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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Amanhã, o futuro

Ontem comuniquei ao editor que vou sair da editora no fim de fevereiro.

No mês passado já havíamos conversado sobre isso e também sobre a minha vontade de fazer a oficina literária em Porto Alegre no ano que vem (já enviei minha inscrição com os contos, os que julguei menos piores, e uma certa papelada solicitados no fim de setembro - agora já não depende mais de mim), mas ontem oficializei: vou sair, independentemente de ser selecionada para a oficina ou não. Tanto o fato de ter me inscrito na oficina quanto de ter comunicado minha saída me deram alívio e libertação. Aconteça o que acontecer, estou pronta para enfrentar. Claro que dá um certo medo, incertezas dão medo, mas se eu deixar que isso me paralize, nunca vou tentar e muito menos conseguir fazer o que quero.

Contei sobre os meus planos para 2017 para alguns amigos e uns eufemizaram o que estavam pensando (provavelmente "Você é LOUCA?!"), outros me deram apoio. Meu lado racional também tem vontade de gritar comigo: VOCÊ É LOUCA?!, por pedir demissão em meio a essa crise econômica horrível, mesmo antes de saber se vou conseguir uma vaga na oficina e poder tirar um ano meio sabático com o dinheiro que juntei. Mas as pessoas que me acham louca não sabem como é ser eu, ter a minha rotina, assim como desconhecem o que penso e sinto diariamente quando estou indo para o trabalho ou voltando para casa ou quando estou no trabalho. Se estivessem no meu lugar, entenderiam que essa é a melhor decisão que consigo tomar no momento. 

Por estar vivenciando esse momento, lembrei da minha tia Harumi por dois relatos pessoais que ela postou no Facebook há algum tempo. Quando era jovem, ela prestou Vestibular e, mesmo antes de saber se ia passar, pediu demissão do emprego (também havia questões pessoais envolvidas, ela não queria continuar nesse emprego, mas precisaria do dinheiro caso fosse para a faculdade) - no fim, ela conseguiu a vaga, foi morar e trabalhar com parentes em outra cidade e deu tudo certo. A lição que tirei disso foi: na vida é preciso se arriscar. Em geral, há 50% de chances de dar certo. No outro relato ela escreveu sobre uma época em que teve depressão (embora não tenha em nenhum momento usado esse termo, deduzi que era isso); não tinha mais ânimo nem vontade de fazer nada, foi afastada do trabalho e recorreu à ajuda de um terapeuta - na verdade, o relato era uma homenagem a esse terapeuta, cuja morte (há cinco anos) ela descobriu recentemente, que a ajudou muito. Fiquei impressionada, porque não lembro dessa época, não sei se eu era criança ou adolescente, mas não sabia que havia sido uma época tão difícil e pesada para ela. Refleti sobre a experiência da minha tia e não quero chegar a esse ponto de não ter mais ânimo para fazer nada ou fazer tudo no automático para as coisas doerem menos. Quero que a vida continue fazendo sentido para mim e não se torne apenas algo que preciso suportar, já que estou viva.

Imagino que seja natural o que aconteceu comigo no trabalho. Quando entrei na editora, estava muito animada e sentia muito prazer em ir para o trabalho porque tinha desafios e aprendizados, mas hoje me sinto estagnada (e talvez um pouco culpada por me sentir dessa forma - será que eu não deveria ter feito mais por mim nesses seis anos?), porque já não consigo aprender nada de novo, é apenas a rotina. Talvez eu tenha sentido mais angústia esse ano porque houve pouco trabalho editorial e fiquei fazendo mais trabalhos administrativos e cuidando de livros problemáticos que talvez sejam lançados no ano que vem. E nada disso fez muito sentido para mim, embora tentasse me lembrar o tempo todo de que eu estava sendo paga para fazer esses trabalhos - gostando ou não, fazendo sentido ou não. Esses acontecimentos se juntaram à constatação de que não há perspectivas de crescimento para mim na editora e que não quero passar os próximos cinco ou dez anos fazendo mais trabalhos administrativos do que trabalhos editoriais, que é o que realmente me interessa. Acho que por isso me inscrevi em vários cursos e palestras esse ano - não aprender nada e não enfrentar desafios ao longo dos dias é uma morte lenta para mim.

Na conversa que tive com o editor no mês passado, deixei bem claro que a inquietação tinha a ver comigo, com meu desejo de mudança e evolução profissional, e não com a editora. Ao longo da vida, provavelmente me lembrarei da Disal como umas das melhores empresas onde já trabalhei (por enquanto, a melhor), com as melhores condições, e do sr. B., como um editor culto, humano e generoso - o que me fez acreditar que editores podem ser assim e querer me tornar uma editora assim também. Apesar de não entender algumas escolhas editoriais e nem a aversão/ um certo descrédito dele a redes sociais como canal para divulgação de livros, respeito.

Vamos ver o que me aguarda nas cenas dos próximos capítulos. Também estou curiosa para saber o que vai acontecer. Embora eu seja responsável por escrever boa parte da minha história, outra parte é escrita por mistérios, acasos, coincidências, pelo tempo, pela sorte.

Nos próximos posts pretendo abordar temas com mais conteúdo e que interessam mais, prometo. Andei lendo livros, vendo filmes e fui a algumas exposições muito legais nos últimos meses - gostaria de compartilhar minhas impressões. E preciso comentar sobre as séries Black Mirror e Sessão de Terapia. Tudo a seguir, em breve, espero.

Comecei a ler O zen e a arte da escrita, do Ray Bradbury, e o prefácio, que o autor intitulou "Como escalar a árvore da vida, apedrejar a si mesmo e descer sem quebrar nenhum osso nem o espírito: um prefácio com título não muito mais longo do que o livro" é ótimo - exatamente o que eu precisava ler hoje. Indicação certeira da Leticia Kushida, sobre quem comentarei depois porque achei curioso como ela chegou até mim e depois aconteceu o contrário. Não sei se bruxas existem, mas a "lei do retorno" provavelmente existe.


7 comentários:

Karen disse...

Independente do que aconteça, foi uma decisão pensada, que sera, sera... 2017 será uma aventura! :)

aline naomi disse...

Hahaha! Espero que seja mesmo uma aventura, Karen! =)

Tati* disse...

Que legal isso! Mudanças!! Vai dar td certo ;)

aline naomi disse...

Espero que sim, Tati!
Só sei que do jeito que está não dá para ficar. =)

Swonkie disse...

Olá :) Enviamos um convite para o teu email.
Contamos contigo? :)

Minhas Impressões - Maria Ferreira disse...

Olá, Aline.
O mais importante é que não é uma decisão tomada de forma impulsiva, você sabe os riscos que corre. No final, vai dar tudo certo.
Aguardarei as próximas postagens. Achei bem instigante o título do prefácio.
Abraços.

aline naomi disse...

Obrigada pela visita e pelo comentário, Maria! ;)
Um grande abraço pra você também!