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domingo, 4 de dezembro de 2016

Sobre tradutores estrangeiros que traduzem literatura brasileira

Acabei não indo para a aula do MBA ontem de manhã, como havia planejado, por falta de vontade - como já escrevi antes, está muito difícil levar esse curso a sério. E também porque fiquei com dor de barriga. Na verdade, talvez tenha sido psicológico: fiquei com dor de barriga justamente para não ir para a aula, ter uma justificativa plausível e não me sentir tão culpada. A aula da parte da manhã era de fundamentos de marketing e a da tarde, de assessoria de imprensa. Isso porque já fizemos um trabalho de planejamento de marketing há algumas semanas e, segundo uma colega: "Sim, porque faz muito mais sentido a gente fazer um trabalho sobre a coisa e só depois ter aula para saber o que é essa coisa". Humor: temos. Ironia: também.

Então dormi um pouco mais, trabalhei na versão do roteiro (o novo prazo agora é humanamente possível de ser cumprido, então topei fazer e estou muito contente! :) e à tarde fui assistir ao debate sobre tradução de literatura brasileira na Casa Guilherme de Almeida, o ponto alto do meu sábado.

Os tradutores Mark Gamal, Katrina Dodson e Ana Kuzmanovic

Havia poucas pessoas na palestra, só umas sete ou oito. Esperava que fosse lotar porque raramente temos a oportunidade de ouvir tradutores estrangeiros falando sobre a experiência de traduzir literatura brasileira de forma presencial. Os três tradutores, entre outros, foram contemplados com uma bolsa do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil e vão ficar entre 15 e 30 dias no país fazendo pesquisas para desenvolverem ou finalizarem suas traduções. É uma forma de o governo brasileiro apoiar e divulgar obras brasileiras no exterior.

Mark Gamal é egípcio, mora em Beirute, no Líbano, e traduz do português e do espanhol para o árabe, Katrina Dodson é americana e traduz do francês e do português para o inglês (ela traduziu Clarice Lispector - Todos os contos para o inglês!) e Ana Kuzmanovic é sérvia e traduz do espanhol e do português para o sérvio. E imagino que o Mark e a Ana também falem inglês.

Primeiro a Simone Homem de Mello, coordenadora do Centro de Estudos Literários, que também é tradutora de alemão e poeta (e cuja voz é muito agradável), leu alguns trechos das obras com que os tradutores estão trabalhando e depois eles leram suas traduções.

Katrina Dodson está traduzindo Macunaíma, de Mário de Andrade. Ela está mantendo algumas palavras em tupi e tentando encontrar soluções para que leitores de língua inglesa sintam o mesmo estranhamento que leitores sentem ao ler a obra original. Ela contou que está trabalhando com um "roteiro", em que há explicações sobre os termos usados em português, está em contato com professores da USP e foi assistir a uma aula de tupi. Contou também que propôs à editora lançar o livro e o DVD do filme juntos e tem expectativa de que o livro alcance um público maior, não só o acadêmico, porque a editora que vai lançá-lo não é acadêmica. Ela quis traduzir essa obra porque a única tradução para o inglês, feita nos anos 1980 por um engenheiro inglês aposentado que morou no norte do Brasil, não está boa e também porque, como ela dá aula de literatura brasileira, ela queria que seus alunos lessem essa obra.

No fim da palestra, alguém fez uma pergunta que eu ia fazer: como os três se interessaram pela língua portuguesa e pelo Brasil. A Katrina contou uma história muito interessante, que parece ter sido um divisor de águas na vida dela. Há sei lá quantos anos, ela trabalhava com comunicação e marketing para empresas da área farmacêutica, era um trabalho muito chato, mas que pagava bem. Nessa época, ela e o namorado (que, fiquei imaginando, também devia ter um emprego chatíssimo) estavam pensando em morar em outro país. Ela queria ir para a França, porque falava francês e ele queria vir para algum país da América Latina, porque falava espanhol. Mas quis o destino que um amigo do namorado chamasse os dois para vir para São Bernardo do Campo, para conhecer o Brasil, e eles vieram. Um dos primeiros lugares que a Katrina viu foi a Praça da Sé, achou horrível, mas depois ela e o namorado foram para o Rio, fizeram um roteiro de turista e ela passou a gostar do Brasil. Então ela deu um jeito de vir morar por aqui por um tempo, arranjou emprego como professora de inglês e se matriculou em algumas matérias na PUC-Rio para conseguir um visto de estudante, mesmo sem falar quase nada de português. A partir dessas aulas e do contato com outros alunos, ela passou a se interessar muito pela literatura brasileira e queria compartilhar as descobertas com amigos americanos, mas era impossível porque a maioria das obras não tinha tradução para o inglês. Imagino que, a partir daí, a jornada dela como tradutora tenha começado. Acho incrível essas pessoas que abraçam as oportunidades que surgem meio que por acaso e aproveitam para tornar suas vidas mais significativas.

