Pages

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Depois da tempestade, de Hirokazu Kore-eda


Ontem à noite eu e a Yuri fomos ver Depois da tempestade, do diretor japonês Hirokazu Kore-eda, no cine Itaú Augusta. Eu estava ansiosa para que ele entrasse em cartaz, porque não consegui assistir a ele na época da Mostra Internacional de Cinema (na verdade, não fui ver nenhum filme da Mostra esse ano) e também porque gostei muito de vários outros filmes desse diretor, como Minha irmã mais nova, Pais e filhos, Air doll, Ninguém pode saber e Depois da vida.

Li várias críticas positivas sobre esse filme, mas não gostei muito, assim como não gostei tanto de O que eu mais desejo. Os outros citados no parágrafo anterior me cativaram mais, talvez por apresentarem conflitos mais evidentes ou inusitados: três irmãs descobrem que tem uma meia-irmã e decidem acolhê-la depois que o pai em comum morre; pais descobrem que seus filhos foram trocados na maternidade; uma boneca inflável ganha vida; crianças precisam se virar sozinhas quando a mãe vai viajar com o novo namorado e deixa de mandar dinheiro; pessoas que morrem e vão para um lugar onde precisam escolher a melhor lembrança de suas vidas para levar consigo pela eternidade. 

Em Depois da tempestade, Ryota é um escritor perdido na vida. Chegou a ganhar um prêmio literário, mas passados doze anos não conseguiu publicar mais nada. Para pagar as contas, trabalha como detetive particular, mas vive endividado, é chegado em uma bebida e sempre tem esperança de ganhar dinheiro apostando em corridas de bicicleta ou na loteria.


Por dever o dinheiro da pensão para Kyoko, sua ex-esposa, corre o risco de ficar sem ver o filho e tenta ajeitar as coisas. No dia marcado para encontrar o filho, não tem dinheiro para pagar a pensão, mesmo assim, Kyoko permite que o filho passe o dia com ele.

Depois de Ryota levar o filho para comer hambúrguer no parque e comprar bilhetes de loteria para ambos, assim como seu pai fazia quando ele era criança, decide visitar sua mãe, uma idosa bastante espirituosa, com a desculpa de que o neto quer muito vê-la. Kyoko se reúne a eles depois do trabalho.


Como mais um tufão está prestes a passar por ali, em uma tentativa de unir a família, a mãe de Ryota sugere que os três passem a noite em sua casa. Então jantam juntos, conversam, a avó mostra coisas antigas de Ryota para o neto e, por um momento, parecem uma família feliz.



Depois de terem vivido momentos triviais e ao mesmo tempo mágicos que talvez fiquem guardados na memória do menino, os membros da família parecem voltar à normalidade assim que o dia amanhece.

Talvez a grandiosidade do filme esteja em retratar pessoas comuns vivendo momentos banais. Nada é "espetaculoso", ninguém ali parece estar atuando, as pessoas parecem estar simplesmente vivendo e tentando lidar com a vida e com os percalços que ela apresenta. Vários filmes japoneses contemporâneos que tenho visto parecem almejar o mesmo: capturar uma parte da experiência humana através de personagens comuns, ou seja, a vida como um tipo de arte. Mesmo assim, o filme parece se arrastar, pois não tenho paciência com personagens como Ryota - o artista fracassado que vive fazendo trambiques, inventando desculpas para fugir das responsabilidades de adulto e fazendo escolhas duvidosas. Kyoko também deve ter perdido a paciência com ele, por isso pediu o divórcio e foi atrás de um futuro melhor para ela e o filho.

Por último, destaco o fato de Ryota sempre falar ou demonstrar que queria ser diferente do pai, mas acaba se comportando mais ou menos da mesma forma que ele. Já li que muitas vezes acabamos reproduzindo a trajetória de vida dos nossos pais, por eles terem sido nossos modelos desde que nascemos, mas me recuso a aceitar que isso acontece por falta de escolha, como se não tivéssemos livre-arbítrio e vontade própria. 

***

Antes da sessão, como havia tempo, fomos comer na Hot Dog Company, que fica em frente ao cinema. Apesar de a qualidade do atendimento não ser o forte do lugar, há várias opções de cachorro-quente, incluindo versões vegetarianas. Pedimos a versão normal, com purê de batata, batata palha, maionese verde (eu), molho barbecue (Yuri) e molho pomodoro - nome bonitinho para o molho de tomate provavelmente industrializado - e gostamos. Pedimos também uma porção grande de batatas palito assadas, salpicadas por um tipo de pimenta em pó vermelha, que vinha acompanhada por uma maionese verde caseira (a mesma que veio no meu cachorro-quente) muito boa.

A salsicha estava um pouco salgada para o meu paladar, porque ela é grelhada e não cozida em água fervente, mesmo assim gostei. Da próxima vez vou provar a versão vegetariana. :)


Nenhum comentário: