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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O escolhido foi você, de Miranda July


Esses dias terminei de ler O escolhido foi você (It chooses you; traduzido por Celina Portocarrero), da americana Miranda July, e achei a obra inusitada, a começar pela capa, com vários recortes de fotos e ilustrações de animais e um adesivo com o título e nome da autora. Nunca tinha lido um livro assim - um misto de autobiografia momentânea, entrevistas e improviso. Gostei.

Miranda July

Ouvi falar de Miranda July há alguns anos, porque o filme dela, O futuro (2011), ia passar em alguma mostra e, como gostei da sinopse, fui pesquisar um pouco mais. Aí descobri que além de roteirista e cineasta, ela é artista plástica e tinha alguns livros publicados.

O escolhido foi você, publicado em 2011, é resultado de um bloqueio criativo que Miranda teve em 2009, enquanto tentava finalizar o roteiro de O futuro. Ela estava quase terminando de escrevê-lo, mas não conseguia terminar. Então teve a ideia de conhecer e entrevistar alguns anunciantes de um jornalzinho de Los Angeles chamado PennySaver, aparentemente para tentar dar mais densidade para um dos personagens de seu filme e talvez para alimentar a proscrastinação. As pessoas podiam anunciar grátis nesse jornal desde que os produtos (ou animais) à venda custassem até US$ 100.

A Miranda achou que era uma boa ideia conhecer pessoas que vendiam coisas meio inusitadas (ou nem tanto), imagino que para constatar se as pessoas por trás dos anúncios também eram inusitadas.

O primeiro entrevistado é Michael, que estava vendendo uma jaqueta de couro preta.


Michael 

Michael estava transicionando de homem para mulher e contou um pouco como era o seu dia a dia.

 Jaqueta que Michael anunciou no PennySaver

Depois foram surgindo outros personagens peculiares: Primila, uma mulher indiana que vendia trajes da Índia para ajudar uma comunidade em seu país; Pauline e Raymond, que estavam vendendo uma mala grande, velha e amarela; Andrew, um adolescente que vendia girinos de rã-touro; uma senhora meio doida chamada Beverly, que vendia filhotes de gatos-de-bengala e também criava aves; Pam estava vendendo álbuns de fotografia de um casal que ela nem conhecia porque achava uma pena que as fotos fossem para o lixo; Ron, um ex-presidiário que usava uma tornozeleira eletrônica, estava vendendo um estojo de pintura com 67 peças (Miranda, a fotógrafa e um estagiário passaram momentos de muita tensão na casa dele); Matilda e Domingo, um casal cubano que vendia Ursinhos Carinhosos de pelúcia; Dina estava vendendo um secador de cabelo bem antigo, usado por ela desde que era adolescente e Joe, que estava vendendo cartões de Natal artesanais.

 Girinos de rã-touro que Andrew vendia por US$ 2,50 cada

Miranda segurando uns ovos presenteados por Beverly

Além das entrevistas, Miranda escreveu suas impressões pessoais, às vezes meio engraçadas, dos entrevistados e da casa deles, além de descrever sua angústia por não conseguir terminar o roteiro, entre outros fatos pessoais.

A convite de Miranda, Joe, que vendia cartões de Natal artesanais e sepultava seus animais de estimação no quintal, acabou participando como ator no filme O futuro, apesar de ter sido diagnosticado com câncer pouco antes de suas cenas começarem a ser filmadas. Miranda cogitou substitui-lo por conta da doença, mas concluiu que só Joe poderia fazer o papel de si mesmo. E assim foi.

Ainda não consegui ver o filme e esse livro me deixou mais curiosa. Enquanto isso, vou ler outro livro da Miranda July que comprei na Black Friday: O primeiro homem mau.

Tudo o que eu sempre quis mesmo saber é como as pessoas estão se virando na vida - onde põem o próprio corpo, hora a hora, e como dão conta de tudo. (p. 158-9)

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