse...

Na verdade, eu alugo esse apartamento no Tucuruvi desde 2009, mas passava a maior parte do tempo na Saúde porque ficava mais perto do MBA que eu fazia na Paulista e agora dos outros cursos que estou fazendo. Não me desfiz dele antes por uma certa inércia em procurar outro apartamento ou ter de me desfazer dos móveis e tudo mais ao me mudar completamente. Mas agora decidi mudar mesmo e preciso organizar as coisas e a vida. Vai ser melhor também porque quanto menos coisas, menos preocupações, né?