Mark Gamal está traduzindo alguns contos do Machado de Assis para uma editora egípcia que está tentando montar um catálogo com obras clássicas. Ouvimos um trecho de "Entre santos" em português e depois a tradução para o árabe; não consegui entender uma palavra, mas gostei da sonoridade da língua. O Mark contou que chegou ao Brasil essa semana e ainda não teve muito tempo de pesquisar, mas foi à igreja São Francisco de Paula, no Rio, onde o conto lido se passa, e isso foi importante para ele entender melhor a ambientação e conseguir passar para o árabe coisas que não existem em sua cultura. Ele disse que não tinha muita ideia do que era "nicho", aquele lugar onde os santos ficam, mas ao visitar a igreja, entendeu. Ele disse que está usando um aplicativo chamado "Rio de Machado" para ajudá-lo a fazer itinerários relacionados ao mundo machadiano.

O Mark contou que seu contato com a língua portuguesa aconteceu porque ele arranjou um emprego na embaixada brasileira no Egito e, como já falava espanhol, passou a aprender português. Ele falou algo interessante: talvez tenha começado a aprender idiomas estrangeiros para expandir seu mundo linguístico (e sua visão de mundo em geral), pois a língua árabe é relativamente "limitada", não evoluiu muito nos últimos séculos no sentido de agregar palavras e ideias, ou seja, não é dinâmica comparada a outras línguas.

A Ana Kuzmanovic está traduzindo As meninas, da Lygia Fagundes Telles. Esse livro integrará o catálogo de uma editora nova e, a meu ver, inovadora, pois pretende publicar obras feministas. Além de a Ana ter conseguido esse apoio para vir ao Brasil, a publicação do livro terá apoio do governo brasileiro. Ela já foi conhecer alguns lugares em São Paulo, onde a obra se passa, e contou que o Museu da Resistência mudou sua perspectiva, pois ela não tinha ideia da dimensão do período da ditadura, que é o pano de fundo da obra da Lygia. Contou também que a maior parte dos livros na Sérvia são traduzidos do inglês, francês e russo e há pouca produção de autores sérvios. 

A Ana já sabia espanhol, ganhou uma bolsa de estudos em Portugal e talvez por isso tenha se interessado em aprender português (o sotaque dela é de português de Portugal). Ela disse que quando as editoras precisam ou querem traduzir obras do português recorrem às universidades (ela é professora universitária) e têm três ou quatro opções de tradutores, pois o português não é uma língua que muitas pessoas dominam em seu país, então ela disse que está bem colocada no mercado - e fez a ressalva: "sei que é feio falar isso [que ela está numa situação privilegiada], mas é a verdade". E, por último, só queria comentar que achei a sonoridade do sérvio parecida com a do tcheco.

Simone Homem de Mello lendo um trecho de As meninas, da Lygia F. Telles

7 comentários:

Tati* disse...

Nossa, deve ter sido muito interessante este bate-papo com os tradutores!

مارك جمال disse...

Olá! Só queria dizer que gostei muito do post. Ficou excelente. Agradeço também que você achasse a minha opinião sobre o árabe interessante. Muitas pessoas achariam insultante.
Seria bom intercambiar impressões sobre algumas questões tratadas no encontro: Machado de Assis, a escravidão na obra dele... etc.
Obrigado,
Mark

aline naomi disse...

Foi muito interessante, Tati! Gostei muito, e provavelmente foi muito mais útil que a aula de assessoria de imprensa... haha Espero não ter perdido nada de importante.

aline naomi disse...

Que honra ter um comentário seu aqui, Mark! Gostei muito de ouvir você e os outros tradutores sábado.
Que sua estadia no Brasil seja boa e produtiva.
Não leio Machado de Assis desde a época da faculdade (há mais de dez anos), mas se eu puder ajudar em algo, pode me mandar e-mail (naomi.sassaki@gmail.com).

aline naomi disse...

Obs.: Uma pena eu não saber árabe, vi que no seu blog você escreve sobre pessoas que me interessam (Cortázar, Malala...).

Tati* disse...

Pelo que a galera falou, as aulas foram ruins... e a próxima parece que vai ser o dia inteiro de MKT :(

aline naomi disse...

Ah, então você também não foi para a aula! Haha. Achei que tinha ido.
Afe, essas aulas de marketing são muito desestimulantes, já que não pretendo trabalhar com isso. Fico pensando que em vez de a grade ter tantas aulas dessa matéria (isso é realmente necessário??? nem precisa responder!), poderíamos ter mais aulas sobre como montar projetos editoriais eficientes para o orçamento e os prazos não estourarem. Estou bem desanimada porque o que mais me interessa, parece, vai ser dado tudo correndo no ano que vem. GRRR! >_<
Aula de marketing o dia inteiro... imagina a minha vontade de ir para essa aula. Mas o bom é que depois tem HAPPY HOUR! =)