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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"Estou com câncer, me paga um sorvete?"

Descobri que estou com um carcinoma, um tipo de câncer, na língua no fim do ano passado. Uma consulta médica no começo desse ano confirmou o resultado da biópsia, o médico me orientou a procurar hospitais especializados em tratamento de câncer, e é isso.

Não sei se minha mente estava tentando me distrair da seriedade do problema, mas uma das coisas em que pensei logo após o diagnóstico foi: queria ver a reação das pessoas se eu chegasse perto delas e falasse "Estou com câncer, me paga um sorvete?" [Porque todas as minhas economias foram gastas com tratamento e não tenho mais como comprar as coisas que eu adoro...]. Seria engraçado ver o choque estampado na cara de estranhos... que provavelmente me pagariam um sorvete.

Não sou muito de chorar e de ficar me lamentando, mas chorei um dia, porque pensei que fosse morrer logo. E o pior não era o fato de morrer, era o fato de morrer sem ter feito quase nada do que eu realmente queria na vida - isso, sim, seria trágico. Não tenho medo de morrer, mas queria viver um pouco mais para sentir que minha vida valeu a pena.

Resumindo tudo, consultei alguns médicos, fiz vários exames e, por sorte do destino, um colega de trabalho indicou a médica com quem ele tinha se tratado do mesmo problema. Acompanhada dos meus pais e da Yuri, fui para a consulta no fim do mês passado, gostei muito da médica, senti confiança e empatia. Nessa mesma consulta, decidimos marcar a cirurgia para extrair o tumor e fazer o "esvaziamento cervical" ("limpeza" de linfonodos na área do pescoço para evitar que a doença volte ou se espalhe, pelo que entendi) para amanhã. 

Para piorar meu estado de ânimo, dia 17/01 saiu o resultado da oficina literária que eu queria fazer em Porto Alegre e fui selecionada... só que logo me dei conta de que eu não teria condições de ir para lá esse ano. Chorei de novo. Foi uma das coisas mais frustrantes da minha vida e senti um profundo desalento porque esse ano não ia ser nem um pouco como eu havia planejado. Amigos sugeriram que eu perguntasse se não seria possível reservar a vaga para o ano que vem, dadas as circunstâncias. A assistente do professor foi superlegal e conversou com ele - e minha vaga ficou reservada para o ano que vem (vou agradecer muito a ela pessoalmente depois). Aí quero ficar boa logo e fiquei desejando que esse ano passe logo também.

Coincidentemente, alguns meses antes de receber o resultado da biópsia, eu tinha A lição final, de Randy Pausch, baseado em sua última palestra na Carnegie Mellon University, onde ele era professor. Randy foi diagnosticado com câncer (dez tumores no fígado) e só tinha mais alguns meses de vida. Ele era casado e tinha três filhos pequenos. Como planejar os últimos meses de vida sem se deixar abater?, eu ficava pensando durante a leitura.


Lembrei dele ao ter mais consciência da minha doença. O que eu faria se tivesse mais seis ou sete meses de vida? E por que não fiz nada disso ANTES? 

Primeira grande lição do ano e para a vida: não tenho controle de nada. Tudo que eu quiser fazer e sentir que vale a pena, preciso fazer o mais rápido possível. O amanhã é só uma promessa. Ou, nas palavras de Randy Pausch:

Pergunte a si mesmo: está gastando tempo com as coisas certas? Talvez você tenha causas, objetivos, interesses. Eles merecem seu esforço?

Apesar de ter lido artigos afirmando que alguns pacientes "jovens" (estou com 36 já) morriam entre dois e cinco anos após o diagnóstico, os médicos disseram que as chances de cura, no meu caso, são grandes, apesar de não haver muitos estudos ainda. É que o carcinoma é mais comum em homens acima dos 60 anos que fumam e bebem. Os médicos disseram que isso pode ter sido desencadeado por estresse/ baixa imunidade, mas que não dava para saber ao certo.

Não sei quanto tempo ainda vou viver, mas a perspectiva de que o ano que vem será melhor do que esses últimos me dá ânimo.

Assim que possível vou atualizando este blog.


4 comentários:

Karen disse...

Cuide-se. Você já tem uma oficina esperando por você em 2018. Até lá, assista a muitos filmes legais, leia bons livros, escreva, veja os amigos. E, por favor, durma. Abraço!

Tati* disse...

Que bom que deu certo a vaga da oficina \o/
Qdo vc voltar pra aula, vou te pagar um sorvete ;)

Impressões de Maria disse...

Aline!
Se foi um baque para mim saber disso, imagino para você!
Torço para que tenha dado tudo certo na cirurgia e estou contente por ter conseguido reservar a vaga do curso para o ano que vem.
Vai dar tudo certo :)
Forte abraço.

aline naomi disse...

Karen, Tati e Maria, obrigada pelos comentários.

Aos poucos as coisas estão voltando ao normal. Mas continuo ansiosa para que 2018 chegue logo! :)

Abraços!